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Justiça brasileira reconhece a culpa do Estado na morte de Zuzu Angel

A União terá que pagar R$ 480 mil de indenização para as filhas da estilista, Hildegard e Ana Cristina - Instituto Zuzu Angel
A União terá que pagar R$ 480 mil de indenização para as filhas da estilista, Hildegard e Ana Cristina Imagem: Instituto Zuzu Angel

André Bernardo

Colaboração para o TAB

03/07/2020 04h00

Quando o telefone tocou na madrugada de 14 de abril de 1976, a jornalista carioca Hildegard Angel, então com 26 anos, não teve dúvida: algo tinha acontecido com sua mãe.

Do outro lado da linha, uma amiga de Zuzu Angel (1921-1976) confirmava a suspeita. A estilista tinha sofrido um acidente de carro por volta das 3:30, ao voltar para casa, na Barra da Tijuca, de um jantar na casa de amigos. O Karmann-Ghia que ela dirigia capotou na saída do túnel Dois Irmãos — que liga a Gávea a São Conrado — e caiu de uma altura de dez metros. "A primeira coisa em que pensei foi: Mataram mamãe!", recorda Hildegard, hoje com 70, em conversa com o TAB. "Custei a acreditar naquela crueldade. Não queria aceitar que, depois de perder meu irmão, Stuart, e minha cunhada, Sônia, minha mãe também tinha sido assassinada. Era a terceira vez que aquela desgraça recaía sobre as nossas cabeças."

Desde então, Hildegard Angel trava uma "batalha sem trégua" para provar que, ao contrário do que insistem em dizer alguns veículos de comunicação e, até mesmo, alguns livros de história, sua mãe não morreu de um "suposto acidente de carro" porque ingeriu álcool, cochilou ao volante ou sofreu um infarto. A Justiça brasileira acaba de reconhecer que Zuzu Angel foi assassinada por agentes da ditadura militar. Por isso, a União terá que pagar uma indenização de R$ 240 mil para cada uma das filhas da estilista, Hildegard e Ana Cristina.

A ação foi proposta pelas duas, através do advogado Ivan Nunes Ferreira, e não cabe recurso. "Zuzu já foi incluída no panteão dos heróis e das heroínas da pátria, teve a certidão de óbito retificada e recebeu todas as homenagens possíveis e imaginárias. Mesmo assim, ainda faltava o carimbo da Justiça brasileira. De hoje em diante, quem colocar em dúvida o heroísmo dela corre o risco de ser contestado judicialmente", avisa Hildegard.

Considerada a primeira estilista brasileira, Zuzu Angel era o nome artístico de Zuleika Angel Jones. Mineira de Curvelo, município localizado a 168 quilômetros de Belo Horizonte, Zuleika de Souza Netto se casou, em 1943, com o norte-americano Norman Angel Jones. Separada do marido em 1960, lutou, sozinha, para sustentar a casa e criar os três filhos: Stuart, Hildegard e Ana Cristina. Como estilista da alta-costura, chegou a ter loja em Ipanema e Nova York. Suas criações, repletas de brasilidade, alcançaram fama internacional e vestiram estrelas de Hollywood, como Liza Minelli, Kim Novak e Joan Crawford.

Corpo de Stuart ainda não foi encontrado

A vida de Zuzu Angel, porém, virou pelo avesso na manhã de 14 de maio de 1971. Seu primogênito, Stuart Edgar Angel Jones (1946-1971), foi capturado em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, por agentes do CISA (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica), e levado para a Base Aérea do Galeão, na Ilha do Governador. Na época, Stuart tinha 26 anos, era bicampeão carioca de remo pelo Flamengo e cursava Economia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O rapaz também fazia parte do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, conhecido como MR-8 — a mesma organização que, em 4 de setembro de 1969, sequestrou o embaixador norte-americano Charles Elbrick (1908-1983), no Rio.

