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Em 1899, Emília Freitas publicava a primeira ficção científica do Brasil

Ilustração da nova edição de "Rainha do Ignoto" - Editora Fora do Ar/ Divulgação
Ilustração da nova edição de "Rainha do Ignoto" Imagem: Editora Fora do Ar/ Divulgação

Lidia Zuin

Colaboração para o TAB

31/07/2020 04h00

Neste mês de agosto, uma nova campanha de financiamento coletivo do Catarse trará de volta ao mercado o primeiro romance de ficção científica e fantasia publicado no Brasil: "A Rainha do Ignoto". Lançado em 1899, o livro escrito pela cearense Emília Freitas permaneceu esquecido na história da literatura e no mercado editorial. A obra só foi resgatada quase cem anos depois, em 1980, e mais recentemente ganhou novas tiragens pelas editoras Wish, Minna e Aller. Agora, a editora Fora do Ar está lançando nova remessa que promete aumentar o alcance do título — que não apenas tem seu valor histórico, mas também literário.

"A Rainha do Ignoto" narra uma história de protagonistas oscilantes: ora acompanhamos o ponto de vista de Edmundo, um doutor recém-formado em Direito que se muda para Areré, uma cidadezinha no interior do Ceará; ora conhecemos melhor quem é a mulher que dá título à obra. Sem um único nome, a Rainha do Ignoto se metamorfoseia em diferentes entidades, como Funesta, entre os moradores de Areré. A obra apresenta tanto a vida provinciana e seus causos quanto as aventuras marítimas da Rainha do Ignoto junto às suas paladinas que viajam pelo Brasil, resgatando mulheres de suas injúrias maritais, amorosas ou mesmo violentas, dando-lhes boas vindas à utópica Ilha do Nevoeiro: um reino fantástico habitado apenas por mulheres que exercem suas funções no campo das artes, da ciência e da tecnologia.

Literatura fantástica feminina

Para o Alexander Meireles da Silva, que leciona no curso de Letras da Universidade Federal de Goiás, o resgate da obra de Freitas é especialmente importante. "Fico empolgado ao pensar no impacto que 'A Rainha do Ignoto' pode ter ao cair nas mãos de uma adolescente que quer escrever literatura fantástica, mas que pode achar que mulheres não têm tradição nesse cenário no Brasil", comenta o especialista em literatura fantástica e dono do canal Fantasticursos, em entrevista ao TAB.

Emília Freitas foi uma escritora de criação liberal e abolicionista, o que está refletido em suas poesias e também no romance. Assim como Mary Shelley, autora de "Frankenstein", obra fundante da ficção científica, Freitas também passou por dificuldades. Shelley teve de publicar seu romance com autoria anônima e ainda conviver com os rumores de que talvez seu marido, Percy Shelley, fosse o verdadeiro criador de "Frankenstein". Freitas, por sua vez, recebeu o silêncio do público cearense. Em uma época em que o realismo-naturalismo já despontava na literatura brasileira, era, de fato, estranho observar o lançamento de um livro ultrarromântico marcado por uma "nova cientificidade", a partir da inserção do espiritismo e da hipnose em seu enredo.

Em sua tese de doutorado, a pesquisadora Alcilene Cavalcante de Oliveira analisa esse conflito de recepção a partir da ótica de diferentes críticos. Alguns argumentam que o problema tinha a ver com o gênero da narrativa; outros reforçam a questão do gênero da autora. E, de fato, como reforça a historiadora da arte Vanessa Bortulucce, ser mulher e artista no Brasil no fim do século 19 era algo bastante complicado, que dirá uma mulher "pública" como Emília Freitas. "A mulher, quando se mostra, deve se mostrar dentro daquilo que uma época e sua sociedade consideram adequado. Este mostrar-se nunca é autônomo. Atrela-se ao corpo do homem, à permissão masculina, ao olhar censor da época. As mulheres produzem cultura literária, artística, visual, mas sempre a duras penas, e, por mais visibilidade que obtenham, certamente pagam um preço por isso", argumenta.

