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100 anos de Bukowski: 'velho safado' ainda resiste ao cancelamento

O escritor e poeta Charles Bukowski completaria 100 anos em 16 de agosto de 2020 - Reprodução
O escritor e poeta Charles Bukowski completaria 100 anos em 16 de agosto de 2020
Imagem: Reprodução

Marie Declercq

Do TAB

23/08/2020 04h00

Bêbado, misantropo e imundo. Gênio, transgressor e sentimental. Misógino, violento e maldito. São muitos os adjetivos usados para descrever a vida e a obra de Charles Bukowski (1920-1994), escritor e poeta norte-americano que completaria 100 anos no último 16 de agosto.

Bukowski deixou uma obra extensa, e talvez seja um dos poucos escritores da sua geração que consegue ser ao mesmo tempo popular e obscuro. Suas citações mais famosas — grande parte delas sobre beber, enlouquecer, odiar a humanidade ou as três coisas juntas — são tão usadas no Tinder e em redes sociais quanto frases de Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu. Com milhões de exemplares vendidos ao redor do mundo, seus livros continuam sendo descobertos e redescobertos no Brasil, além de amados e odiados com a mesma intensidade, graças ao modo com que o escritor retratava as mulheres de sua vida.

Nascido na Alemanha, em 1920, Bukowski foi para os Estados Unidos aos três anos e morou boa parte da vida na Califórnia. Sua infância e juventude ocorreram à sombra da Grande Depressão, com um pai abusivo e um problema de acne grave que deixaram cicatrizes físicas e emocionais, registradas no escritos que usavam sua própria vida como matéria-prima.

O escritor e poeta era conhecido pela escrita honesta, agressiva e misantropa - Reprodução/Youtube - Reprodução/Youtube
O escritor e poeta era conhecido pela escrita honesta, agressiva e misantropa
Imagem: Reprodução/Youtube

Apesar de pobre e sem qualquer perspectiva de sucesso, Bukowski nunca parou de escrever. No final dos anos 1960, após uma longa jornada como trabalhador dos correios, ele recebeu um convite de John Martin, dono da editora Black Sparrow Press. Na década seguinte, Bukowski começou a conquistar algum sucesso comercial com seus contos, romances e poemas — na época, movimentos de contracultura estavam bombando no país. Sob o alter ego Henry Chinaski, escrevia sobre a própria vida, marcada por subempregos, andanças pelos Estados Unidos e, claro, pelo alcoolismo, que não apenas servia de combustível para a escrita mas criava um ambiente insalubre para todos com quem convivia, especialmente as mulheres.

Com o maior sucesso comercial, incluindo adaptações para o cinema como "Barfly - Condenados pelo vício" (1987) e "Factotum - Sem destino" (2007), as histórias sobre a vida da classe operária, com seus vícios e violências cotidianas, se popularizaram e consagraram Bukowski como um transgressor misantropo. Sem nenhuma pretensão de ser um intelectual, era um exemplo vivo do tal "escritor maldito". Seu estilo foi (e ainda é) copiado por aspirantes a escritor. Por isso, os poemas e a prosa de Bukowski são vistos como uma espécie de clichê, muitas vezes desvalorizados por quem estuda literatura a sério.

Acessível e democrático

"Você está falando com quem inventou o Bukowski no Brasil", afirma Ivan Pinheiro Machado, proprietário da editora gaúcha L&PM, responsável pela publicação de mais de 20 livros do autor. Se a obra de Bukowski é tão conhecida e reverenciada no Brasil — especialmente por jovens— , grande parte dessa fama vem das versões de bolso publicadas pela editora, vendidas principalmente em bancas de jornais.

Pinheiro Machado conheceu a obra de Bukowski em Londres, atraído pelo título "Fabulário Geral do Delírio Cotidiano" (1972). Foi o primeiro a ser traduzido no Brasil, em 1983. "Como a ditadura já estava praticamente no fim, começamos a olhar para a turma da geração beat para publicar", conta.