O objetivo do interrogatório de Stuart era um só: descobrir o paradeiro do capitão Carlos Lamarca (1937-1971), um dos principais líderes da luta armada contra o regime militar. Segundo o relato de Alex Polari, um ex-companheiro de militância e carceragem, Stuart foi brutalmente torturado. "Consegui, com muito esforço, olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem-número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para o outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos", relata Polari, com 20 anos, em carta datada de 23 de maio de 1972. Detalhe: o codinome do CISA era "Paraíso".

Zuzu Angel

Poucos dias depois, a carta escrita e assinada por Polari chegava às mãos de Zuzu Angel. Nela, o preso político descrevia as últimas palavras de Stuart. Tossindo muito, balbuciou: "Água", "Vou morrer" e "Estou ficando louco". Como resposta, ouviu de um dos torturadores: "Deixe de frescura, Paulo, você não vai morrer ainda não...", debochou, chamando Stuart pelo seu codinome no MR-8. Em 2013, durante depoimento à Comissão da Verdade, Polari confirmou cada palavra do que dissera. Preso de 1971 a 1980, ele vive hoje, aos 69 anos, na Amazônia, onde se tornou líder de uma comunidade de Santo Daime. Procurado pela reportagem do TAB, preferiu não dar entrevista.

Zuzu alertou amigos

Desde que Stuart foi capturado, Zuzu não teve mais um minuto de paz. Em setembro de 1971, realizou um desfile-protesto na casa do cônsul do Brasil em Nova York, Lauro Soutello Alves. Na passarela, as modelos usavam figurinos bordados com tanques, fuzis e canhões. Já Zuzu vestia um vestido preto em sinal de luto, e ostentava um cinturão com crucifixos e um colar com a imagem de um anjo.

Em 30 de novembro de 1973, Zuzu sofreu outro duro golpe: Sônia de Moraes Angel (1946-1973), viúva de Stuart e militante do movimento ALN (Ação Libertadora Nacional), foi presa, torturada e morta por agentes do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de repressão da ditadura, em São Paulo. Seus restos mortais só foram identificados em 1991, quase vinte anos depois.

Há qualquer coisa de tragédia grega, de Antígona, na vida de Zuzu. Ela não se fazia de coitada, nem vivia chorando pelos cantos. Era uma guerreira
Sérgio Rezende, diretor e roteirista de 'Zuzu Angel'

A história da estilista ganhou um filme em 2006, protagonizado por Patrícia Pillar como Zuzu Angel e Daniel de Oliveira no papel de Stuart. "É comum pais que oferecem a própria vida pela vida de seus filhos. Zuzu Angel foi além: ela deu sua vida por um filho que já estava morto. Deu sua vida pela memória de Stuart. A história dessa mulher continua atualíssima", diz Rezende ao TAB.

Como Norman, o pai de Stuart, era cidadão americano, Zuzu resolveu denunciar o sumiço do filho e reivindicar o direito de sepultá-lo para o senador democrata Edward "Ted" Kennedy (1932-2009) e para o secretário de Estado, Henry Kissinger. No caso de Kissinger, hoje com 97 anos, Zuzu chegou a entregar um dossiê sobre o caso, quando ele se hospedou no Hotel Sheraton, no Rio, em fevereiro de 1976.

Sua ousadia despertou a ira dos militares. Logo, ela passou a ser investigada, perseguida e ameaçada. "A morte de Zuzu se reveste de particular significado. Ela não era militante política nem estava envolvida em qualquer ação contra o regime ditatorial. Foi assassinada por procurar seu filho, preso e desaparecido nos porões da repressão. Zuzu Angel queria encontrar seu filho, e a ditadura a matou apenas por isso. Nada é mais ilustrativo do horror de uma ditadura que a história de Zuzu Angel", revela ao TAB o advogado e professor Pedro Dallari, ex-presidente da CNV (Comissão Nacional da Verdade).

