PUBLICIDADE

Topo

Cansado do isolamento? Redução de danos começa a virar política individual

29.mai.2020 - De máscara, moradora anda de bicicleta na praia da Baleia, em São Sebastião, litoral norte de São Paulo - Marcello Zambrana/AGIF/Estadão Conteúdo
29.mai.2020 - De máscara, moradora anda de bicicleta na praia da Baleia, em São Sebastião, litoral norte de São Paulo Imagem: Marcello Zambrana/AGIF/Estadão Conteúdo

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

05/07/2020 04h00

Quem começou a fazer isolamento social com seriedade em meados de março está há mais de cem dias sem papear ao vivo com ninguém que more em outra casa. Só vai ao mercado, à farmácia e à padaria, mantendo distância de dois metros de outros seres humanos quando possível. Não foi a shopping, muitas vezes não viu nem a família e, definitivamente, não fez festa. São mais de três meses de abdicações. Tem gente que não se sente mentalmente preparada para segurar essa barra por muito mais tempo.

Não é como se o cenário estivesse muito mais tranquilo. Os números de infectados e mortos pelo novo coronavírus no Brasil não param de crescer. Mas o que está batendo mesmo é a fadiga — e já tem gente escolhendo fazer algumas concessões e se arriscar por um pouco de interação social.

"Há uma frustração da população pelo período que foi necessário se manter isolada, que foi maior do que o esperado. Diante dessa frustração, há uma decepção, um cansaço, uma fadiga. É uma vontade de normalizar a situação. A monotonia cansa, principalmente pelo alongamento desse período", explica Arthur Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do IPq-USP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo).

So? queria dizer pra voce?, amigo ota?rio que ainda esta? em isolamento, que e? grac?as a no?s ota?rios que esse pai?s ainda na?o atingiu a marca de 5 mil mortes por dia. Deixo aqui um agradecimento a todos os companheiros ota?rios que na?o foram infectados pelo pior vi?rus, um que circula ha? anos nesse pai?s e ja? acomete grande parte da populac?a?o: a indiferenc?a. Ainda bem que existem esses ota?rios que sa?o capazes de sentir dor e de sentir tristeza pelas vidas que se va?o. Um grande viva aos ota?rios que ainda sacrificam o desejo individual por entenderem que existe uma responsabilidade coletiva. Um viva maior ainda a todos os ota?rios por colocarem a sau?de pu?blica num lugar de maior importa?ncia que os shopping centers. A pandemia realmente separou os ota?rios dos espertalho?es e agora posso ver com muito mais facilidade quem sa?o os ota?rios que me acompanham. Obrigada por serem ota?rios comigo. Sei que ser ota?rio na?o e? fa?cil e tem dias que da? vontade de desistir. Mas saibam que um dia la? na frente, quando esses tempos ficarem no passado e os espertalho?es estiverem novamente camuflados entre no?s usando hashtags e fingindo ter sentimentos, no?s saberemos quem segurou a barra. Andaremos de novo entre as pessoas e sera? possi?vel encontrar os idosos, os imunossuprimidos, os diabe?ticos, os hipertensos e todas as pessoas que permaneceram vivas porque no?s (e bateremos no peito ao dizer isso) fomos ota?rios o tempo todo. . . . #aindaestouemcasa

A post shared by Majonéz (@majonezbdfk) on

Danila soma à frustração outros dois fatores que dificultam a quarentena ao longo do tempo. O primeiro é que a decisão pelo auto isolamento (já que não houve lockdown imposto pelo poder público) é racional — "preciso ficar em casa para me proteger e proteger os outros" —, enquanto, do ponto de vista afetivo, nos sentimos privados das liberdades de movimentação e socialização. É uma escolha diária entre o racional e o afetivo.

O outro ponto é a falsa sensação de que o pior já passou. Com o fechamento de hospitais de campanha, por exemplo, e a retomada de atividades não essenciais, a impressão geral pode ser de falsa segurança. "Não podemos esquecer que ainda há muita subnotificação", alerta Cláudia de Souza Lopes, diretora do do Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). "Além disso, a taxa de contágio, o R, ainda é muito alto. Enquanto ele estiver acima de 1, significa que a pandemia ainda está em crescimento exponencial."

