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Sexo, meditação, psicodelia: refúgios para lidar com impactos do isolamento

Jacqueline Lafloufa

Colaboração para o TAB

10/07/2020 04h00

Desde que o distanciamento social foi apontado como uma das principais medidas para evitar o espalhamento do novo coronavírus, quem pôde (e quis) se isolou em casa.

Distante de outras pessoas e de suas rotinas, cada qual tem buscado um refúgio diferente para sobreviver aos desafios psicológicos de se manter em isolamento por tanto tempo. Dentre as muitas estratégias — que vão desde fazer exercícios na sala de casa, dormir, passar mais tempo com os filhos, experimentar uma arte nova ou, no mínimo, maratonar algumas séries — a conferência de tecnologia e inovação Collision, que neste ano aconteceu remotamente, destacou três refúgios curiosos dos quarentenados: sexo, meditação e psicodelia.

Refúgio transante

"Que pena que as inovações da Realidade Virtual não chegaram a tempo para fazermos sexo à distância", lamentou aos risos a sexóloga norte-americana Marianne Brandon durante sua apresentação no Collision. A verdade é que quem ficou cheio de tesão durante o distanciamento social precisou lidar com a delicada decisão de colocar a saúde em risco ao "furar" a quarentena para se satisfazer. Médicos insistem que quebrar o isolamento para transar é extremamente perigoso, porque quem se arrisca pode acabar infectado — e ainda aumenta chance de circulação do vírus. Quem ficou isolado sem companhia foi aconselhado a apostar na masturbação. "Você é o seu parceiro sexual mais seguro", indicou um documento oficial do departamento de saúde de Nova Iorque, que pedia ainda para manter mãos e brinquedos sexuais sempre lavadinhos.

A recomendação não foi do nosso ministério da Saúde, mas o Brasil parece ter entendido o recado: só durante a quarentena, entre março e maio, foram vendidos mais de 1 milhão de vibradores, de acordo com um levantamento do site Mercado Erótico. Para a sexóloga Ana Canosa, esse dado mostra que esse momento desafiador pode ter se tornado uma oportunidade para novas descobertas sexuais que, agora, ficaram (ao menos temporariamente) limitadas ao "sexo solo".

Felizmente, a terapeuta reflete que o isolamento social pode ter sido a desculpa perfeita para que muitas mulheres aproveitassem a chance para provar novas experiências com sex toys. "Foi quase como se elas tivessem uma permissão que autorizasse isso", observa Canosa.

E não foi apenas quem estava sozinho que buscou a companhia dos brinquedos eróticos. Ainda de acordo com o Mercado Erótico, 27% das compras foram feitas por casais, que estão escolhendo e decidindo a compra juntos. Na visão de Canosa, faz todo o sentido: "para muitos casais, transar virou não apenas uma fonte, mas uma necessidade de prazer em um momento tão difícil. Com mais transas, eles podem estar buscando por novidades, tentando fazer algo diferente", descreve a especialista.

Paquera por vídeo

Além dos sex toys, a tecnologia fez o que pôde para atender aos mais "carentenados". Enquanto o sexo por Realidade Virtual não chega, o Tinder aproveitou para liberar a funcionalidade Passaporte, que permite flertar para além dos limites do seu GPS. Afinal, se ninguém vai sair de casa, por que não arranjar um crush internacional, não é mesmo?

Enquanto a funcionalidade esteve aberta sem custo, São Paulo foi a cidade que mais usou o recurso — além de ter sido também o destino "mais visitado" pelos usuários no Brasil. Mais do que apenas trocar mensagens quentes via chat, os usuários dos apps paquera passaram a combinar encontros por vídeo. Agora, o que era apenas uma gambiarra para lidar com a carência da quarentena deve se tornar uma funcionalidade: depois de confirmar que 40% dos jovens entre 18 e 25 anos pretendem continuar usando o vídeo como uma "triagem" dos crushes (para depois decidir se vale um encontro ao vivo), o Tinder inicia hoje os testes com o Videochat, funcionalidade que promove um encontro virtual dentro do próprio app.

O Brasil está entre os 13 primeiros países a testar a novidade, que também vai trazer algumas opções de segurança específicas, como abrir a videochamada apenas com o consentimento das duas partes e permitindo desabilitá-la a qualquer momento. A ideia é evitar que o flerte digital descambe para uma vibe ChatRoulette, sem que haja nudez não solicitada ou linguajar ofensivo. "Estamos priorizando a segurança e o controle, para que nossa comunidade se sinta confortável para levar as conversas para o vídeo apenas quando cada um sentir que é o momento", explica Rory Kozoll, head de segurança do Tinder.

Fato é que a pulsão sexual de cada um é diferente e oscila bastante conforme o momento. "Estados mais depressivos ou entristecidos raramente convertem em sexo. Já a ansiedade converte mais, e a descarga da tensão sexual pode dar uma sensação de alívio momentâneo, mas varia muito", lembra Canosa. Estar mais ou menos transante na quarentena não deveria ser motivo de preocupação, e quem encontrar refúgio na própria sexualidade deveria é aproveitar.