No dia 23 de abril de 1975, temendo pelo pior, a estilista escreveu dezenas de bilhetes e os entregou a artistas e intelectuais — como o jornalista Zuenir Ventura, o dramaturgo Paulo Pontes (1940-1976) e o compositor Chico Buarque. "Se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho", dizia o texto. "Se sua mãe tenta pular da janela, o que você faz? Tenta segurá-la, certo? Não queríamos que mamãe morresse. Mas sabíamos que ela estava condenada à morte. Sentíamos um misto de medo e admiração", afirma Hildegard.

De samba-enredo a livro infantil

Ao longo das décadas, Hildegard e Ana Cristina, que vive na França, venceram algumas batalhas. Em 1998, a CEMDP (Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos) do Ministério da Justiça concluiu, após ouvir o relato de uma testemunha — o advogado Marcos Pires — que a estilista não foi vítima de "acidente de causas desconhecidas". Pelo contrário: sofreu um atentado perpetrado por agentes da repressão. Seu carro, de acordo com a testemunha, foi jogado para fora da estrada por outro veículo depois de sair do túnel Dois Irmãos, hoje rebatizado de Zuzu Angel. Por essa razão, novas certidões de óbito foram emitidas em nome de Zuzu e Stuart. Nos documentos, a 'causa mortis' de mãe e filho foi reconhecida como "morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro".

O grande legado da mamãe é a coragem. Ela nos ensinou a não nos intimidar. A seguir sempre em frente
Hildegard Angel, jornalista


Em julho de 2014, outra vitória: a Comissão Nacional da Verdade anunciou que uma fotografia publicada no jornal O Globo em 1976 comprovava o envolvimento de militares na morte de Zuzu. Em uma imagem do fotógrafo Otávio Magalhães, o ex-coronel do Exército, Freddie Perdigão (1936-1996), aparece a poucos metros do carro capotado. Em depoimento à Comissão da Verdade, o ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), Cláudio Guerra, acusou Perdigão de participação no assassinato de Zuzu e até alertou para a presença dele na cena do crime.

Bilhete de Zuzu Angel, distribuído entre artistas e intelectuais - Instituto Zuzu Angel - Instituto Zuzu Angel
Bilhete de Zuzu Angel, distribuído entre artistas e intelectuais
Imagem: Instituto Zuzu Angel

Acusado de ser o responsável pela "Casa da Morte" de Petrópolis (RJ) e autor do atentado do Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, Perdigão morreu em 1996, aos 60 anos, em decorrência de uma cirurgia de apêndice. Já Guerra virou pastor da Assembleia de Deus e, em 2012, publicou "Memórias de uma Guerra Suja", escrito por Rogério Medeiros e Marcelo Netto. "Trata-se de mais um caso em que ficou demonstrado que a violência contra os opositores do regime não foi resultado de atos isolados de alguns agentes da repressão, mas de uma ação planejada e sistemática, coordenada pela cúpula dos governos daquele período", afirma o advogado Pedro Dallari, ex-presidente da CNV.

Um ano depois de sua morte, Zuzu ganhou a primeira de muitas homenagens: a música "Angélica", composta por Chico Buarque e Miltinho, do grupo MPB-4. Entre outros tributos, teve ainda livro ("Eu, Zuzu Angel, Procuro Meu Filho", de Virginia Valli, irmã da estilista, em 1986), filme ("Zuzu Angel", dirigido e co-roteirizado por Sérgio Rezende, em 2006) e até samba-enredo ("Quem é Você, Zuzu Angel? Um Anjo Feito Mulher?", da escola de samba Em Cima da Hora, em 1998).

A mais recente homenagem partiu do jornalista e escritor David Massena, autor do livro infantil "Zuzu" (2019). "Não podemos deixar que esse capítulo da história do Brasil seja apagado ou ignorado pelas novas gerações. O jovem Stuart era um estudante que sonhava com um país mais justo e igualitário. Ele queria que sua geração tivesse voz e fosse ouvida. Mas a história de Zuzu fala sobretudo de amor. O amor desesperado de uma mãe em busca do filho. Zuzu vive! Viva Zuzu!".