Para o professor Silva, a conexão entre Shelley e Freitas é clara. Apesar de "Frankenstein" não possuir personagens femininas fortes, como é o caso de "A Rainha do Ignoto", a autora inglesa usou o romance para explorar a ciência e contemplar a importância da mulher para a sociedade. "Isso aparece de forma efetiva na crítica extrapolada da autora sobre o que acontece quando não há respeito ao feminino — algo visto no uso de uma ciência masculina por parte de Victor Frankenstein, para usurpar a primazia feminina na geração da vida", explica o acadêmico, reforçando que, no caso de Freitas, esse tema é tratado na representação do feminino como algo misterioso, poderoso e que subverte o discurso de poder do patriarcado.

Emília Freitas feminista?

É importante destacar como uma leitura contemporânea de "A Rainha do Ignoto" pode cometer anacronismos, se fizermos uma crítica feminista. Ao mesmo tempo que Freitas cria uma personagem forte e libertadora, ainda vemos, ao longo do romance, a presença de moças provincianas que se preocupam com futilidades — e que chegam a adoecer ou mesmo morrer por amores não correspondidos. É curioso, por exemplo, notar como a narrativa se desenrola com a paixão de Edmundo pela misteriosa figura da Rainha do Ignoto; mas que, depois de acompanhá-la secretamente em suas missões, acaba decidindo retornar a Areré e se casar com uma moça interiorana que sofreu, calada, de amores pelo doutor.

Vanessa explica que o feminismo, como qualquer outro conceito, deve ser entendido em seus devidos contextos históricos, que podem expandir ou encolher seus significados. "O Brasil do século 19 construiu sua ideia de 'nacional' tomando valores essencialmente masculinos, que excluem a mulher e legitimam os desejos de uma elite cultural. No caso de Freitas, escrever sobre uma sociedade inteiramente composta por mulheres e também escrever sobre mulheres que possuem anseios 'tradicionais' talvez não seja uma contradição, uma vez que, à luz do nosso século, a mulher é estimulada a escolher o caminho que a faz feliz, e as possibilidades são inúmeras", diz ao TAB. Assim, talvez faça mais sentido não classificar Emília Freitas como uma autora feminista, mas como uma autora libertária.

Ilustração de Bruno Romão para a nova edição de "Rainha do Ignoto" - Editora Fora do Ar/ Divulgação - Editora Fora do Ar/ Divulgação
Ilustração de Bruno Romão para a nova edição de "Rainha do Ignoto"
Imagem: Editora Fora do Ar/ Divulgação

Nos dias de hoje, porém, é sabido como a ficção científica e a literatura fantástica muitas vezes são gêneros utilizados para se fazer uma leitura crítica da sociedade. Já na época do regime militar brasileiro, autores como Chico Buarque se utilizaram dos gêneros especulativos para expressar ideias que poderiam ser censuradas pelo governo. Hoje, não apenas se vê uma maior liberdade para produzir esse tipo de literatura, como também maiores possibilidades de publicação e de divulgação, com o auxílio da internet.

A literatura fantástica no Brasil ainda é um gênero de nicho — o que reduz ainda mais a presença de mulheres —, mas a blogueira do Momentum Saga e escritora Lady Sybylla vê mudanças positivas no cenário atual. "Hoje, é possível publicar nossos e-books e livros em plataformas independentes, é possível criar financiamentos coletivos de obras, coisas que até vinte anos atrás não existiam. Temos mais mulheres publicando e produzindo, pois a internet acaba nos conectando a quem quer ler essa produção e tem maior interesse por publicações antigas."

Mesmo que não seja adequado chamar Emília Freitas de feminista, sua obra discute questões importantes que revelam como, apesar de nossa sociedade ter mudado para melhor nesse aspecto, certas violências e idiossincrasias ainda precisam ser resolvidas. Esse é um dos motivos pelos quais a editora Fora do Ar investe numa nova tiragem de "A Rainha do Ignoto", como explicam ao TAB os editores Nestor Turano Jr. e Bruno Lippi. "É nosso dever levar essas discussões até onde alcançamos."