PUBLICIDADE

Topo

Empresas monitoram produtividade no home office; será que isso ajuda?

Chris Montgomery/Unsplash
Imagem: Chris Montgomery/Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

08/07/2020 04h00

Se o seu chefe recebesse uma foto sua no home office a cada dez minutos, o que ele veria? Você, de moletom, largado no sofá com o computador no colo enquanto assiste TV? Ou quem sabe um funcionário exemplar, em uma mesa dedicada ao trabalho, em um ambiente ideal, onde mais nada chama sua atenção além do trabalho?

Será que esse monitoramento constante te ajudaria a se manter focado, sem as distrações que o trabalho em casa pode trazer? E, mais importante: isso teria impacto positivo na sua entrega final?

Concordando ou não, esse serviço já é uma realidade. A TimeDoctor, empresa que define como objetivo "ajudar empresas e indivíduos a serem mais produtivos", é uma das organizações que oferecem serviço de monitoramento — incluindo fotos periódicas da webcam — para facilitar a vida dos gestores que querem acompanhar (bem) de perto o que os funcionários fazem durante o tempo em que são pagos pela empresa.

Soluções como essa já existem desde antes da pandemia — e vão desde o mais simples ponto eletrônico remoto, passando pelo acompanhamento de quanto tempo as pessoas passam em cada tarefa durante o dia, chegando até a níveis mais avançados de monitoramento, como fotos pela webcam do funcionário e gravação da tela do computador em horário de trabalho.

Mas o novo coronavírus — com a migração massiva para o home office que começou em março no Brasil e deve se manter em menor escala para além do tempo de distanciamento social — fez disparar a contratação desse tipo de serviço. A Enaible, uma startup dos Estados Unidos que está desenvolvendo um sistema de monitoramento de produtividade por inteligência artificial disse ao MIT Technology Review que teve crescimento de quatro vezes na procura desde o início da pandemia.

No Brasil, os números também são altos. A fSense, empresa do ramo com sede em Minas Gerais, teve crescimento de 2000% de março para cá no número de novos clientes, chegando a 150 contratações do serviço por mês, diz Eduardo de Souza Vieira, gerente comercial da empresa, ao TAB.

"A gente tem cases [de empresas] com mais de 5 mil pessoas em casa. Imagina você conseguir estar próximo de mais de 5 mil pessoas espalhadas?", diz Vieira. "A solução funciona de forma que não atrapalha o colaborador em fazer as atividades diárias, e as empresas têm a política de comunicar que existe um software acompanhando as atividades estão sendo executadas no dia a dia."

A fSense não filma a tela nem tira fotos pela webcam remotamente, mas informa ao gestor quanto tempo cada funcionário passou realizando cada atividade no computador da empresa — se ele começou a trabalhar às 8h e ficou até às 8h30 lidando com e-mails, depois das 8h30 às 10h50 passou para o Excel, por exemplo.

"A intenção é que você consiga verificar, a partir do tempo que a pessoa está gastando tanto com esse aplicativo, se você pode trazer alguma melhoria para ajudar na rotina de trabalho dela. Não só para aumentar a produtividade, mas trazer facilidades e funcionalidades para que ela possa desempenhar melhor a função", justifica o gerente comercial.

Outra solução desse universo, oferecida aqui no Brasil, é da empresa enContact. A ferramenta se define como um gerenciador de e-mail, para auxiliar no trabalho de empresas que precisam responder a muitas mensagens — serviços de atendimento ao cliente, por exemplo. Ela organiza os e-mails que já foram respondidos, para evitar duplicidade de trabalho entre os funcionários, mas também indica o nível de produtividade de cada um. A empresa calcula isso com base em uma série de fatores, incluindo o número de mensagens respondidas por cada funcionário e o nível de dificuldade de trabalho.

Odare Abisam, diretor da empresa, diz que uma das preocupações dos clientes costuma ser a privacidade dos colaboradores, já que um terceiro acaba tendo acesso às caixas de entradas de todos. No entanto, ele afirma que dados sensíveis não são colhidos, e que o foco é ajudar na gestão das mensagens. "As empresas consultam o RH e chega-se à conclusão de que a caixa de e-mail da empresa deve ser uma caixa que não deveria ter coisas particulares do funcionário. E normalmente é enviado um comunicado quando a gente implanta a ferramenta", relata.

Gestão 4.0

Do ponto de vista de quem estuda modelos de gestão, uma abordagem muito fiscalizatória pode passar a mensagem de falta de confiança, afirma Fátima Motta, professora de liderança de equipes da pós-graduação da ESPM SP (Escola Superior de Propaganda e Marketing). "A partir do momento em que você trabalha com alguém em quem você não confia e precisa monitorar até o que ela está teclando, quanto tempo ela passa sentada na cadeira, isso vai na contramão de tudo que se fala hoje sobre gestão. A questão do home office, de um trabalho 'mais solto', é exatamente para propiciar maior criatividade, maior comprometimento", diz a especialista.

Segundo ela, a chamada gestão 4.0 — práticas consideradas mais atualizadas na área — não considera mais o modelo de subordinação com controle total como uma boa solução. "O middle management tende a ser cada vez mais achatado. Se a pessoa tem o que você chama de autoliderança, ela não precisa de um líder para dizer o que ela tem que fazer, porque está envolvida com o projeto. Na hora que vejo o contrário, penso: será que estamos dando passos para trás?'", questiona Motta.

Por outro lado, algumas soluções podem ser positivas, reconhece a especalista. Tecnologias que ajudem o funcionário a manter o foco ou organizar o trabalho, desde que usadas por livre escolha da pessoa, e não por imposição da chefia, podem ajudar. O ponto eletrônico no home office é um desses exemplos. Ela relata que tem percebido muitos casos de pessoas que trabalham além da conta por estarem em casa — e sem perder tempo no trânsito, por exemplo, acabam estendendo muito as horas de atividade.

Confiança como base

Daniel Matecki Rodrigues, analista comercial em uma empresa de e-commerce, relata que a postura da chefia durante o tempo de home office tem feito toda a diferença durante esse período. Segundo ele, os funcionários receberam cadeiras em casa já no início da quarentena, além de auxílio financeiro da empresa para comprar materiais necessários, como fones de ouvido ou mesas mais ergonômicas. A empresa conta, ainda, com um serviço terceirizado de apoio psicológico a distância para cuidar da saúde mental dos trabalhadores, conta Rodrigues.

"Eu acho que, quando você tem uma cobrança muito alta, você acaba se sentindo desconfortável, como se os gestores e as pessoas que estão acima na empresa não confiassem que você vai conseguir entregar seu trabalho em home office. Mas é igual a um dia no escritório, o trabalho tem que ser entregue, independentemente de onde você estiver", afirma.

As mudanças na rotina de Rodrigues consistem principalmente na implementação do ponto eletrônico pelo computador e na maior frequência de reuniões de acompanhamento, antes mensais e agora semanais — inclusive com happy hour e jogos online.

Para Motta, da ESPM, esse tipo de relacionamento é produtivo quando a empresa sabe contratar. Sem uma boa gestão desde o início, fica quase impossível manter uma equipe motivada — seja no home office, seja presencialmente. "Cada vez mais, vai ser necessário um cuidado na construção de uma equipe", diz ela. "Quem são as pessoas que a gente coloca para trabalhar conosco, o quanto o líder estimula essas pessoas e quanto elas têm as qualidades de autoliderança, autodisciplina, autoconhecimento e maturidade."