Sem uma vacina, a especialista alerta que dificilmente a situação do país tem chances de melhorar em breve. Com isso, Lopes reconhece que há um cansaço generalizado por parte de quem se privou da vida social nos três últimos meses. "As pessoas começam a assumir riscos, mas acho que tudo depende da capacidade de cada um de entender a gravidade da situação e do grau de informação que ela tenha para fazer essas escolhas", diz a epidemiologista. Ela observa que, sem uma mensagem clara do poder público, é cada um por si na tomada de decisões — que precisam levar em conta o coletivo.

Em um artigo finalizado em maio, Jéssica Farias, estudante de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da UnB (Universidade de Brasília), constatou alguns fatores que contribuem com a escolha pessoal por se isolar.

Posicionamento político, renda e nível de tolerância de cada um a incerteza são algumas das principais características que influenciam nessa decisão. Quem precisa sair para trabalhar para se sustentar, pessoas que se identificam politicamente como de direita e aquelas que demonstraram menor tolerância a situações incertas foram as que mais se disseram dispostas a quebrar a quarentena.

"Se todos os seus amigos, a família, todos que pertencem ao mesmo grupo que você, estão respeitando o isolamento, existe uma pressão maior para que você também respeite", diz ela. E isso se reflete também entre grupos políticos cujos membros se identificam fortemente entre si. "É a psicologia social de grupo", explica.

Política pessoal?

"É fundamental considerar que há pessoas que não querem ou não podem aderir ao confinamento e que, diante das pesadas exigências de cuidado que o distanciamento social exige, simplesmente vão desprezá-las de todo, sem compreender que algum ato de precaução é melhor do que nenhum", avalia o psicólogo Gustavo Mano, que abriu um debate sobre o tema no Twitter e acabou reunindo depoimentos de diversas pessoas sobre os prós e contras de uma política de redução de danos.

A redução de danos é uma prática já conhecida na saúde pública, principalmente no combate ao HIV e no uso de drogas. A ideia é não apelar para a abstinência, mas sim para o controle do comportamento de risco para torná-lo o menos arriscado possível. Um exemplo é a distribuição de seringas novas para usuários de drogas com a intenção de evitar a transmissão de HIV. Outra aplicação mais comum de redução de danos é alertar que alguém também consuma água quando ingere bebidas alcoólicas.

Em relação ao novo coronavírus, a abstinência de contato social é comprovadamente a medida mais eficaz para conter a transmissão da Covid-19. Mas, considerando que o distanciamento nem sempre é cumprido — tanto por quem realmente precisa sair de casa, quanto por aqueles que desrespeitam a medida por escolha pessoal — há especialistas que defendem a abordagem da redução de danos também na pandemia. Em maio, a epidemiologista e professora da escola de medicina da Universidade de Harvard Julia Marcus opinou, em texto na revista The Atlantic, que medidas "tudo ou nada" não seriam produtivas.

A cidade de Nova York, por exemplo, apesar de ter decretado lockdown, adotou uma política que pode ser considerada de redução de danos ao oferecer à população uma cartilha do sexo seguro durante a pandemia. A recomendação é sempre pelo isolamento, mas o documento leva em conta que nem todos vão respeitá-lo, e orienta sobre como minimizar os riscos. "Envergonhar publicamente as pessoas não elimina comportamentos arriscados", lembra Marcus na The Atlantic. "Só faz com que eles fiquem escondidos."

A ideia, portanto, é lembrar que não existe risco zero em nenhuma atividade, mas que é preciso entender os diferentes níveis de exposição ao vírus para tomar decisões bem informadas quando elas precisarem ser tomadas, reduzindo a chance de contaminar outras pessoas. E isso inclui o momento em que o isolamento se torna uma carga mental pesada demais. Arthur Danila avalia que estamos vivendo um momento de luto coletivo — e que cada pessoa passa pelas diferentes fases desse processo em seu próprio tempo.

No entanto, mitigar os riscos sem apelar para a abstinência funciona melhor em forma de política pública, com base em dados. "A estratégia de redução de danos precisa ser coletiva, esclarecida, explícita. O acesso à informação é a base para desenvolver métodos de mitigação dos riscos, e isso não se faz individualmente: é preciso recorrer a achados científicos, avaliar criticamente o que é interessante de cada contexto, fazer uso do saber comunitário", observa Mano.