Quase quatro décadas após a publicação desse primeiro título, Bukowski segue sendo um dos autores mais vendidos da editora. "É uma venda constante. Ele era um escroto, mas tem um mérito como artista que é não ter se enquadrado artisticamente em algum gênero. Ele não é beatnik, muito menos gonzo; ele é um outsider com um espaço garantido dentro da literatura moderna. Não tem ninguém parecido com ele."

Bukowski - Ulf Andersen/Getty Images - Ulf Andersen/Getty Images
O escritor e poeta norte-americano Charles Bukowski, no talk show francês "Apóstrofos" (1978)
Imagem: Ulf Andersen/Getty Images

Com tamanha popularidade, não é incomum encontrar acadêmicos e escritores menosprezando sua obra. "Muitos amigos escritores torcem o nariz para o Bukowski. Não pega bem dizer que gostam dele, deve ser mais legal e bonito dizer que gostam do James Joyce. Acho o Bukowski tão importante quanto o Joyce", diz o dramaturgo Mário Bortolotto, que em 2013 adaptou para o teatro o romance "Mulheres" (1978).

Narizes empinados à parte, talvez o escritor possa ser apreciado não só pela honestidade brutal e sem artifícios de sua obra, mas também como uma porta de entrada para jovens leitores conhecerem um outro mundo literário — fora da literatura beletrista e "bonita", e das leituras obrigatórias da escola. "Ele é um escritor para corações solitários", arrisca Pedro Gonzaga, poeta e professor porto-alegrense que traduziu as principais obras do escritor para a L&PM. "Ele fala com um coração adolescente, se comunica com aquele sentimento de que o mundo é uma máquina de moer gente, mas é alguém que já passou por algo parecido nos dizendo para segurar a onda. Porque resiste como uma espécie de anti-autoajuda, um polo oposto aos coaches."

Apesar de a prosa ser mais popular entre os leitores brasileiros, Bukowski publicou dezenas de livros de poesia. Para muitos, seu forte estava nos poemas. "No Brasil existe um problema de pensar a poesia como algo meio parnasiano, com rima, um soneto", explica Gonzaga. "A poesia do Bukowski mostra um outro caminho possível. Ele tem uma comunicação direta, um tom de honestidade que toca o coração do leitor, e isso acontece de uma forma muito espetacular."

Misógino ou incompreendido?

Com a popularização do feminismo na publicidade, no cinema e na comunicação, muitas atitudes de tempos passadas foram revistas em seu teor sexista. Bukowski não é exceção.

Para alguns, ler hoje os romances do autor é como escavar um fóssil de dinossauro enterrado debaixo de um bar. Em "Mulheres", o personagem Henry Chinaski narra em primeira pessoa uma série de relacionamentos abusivos e violentos com todo tipo de mulher. O principal conflito do personagem é amar e odiar as personagens femininas com a mesma intensidade.

A escultora Linda King, ex-esposa de Bukowski, registrou em seu livro de memórias os cinco anos turbulentos do casamento com o escritor. Como todos os seres humanos, Bukowski era complexo. Linda Lee Bukowski, sua segunda esposa, fala com carinho de sua vida com o escritor no documentário "Born Into This". Em um vídeo que circulou bastante pela internet, gravado por uma emissora italiana muitos anos antes do documentário, a mesma Linda Lee aparece sendo agredida por Bukowski durante uma entrevista.

Linda lee Bukowski - Reprodução/Youtube - Reprodução/Youtube
Linda Lee, uma das esposas do escritor, dá uma entrevista ao documentário "Born Into This" sentada ao lado da lápide de Bukowski
Imagem: Reprodução/Youtube

John Martin, que editou o material do escritor durante 40 anos, reconhece o sexismo e a afetação de macho em sua obra, mas defende que grande parte era mais para sustentar uma pose do que uma convicção. "Se você está fazendo uma coisa e de repente as pessoas começam a falar de você por causa disso, vai sentir a tentação de continuar dizendo essas coisas", afirmou, em entrevista.