"Se colocar nessas situações para se descobrir é positivo e divertido. Agora, se houver excessos, como passar muito tempo do dia se masturbando, ou se ficar com muita gente está trazendo angústia ou confusão, isso pode ser prejudicial e levar a outro tipo de ansiedade", alerta a sexóloga, que aconselha se observar cuidadosamente, entendendo as próprias emoções e sensações durante a quarentena.

"Medita que passa"

Observe-se. Esteja presente no agora. Perceba as próprias emoções. Se você já passou pela experiência de qualquer meditação guiada, reconheceu rapidamente o conselho para prestar atenção nos próprios sentimentos e focar no momento corrente. A técnica milenar pode ser feita sem o uso de qualquer tecnologia, mas muita gente buscou apps como Headspace, Meditopia, Calm e Lojong para tentar diminuir a agitação mental. De acordo com dados da empresa de pesquisas App Annie, durante a quarentena, houve aumento de 95% no tempo gasto por brasileiros em apps de meditação e mindfulness. Só no app Vivo Meditação, que tem narração em português, houve aumento de 124% no número de usuários ativos entre março e junho deste ano.

Mesmo os apps que são pagos — como Headspace e Vivo Meditação — têm mantido seções de acessos gratuitos para apoiar quem precisar de uma mãozinha em busca de paz, via meditação, em algum momento durante essa pandemia.

Acalmar os pensamentos com meditação e mindfulness é uma estratégia que tem ajudado algumas pessoas a gerenciarem as ansiedades do isolamento. Ariel Garten, neurocientista e fundadora do Muse, ferramenta de biofeedback que permite acompanhar as ondas cerebrais durante meditações, contou, em entrevista ao TAB, que as meditações guiadas mais buscadas no seu app tinham temáticas relacionadas à superação de incertezas, busca por maior foco para trabalhar e a intenção de acalmar a mente. "São temas do cotidiano, que mostram que as pessoas estão tentando reorientar o cérebro para fora do medo e da depressão desse momento. O medo é parte do que nos mantém seguros, mas não precisamos ficar atentos a ele o tempo todo", aconselha Garten.

Para Neda Gould, psicóloga clínica e diretora do centro médico Johns Hopkins Bayview, nos EUA, as reações emocionais que as pessoas costumam apresentar na pandemia são razoavelmente previsíveis. Conforme ela contou em sua apresentação no Collision, é comum que, no início, as pessoas tenham comportamentos mais heróicos ("não vamos ser derrubados por esse vírus"), seguido por um otimismo desmedido ("vai dar tudo certo").
A sensação da Gould é que vivemos hoje uma terceira fase, que traz uma certa desilusão e falta de perspectiva de futuro. Nesse momento, a meditação e o mindfulness podem ajudar até chegarmos ao ponto de fechar o ciclo com as próximas fases, que incluem a aceitação e a reconstrução pessoal diante das novas realidades. "Cada um de nós vai precisar ser criativo para buscar práticas que funcionem individualmente, integrando-as em pequenos momentos de cuidado ao longo do dia", recomenda.

Menos pandemia, mais psicodelia

Meditação é bacana, mas tem quem prefira fazer viagens interiores ainda mais intensas. Apesar de menos respeitada, a psicodelia tem sido um refúgio para algumas pessoas, que fazem uso de substâncias que causam efeitos psicoativos intensos para se divertir enquanto ficam em casa ou para amenizar a depressão que o isolamento social pode causar. É o caso de Lucas*, que mesmo sendo praticante de meditação e yoga, sentiu vontade de buscar nos psicodélicos um conforto extra para sobreviver à quarentena.

"O isolamento me afetou mais do que imaginei. Ainda que ficar em casa não tenha alterado muito a minha rotina, me percebi mais angustiado, ansioso e facilmente irritável", conta ele em entrevista ao TAB. Durante a quarentena, Lucas conta já ter feito microdosagens de psilocibina (substância presente no cogumelo) e de LSD, além de usar ayahuasca regularmente como uma ferramenta de introspecção. "Não queria aplacar sentimentos, mas refletir sobre mim mesmo e esclarecer situações. É como dar um reset na mente, que acabou me ajudando a lidar com o isolamento", relatou.

Apesar dos estigmas sociais, as drogas psicodélicas, hoje, são estudadas de forma bem mais criteriosa para a compreensão de seus efeitos,. Em apresentação no último dia do Collision, Robin Carhart-Harris, doutor em neurociência e pesquisador do Imperial College, no Reino Unido, descreveu alguns resultados preliminares da sua pesquisa, que compara os efeitos terapêuticos de duas sessões com psilocibina sintética com o uso contínuo do antidepressivo escitalopram. O estudo ainda não foi concluído, mas Carhart-Harris apontou a existência de fortes indícios favoráveis à psilocibina. "Isso é mais uma das evidências de que a depressão não é apenas uma alteração química no cérebro, mas uma doença multifatorial", explica Eduardo Schenberg, neurocientista brasileiro que já foi parceiro de pesquisa de Carhart-Harris.