Como se proteger

Sem orientações do poder público, muita gente tem aplicado — mesmo sem perceber ou sem usar esse nome — estratégias de redução de danos baseada nas informações que consome. Isso só funciona se todo mundo estiver bem informado e souber dos riscos. Raquel Silveira Bello Stucchi, professora da disciplina de doenças transmissíveis do Departamento de Clínica Médica da FCM/Unicamp (Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas), lembra que muita gente acredita, erroneamente, que pessoas assintomáticas praticamente não transmitem o novo coronavírus, por exemplo.

"A primeira coisa com que preciso me preocupar é, se for encontrar alguém, que seja num local ventilado. E, quanto maior o número de pessoas, maior a chance de transmissão do vírus. Mesmo quem não tem sintoma transmite, e se eu ficar duas horas do lado de uma pessoa infectada, dividindo o garfo, o copo de caipirinha, conversando sem máscara do lado da carne do churrasco, minha chance de transmissão vai aumentar", alerta Stucchi. Se for passar mais de duas horas fora de casa, mesmo que ao ar livre, lembre-se de levar mais de uma máscara para trocar.

Em alguns países com transmissão mais controlada do vírus, especialistas já começam a pensar em como a socialização pode ser feita de forma segura. Restringir ao máximo o número de pessoas que você encontra — e garantir que elas façam o mesmo — é um caminho. Usar máscaras e higienizar as mãos nesses encontros, além de manter 2 metros de distância, também são medidas indicadas. Alguns países sugerem que os cidadãos comecem a formar "bolhas" de contato. A ideia é escolher poucos conhecidos que também estejam isolados em suas casas e tomando cuidados, para pequenos encontros. Já tem gente pedindo até que os amigos façam o teste para identificar se estão contaminados antes de encontrá-los. Vale lembrar que nem isso garante a segurança, já que tudo depende do tipo de teste feito, e que a pessoa pode se contaminar antes de receber o resultado.

De qualquer modo, a melhor opção para não ficar doente e proteger os outros continua sendo o máximo de isolamento possível. Stucchi lembra que a culpa de transmitir a doença para outra pessoa por falta de responsabilidade pode ser um peso grande para carregar. "Eu, por exemplo, não tenho ido visitar minha mãe, que é idosa. Se acontecesse algo, jamais me perdoaria. A gente tem que ir fazendo o melhor que pode nesse momento."

As escolhas das especialistas

O shoppings já reabriram e, em breve, restaurantes e bares também voltarão a funcionar em São Paulo. E você? Vai ter coragem de voltar a frequentá-los? TAB ouviu duas especialistas para saber quais atividades elas consideram de maior ou menor risco, e como se sentiriam seguras.

Leia os depoimentos:

Camila Bicalho, professora de infectologia da Faculdade de Medicina da PUC-SP - Camila Bicalho/Acervo pessoal - Camila Bicalho/Acervo pessoal
Camila Bicalho, professora de infectologia da Faculdade de Medicina da PUC-SP
Imagem: Camila Bicalho/Acervo pessoal

Camila Bicalho, professora de infectologia da Faculdade de Medicina da PUC-SP
Encontrar um(a) amigo(a) ou parente que mora sozinho(a) e trabalha em casa

Caso você não tenha sintomas e seu colega e/ou amigo também não tenha — e ambos não tenham tido contato com caso suspeito ou confirmado de Covid-19 —, vocês podem se encontrar, desde que respeitem as regras de distanciamento social.

Frequentar shopping centers / Frequentar lojas na rua

Para começar, evite idas desnecessárias. Caso você precise comprar um produto ou resolver algum problema, não se esqueça de manter as regras do distanciamento social, o uso da máscara, e a higienização das mãos com solução alcoólica.

Ir passear em um parque

EVITE aglomerações, EVITE ir em grandes grupos. EVITE permanecer por tempo maior do que o planejado. Atividades físicas são muito importantes para manutenção da saúde física e mental, mas nem nesse momento devemos esquecer as regras básicas de distanciamento social.