Bukowski também influenciou escritoras a escrever o que queriam. "Ele se sentia um incompreendido, e eu também me sentia assim", relembra a escritora Clara Averbuck. "Ele falava de sexo sem tabu, uma coisa que não encontrava mais ninguém fazendo. Na época eu não tinha um filtro de gênero, só curtia o que ele escrevia. Claro, quando eu mesma escrevi sobre sexo e putaria, acabei descobrindo que se uma mulher escreve ficção em primeira pessoa, as pessoas vão automaticamente associar tudo a ela própria."

A escritora francesa Virginie Despentes, autora de livros como "Baise-Moi" (1994) e "Teoria King Kong" (2006), é simples e direta ao referenciar o escritor. "Ele faz com que me sinta bem", escreveu no jornal britânico The Guardian. "Às vezes fico de saco cheio das besteiras machistas, assim como ficaria irritada com um velho amigo que acaba passando do ponto. Mas ele faz eu me sentir segura do que estou fazendo como escritora, e do que eu nunca deveria fazer."

Michelle Henriques, cocriadora do clube de leitura Leia Mulheres, afirma que o deslumbre que tinha pelo escritor se esvaiu com o final da juventude. "Gosto muito do que ele escreveu sobre escrever em si, e também sobre gatos, mas não consigo mais entender o hype. Acho que fui pega pela vibe do escritor maldito, alcoólatra. Hoje, cinco anos depois do Leia Mulheres, não consigo mais gostar disso", conta.

Henriques questiona a popularidade do escritor entre os jovens e a demora de obras escritas por mulheres como "A Redoma de Vidro", de Sylvia Plath, chegarem ao público.

Talvez o maior problema com Bukowski sejam os fãs que glamourizam o estilo de vida. "Bukowski não tem culpa de ter muitos fãs chatos que acham que tomar uma cerveja e depois escrever um poema os transformam nele", diz Mário Bortolotto.

Ser fã de Bukowski virou até meme, por ser algo comum entre os "esquerdomachos" brasileiros. "Acho que Bukowski renasceu por causa da tiração com o esquerdomacho, mas o próprio esquerdomacho não entendeu o que leu. As pessoas têm dificuldade de interpretar um alter ego, e o Chinaski sempre foi um anti-herói, nunca se colocou como exemplo", defende Averbuck.

Bukowski e Linda - Reprodução/Youtube - Reprodução/Youtube
Bukowski ao lado de Linda, uma de suas esposas
Imagem: Reprodução/Youtube

Bukowski cancelável?

Com as frequentes discussões sobre apagar ou não as obras de autores misóginos, racistas e "problemáticos", é impossível afirmar se Bukowski conseguirá sobreviver aos cancelamentos — se é que dá para cancelar quem morreu há mais de duas décadas.

"Acho super importante reler esses autores a partir de outras referências e questões sociais, culturais e literárias, e a gente sabe que é urgente repensar o cânone, mas cancelar empobrece a discussão e, ao contrário de endereçar o conflito, acaba sendo um artifício de assepsia que não representa a complexidade do mundo", afirma a psicanalista Fabiane Secches, pesquisadora de literatura.

"Se excluírem todos os misóginos do cinema e da literatura vai sobrar o quê? Essas tentativas de cancelamento são muito bizarras, porque geralmente vêm de pessoas que nunca tiveram contato com a obra", reclama Clara Averbuck. "É fácil tirar print de uma página, fora de contexto, e usar como argumento para cancelar alguém. Não existe nada mais antifeminista do que controlar o que outras mulheres vão ler."

Pedro Gonzaga também acredita que existe uma dificuldade em separar o narrador em primeira pessoa do escritor em si. "No limite, qualquer relato biográfico é ficcional, porque a pessoa seleciona eventos para criar uma trajetória coerente. A missão do escritor não é pensar nas expectativas dos leitores. Bukowski certamente não se importaria com isso, hoje em dia talvez fosse aqueles caras que odeiam tudo."

Se Bukowski estivesse vivo, dificilmente se importaria com narizes empinados diante da falta de intelectualidade em sua obra ou com tentativas de cancelamento. Queiram ou não, sempre haverá um novo leitor descobrindo seus romances ou poemas, porque o sentimento de deslocamento e falta de lugar no mundo dificilmente deixará de existir.