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Inferno europeu: uma noite dormindo na rua com refugiados em Lesbos

Refugiada se esquenta em uma fogueira improvisada nas ruas de Lesbos, na Grécia - André Naddeo/UOL
Refugiada se esquenta em uma fogueira improvisada nas ruas de Lesbos, na Grécia Imagem: André Naddeo/UOL

André Naddeo

Colaboração para o TAB, de Atenas

28/09/2020 04h01

Um ônibus estacionado na horizontal separa voluntários, de um lado, e solicitantes de asilo, de outro, na ilha de Lesbos, que pertence à Grécia. Quatro quilômetros de estrada estão interditados e ocupados por 12 mil refugiados e imigrantes, desalojados após o incêndio que devastou Moria, até então o maior campo de refugiados da Europa. Da noite para o dia, crianças, senhores e senhoras de idade e famílias tiveram que dormir ao relento, no asfalto duro, pelas calçadas.

Toda a estrada está praticamente sem energia elétrica. Postos de gasolina e lojas de conveniência fecharam diante da avalanche de desalojados que ocupa todo e qualquer espaço onde é possível abrir uma barraca de camping ou improvisar um abrigo com bambu e cobertores encardidos. É um breu quase absoluto. Algumas fogueiras e lanternas de celular iluminam a catástrofe humana sem precedentes em solo europeu.

Eu e um grupo de colaboradores fizemos contato com muitas famílias desde o incêndio. Cerca de 75% dos habitantes de Moria eram afegãos, maioria absoluta nesta situação emergencial. Sírios e africanos subsaarianos compõem o restante das nacionalidades. Pouco a pouco, fui reencontrando pessoas que já conhecia.

"O que você está fazendo aqui, meu amigo?", perguntou Rashim, um jovem afegão de 23 anos, há 10 meses no inferno de Moria, junto com outros homens desacompanhados. Respondi que, no dia seguinte, poderia haver uma operação policial para tirá-los de lá à força.

É preciso ter muito cuidado com fake news em situações humanitárias. Qualquer faísca de desinformação pode desencadear uma cadeia perigosa de reações. De todo modo, não só a fonte era fidedigna como também estava claro que a ilha não poderia ficar bloqueada por mais tempo — seria o décimo dia de ocupação nas ruas. O ministério da Imigração grego forçaria todos a entrarem em um novo campo, construído às pressas em uma área militar, apesar da resistência da população local, já exausta dos cinco anos de crise dos refugiados na ilha, e da aflição dos próprios refugiados e imigrantes, que não queriam estar outra vez em um local militarizado.

Refugiados dormem em estacionamento de supermercado, na ilha de Lesbos, no mar Egeu - André Naddeo/UOL - André Naddeo/UOL
Refugiados dormem em estacionamento de supermercado, na ilha de Lesbos, no mar Egeu
Imagem: André Naddeo/UOL

O acolhimento não veio

"Você acha que a gente deve ir para o campo novo?", perguntou Bohoran, 29, que trabalhou nove anos como policial no Afeganistão e que foge da perseguição do Talibã.

Eu não tinha certeza. O que sei é que no campo novo não tem chuveiro nem saneamento básico. Será um novo Moria. Mas os refugiados estavam há dias no meio da rua.

"Ninguém quer a gente aqui, mas eles têm que entender que a gente também não quer estar aqui. Queremos ir para o continente ou um outro país europeu", acrescentou Bohoran, inglês impecável que aprendeu ainda na terra natal. Refugiados e imigrantes em Lesbos têm restrição geográfica: podem viajar somente dentro da Grécia, depois de terem seus pedidos de asilo analisados e aceitos.

"Olha esse rapaz", apontou para o seu companheiro. A lanterna iluminou um enorme hematoma no olho esquerdo, ainda inchado. "Ele apanhou de um grupo de fascistas e locais dois dias antes do incêndio. Dez contra um. Isso é covardia."

As ruas de Lesbos tomadas por refugiados em busca de asilo - André Naddeo/UOL - André Naddeo/UOL
As ruas de Lesbos tomadas por refugiados em busca de asilo
Imagem: André Naddeo/UOL

A ilha de Lesbos, cujos habitantes foram candidatos ao Nobel da Paz em 2015 por abrirem suas casas e ajudarem no resgate dos refugiados que chegavam via Turquia, tornou-se um lugar de ódio. A falta de um plano de acolhimento digno foi minando, aos poucos, a paciência dos locais. O único hospital da ilha, por exemplo, tornou-se quase exclusivo para refugiados, tamanha a demanda.

Tudo isso exaltou a extrema direita. São inúmeros os relatos de grupos em motocicletas que espancam refugiados e imigrantes e também atacam voluntários e cooperantes - conheci pelo menos cinco pessoas que tiveram seus veículos destroçados por xenófobos, que atiram pedras em emboscadas. Circular pela ilha com o carro cheio de mantimentos é arriscado.
"Todos estão ficando loucos nesta ilha, André", completou Bohoran.