Ir a um restaurante

Para essa pergunta eu tenho até uma experiência pessoal. Precisei fazer uma viagem a São Paulo para resolver uns problemas pessoais e parei em um restaurante na estrada. Primeira coisa: o salão tinha um espaçamento de 1,5 metro entre as mesas, nas mesas havia divisão com acrílico entre os clientes, todos os trabalhadores do restaurante estavam de máscara. Os clientes só retiravam as máscaras na hora de comer. Havia grande disponibilidade de solução alcoólica em todo o salão. Me senti segura, fiz minha refeição e segui viagem.

Ir ao cinema

Os cinemas são ambientes climatizados e as cadeiras ficam muito próximas. Acho que, por enquanto, uma boa alternativa são os cinemas tipo drive-in ou continuar com as plataformas de streaming.

Viajar de carro

Desde que você viaje com as pessoas que estão convivendo com você, não tenha ninguém com sintomas de gripe, não há grandes problemas.

Viajar de avião

Nesse caso, temos o mesmo problema do cinema: ambiente fechado, pessoas muito próximas e climatizado. Se você puder evitar, é melhor. Se, por razões de trabalho, doenças etc, você precisar viajar, use máscara no voo e procure companhias aéreas que estejam trabalhando com número menor de passageiros, garantindo um espaço maior entre os mesmos.

Viviane Alves, professora do Departamento de Microbiologia da UFMG  - Viviane Alves/Acervo pessoal - Viviane Alves/Acervo pessoal
Viviane Alves, professora do Departamento de Microbiologia da UFMG
Imagem: Viviane Alves/Acervo pessoal

Viviane Alves, professora do Departamento de Microbiologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
Encontrar um(a) amigo(a) ou parente que mora sozinho(a) e trabalha em casa

É difícil saber o que me deixará segura para voltar a algumas atividades. Sou asmática e, assim, grupo de risco para desenvolver sintomas graves de doenças respiratórias. Em qualquer lugar, para me sentir segura, de fato tenho que contar com o compromisso pessoal de manter o distanciamento físico, higiene das mãos e uso da máscara — meu e de quem me rodeia. Encontrar um amigo ou parente que mora sozinho e trabalha em casa é seguro, pois o risco da pessoa se infectar é menor se ela evita situações de contato com muitas pessoas, mas essa segurança dependeria de ambos estarmos testados.

Não me sentiria segura de trabalhar em local fechado com outras pessoas, pois é condição favorável de transmissão, onde o vírus pode ficar suspenso no ar nas gotículas respiratórias, mesmo com as pessoas sendo testadas regularmente. Assintomáticos podem não ser detectados, e pré-sintomáticos transmitem de 1 a 4 dias antes dos sintomas. É impossível prever quem se infectou.

Frequentar shopping centers / Frequentar lojas na rua

Frequentar shoppings, lojas de rua, cinema, viajar de avião e ir a restaurante tem o mesmo alto risco de infecção de um escritório fechado, e só me sentiria segura mantendo distância de 2 metros, com máscara e higienização constante das mãos.

Viajar de carro

Viajar de carro, se for carro próprio, é o mais seguro, pois só você e as pessoas do seu convívio utilizam o veículo. Se for compartilhado com estranhos, o risco permanece, e este é um local onde manter o distanciamento físico é impossível. Se a situação não puder ser evitada, vidros abertos são um minimizador e dissipam gotículas respiratórias.

Ir passear em um parque/ ir a um restaurante/ viajar de avião

Em tempo de pandemia, em um país onde a testagem é baixa e não sabemos a extensão de infectados — mas estimamos ser muito mais alta do que parece —, e também não conhecemos profundamente a resposta imunológica ao vírus, todas as situações que nos tiram do ambiente doméstico são situações perigosas, principalmente se somos do grupo de risco.

No momento, só me sinto segura em casa. Saio de casa para atividades essenciais e retorno, mantendo todos os cuidados para não introduzir o vírus na minha residência e, assim, não colocar pets, filha e esposo em risco também. É uma prevenção muito simples, baseada única e exclusivamente em bom senso. Afinal, cuidando de si, cada um está cuidado de todos ao seu redor, família e comunidade. Aqueles que precisam sair para trabalhar devem pensar constantemente como cuidar daqueles que o cercam para minimizar risco."