De acordo com Schenberg, a psilocibina é um psicodélico que modifica o estado de consciência dos pacientes, o que permite psicoterapias mais profundas e efetivas. "Durante esse momento de alteração de consciência, o paciente é capaz de fazer o que não faz em um ou cinco anos de terapia. Por isso, os resultados de poucas sessões são tão duradouros", explica.

O uso de psicodélicos, no entanto, não se restringe apenas a momentos terapêuticos. Há quem também busque alterar o próprio estado de consciência como um ato recreativo, de diversão, mesmo. É como se fosse uma variação mais intensa (e por enquanto ilegal) do que se faz com outras substâncias psicoativas legalizadas, como cerveja ou vinho. Conforme um levantamento realizado por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mais da metade dos brasileiros entrevistados disseram que substâncias psicoativas estavam ajudando a sobreviver à pandemia que reina lá fora.

"É que, em um certo sentido, é normal acordar e tomar um café, ou parar para fumar um cigarro, mas há uma linguagem social negativa associada aos psicodélicos. Quando falamos de drogas como LSD, MDMA, cogumelo ou DMT, o que pega é o proibicionismo, o fato de serem ilegais", pondera Leilane Morato, que há três anos atua em programas de redução de danos, aconselhando sobre melhores práticas no consumo de psicodélicos e acolhendo quem passa por "bad trips". Morato acredita que existem drogas que são socialmente aceitas por terem relação direta com ajudar a "aguentarem o mundo" e por poderem ser compradas no balcão da farmácia. "A pessoa tem um trabalho ruim, mas precisa continuar pagando os boletos, então toma um antidepressivo e continua trabalhando", descreve.

No entanto, achar que psicodélicos servem apenas para superar ou "consertar" um momento indesejado é, segundo a profissional, uma narrativa conservadora e limitada. "Substâncias psicodélicas são usadas para a recreação, para expandir a mente e atingir estados não ordinários de consciência", salienta Morato. Ou seja: há quem aposte em psicodélicos para aplacar a tristeza ou a depressão, mas também tem quem use para curtir um som, especialmente por conta da ligação entre os psicodélicos e uma maior apreciação musical provocada pelo aguçamento dos sentidos auditivos.

Usar psicodélicos como refúgio na quarentena, no entanto, pode ser arriscado. Schenberg lembra que as drogas podem ser usadas para múltiplas finalidades. Opiáceos, por exemplo, são um grande problema de saúde pública em diversos países — por conta do vício que causam, mas também por serem a base dos mais potentes analgésicos que são hoje usados em hospitais. "Os psicodélicos não são exceção. Existe o uso recreativo, religioso e terapêutico, mas sempre há risco, especialmente se for um uso não supervisionado", alerta. Apesar de serem fisicamente bastante seguras, segundo Schenberg, as drogas psicodélicas induzem uma experiência de alteração de consciência intensa e prolongada, podendo colocar as pessoas sob seu efeito em situações de bastante risco — seja para atravessar a rua, preparar um alimento ou dirigir um carro. "É arriscado usar sem supervisão, até para usuários mais experientes", reforça o neurocientista.

Com anos de experiência no acolhimento de quem está sob efeito de psicodélicos, Morato sugere que, para não cair numa bad trip, é preciso estar bem mental e fisicamente, e nunca abusar na dose, que deve sempre ser fracionada. Tanto Morato quando Schenberg frisam a importância de cuidar do chamado "set e setting", que são capazes de alterar completamente a experiência com os psicodélicos. "Set refere-se à pessoa, ao que ela sente e o que acontece na vida dela, como está a sua mente. Já o setting tem a ver com o local, onde ela está, com quem está consumindo a droga, se há um propósito, se o consumo acontece de noite ou de dia, verão ou inverno, com música ou sem...", descreve Schenberg.

Apesar de estudar o tema há anos, o neurocientista desaconselha fortemente apostar o uso de psicodélicos para superar momentos desafiadores da quarentena. "Não acho que é uma alternativa que as pessoas deveriam buscar", sentencia. Focada na redução de danos, Morato não chega à contra-indicar, mas faz questão de lembrar que não é uma experiência para ser feita de forma leviana. "Esteja ao menos em um local seguro, e junto de pessoas que você confia", aconselha a especialista.

Como em toda situação dramática, refúgios precisam ser capazes de prover amparo diante de uma circunstância complicada. Em algum momento do futuro, o isolamento e a quarentena vão acabar — e é importante que as pessoas cheguem até lá bem, e com histórias positivas para contar.

*Nome alterado para preservar o anonimato da fonte