Procriar em meio ao caos

"Tenho minha entrevista de asilo em um mês. Mas já não sei se quero continuar aqui. Minha vida era melhor no Paquistão", confessou Rashim. "Minha mãe todos os dias pede para eu voltar. Minha noiva também", disse, traduzindo as conversas via Telegram e mostrando a foto de seu "grande amor".

Ali ao lado, um rapaz que estava deitado com sua mulher apoiava a cabeça na sua única mochila. Azzis pertence a uma etnia no Afeganistão chamada Hazara. Originários da Mongólia, os Hazara têm olhos puxados e são duramente perseguidos pelos Talibãs. Ser Hazara em certos territórios dominados vale como uma sentença de morte.

Já éramos um grupo de 15 homens conversando. As mulheres, curiosas, tiravam fotos de longe. A esposa de Azzis havia recentemente operado de um tumor no cérebro. Já não tinha mais remédios e dormia no estacionamento do supermercado Lidl, único ponto de luz na imensa escuridão de desalojados.

O casal, ambos com 19 anos, sonha em ter muitos filhos. "Quero fazer o meu garoto ainda esse ano, deixa só ela ficar mais forte", contou Azzis. Pensei ser uma grande loucura ter um filho em situação tão degradante. Dar à luz e depois o quê? Voltar para a barraca de camping com um recém-nascido?

Ficou famosa a história de uma mulher africana que, dias depois do incêndio em Moria, grávida de nove meses, começou a ter contrações em plena calçada. Após uma grande revolta e ameaças de enfrentamento, a polícia finalmente permitiu a entrada de uma ambulância que demorou duas horas para chegar. Três dias depois do parto, me contaram os rapazes, a mulher já estava de volta à rua com o filho a tiracolo.

Refugiados se encaminham para área militar que servirá de campo temporário em Lesbos - André Naddeo/UOL - André Naddeo/UOL
Refugiados se encaminham para área militar que servirá de campo temporário em Lesbos
Imagem: André Naddeo/UOL

Ismail e os fios de cabelo branco

Ismail, um comerciante afegão de 44 anos, passou seis anos vivendo no Cazaquistão. Jantava em meio à penumbra com sua família. Pão, tomates cortados em rodelas perfeitas e pepinos, um pouco de cream cheese e pão árabe. Pai, mãe e quatro filhos sentavam em círculo e comiam em silêncio.

"Eu tinha carro, casa, minha família tinha de tudo", frisou. "Ganhei muito dinheiro. Mas aí, como sempre, vieram os Talibãs. Diziam que eu trabalhava para o governo. Chegavam cartas ameaçadoras. Ligavam em casa e diziam para minha mulher que iam explodir tudo. Que opção a gente tinha para fugir daquele inferno?", perguntou. A viagem de toda a família custou mais de 10 mil euros — saindo do Afeganistão, passando por Irã e Turquia, até chegar finalmente à ilha grega de Lesbos.

O filho mais velho, o mais calado de todos, tinha o olhar perdido. Não aceitava a realidade, ainda mais depois do ataque em que fora espancado, havia dois meses. Perdeu quatro dentes e tinha cicatrizes no rosto, na altura do olho esquerdo. "Ele está muito abalado", disse o pai, que falava russo com Rashim, que traduzia. "Não sai daqui, e pouco fala."

"Cheguei à Grécia com 43 anos, sem sequer um fio de cabelo branco. Todos sempre me diziam que eu morreria jovem", contou, mostrando com a luz do celular os bastos fios de cabelo branco que cobriam toda a cabeça. "Estamos muito decepcionados com a Europa. Preferiria estar com os Talibãs a estar aqui."

Ismail e sua família saíram do Afeganistão por perseguição do Talebã e agora vive em campo de refugiados em Lesbos - André Naddeo/UOL - André Naddeo/UOL
Ismail e sua família saíram do Afeganistão por perseguição do Talebã e agora vive em campo de refugiados em Lesbos
Imagem: André Naddeo/UOL

Operação confirmada

Às 6h, a informação foi confirmada. Um ônibus da polícia grega tinha avançado e cortado o acesso ao primeiro bloco da estrada ocupada. Todos olhavam em direção aos policiais e sabiam que não teriam outra opção: tinham que, uma vez mais, juntar seus poucos pertences e ir para o novo campo.

Um batalhão de agentes sanitários gregos, vestidos de roupas brancas que cobrem todo o corpo, avançava aos poucos e levava as pessoas para o registro no novo campo de refugiados de Lesbos. Do alto da laje, alguns já caminhavam em direção ao bloqueio, voluntariamente. Outros, no entanto, na direção contrária, pareciam querer fugir, como se houvesse remédio para a situação.

Em dois dias, as autoridades gregas colocaram cerca de 10 mil pessoas espalhadas em barracas em um terreno militar. Outra vez, sem o mínimo de condições; até agora, as pessoas saem do terreno para ir tomar banho no mar, com água salgada. Ergueram "Moria 2", com a desculpa de que será uma instalação temporária. Mas todos sabem como as coisas funcionam na Grécia.