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Mamma mia! Como a máfia italiana interfere no que você come

Colheita nas terras que pertenceram ao mafioso Genovese, em Sam Giuseppe Jato, próxima a Palermo, na Itália - Eric VANDEVILLE/Gamma-Rapho/Getty Images
Colheita nas terras que pertenceram ao mafioso Genovese, em Sam Giuseppe Jato, próxima a Palermo, na Itália Imagem: Eric VANDEVILLE/Gamma-Rapho/Getty Images

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

03/11/2020 04h01

É altamente provável que o tomate pelado do seu molho, o trigo de grão duro do seu macarrão de domingo, o azeite extravirgem importado e até mesmo aquele vinho italiano especial tenham, em algum momento do processo, passado pelas mãos de mafiosos antes de chegar à mesa. Esqueça a bandidagem glamourosa do cinema. Na vida real, a máfia italiana segue cada vez mais embrenhada no mundo do agronegócio.

"O juiz Giovanni Falcone [assassinado em 1992 por sua atuação contra grupos mafiosos] costumava dizer que, para conseguir combater a máfia, é preciso ir atrás do dinheiro", diz ao TAB o economista Andrea Fantini, coordenador do Laboratório de Economia e Marketing Agroalimentar da Universidade de Teramo, na Itália. Da mesma forma que a máfia está presente em diversos setores italianos, ela também tende a controlar nichos agroalimentares.

Esses criminosos costumam atuar como um poder paralelo. Em regiões ao sul da Itália, eles ainda são presentes no comércio, cobrando propinas para que estabelecimentos possam funcionar com "segurança". É o chamado "pizzo", que no dialeto siciliano significa "bico". O famoso pizzaiolo Gino Sorbillo, de Nápoles, ousou parar de contribuir com os mafiosos. Em 16 de janeiro de 2019, teve de fechar seu estabelecimento por causa de uma bomba.

Neste sentido, é uma atuação semelhante a de grupos paramilitares brasileiros, que praticam a extorsão para "autorizar" o funcionamento de estabelecimentos comerciais — ou "garantir" pretensa segurança em locais de Estado ausente. Para combater essas práticas na Itália, grupos de empresários e formadores de opinião se organizam e se recusam a contribuir com mafiosos.

"Mesmo fazendo parte de um, preciso contribuir com o pizzo. É o preço que pago para conseguir manter as portas abertas e nem eu nem minha família sofrermos retaliações", admite ao TAB um dono de restaurante da Calábria que pediu para não ter seu nome revelado.

Primeira produção de macarrão, vinho, frutas e azeite de oliva com a etiqueta 'anti-máfia' da Itália - Eric VANDEVILLE/Gamma-Rapho/Getty Images - Eric VANDEVILLE/Gamma-Rapho/Getty Images
Primeira produção de macarrão, vinho, frutas e azeite de oliva com a etiqueta 'anti-máfia' da Itália
Imagem: Eric VANDEVILLE/Gamma-Rapho/Getty Images

Máfia na lavoura

Mas, se o lado mais visível ao consumidor final são as extorsões em estabelecimentos comerciais, o que mais preocupa é a ação mafiosa na produção rural. Ela é mais difícil de ser controlada e acaba contaminando toda a cadeia produtiva.

Especialista em marketing agroalimentar e desenvolvimento rural e pesquisador da Universidade de Bolzano, na Itália, Mikael Linder foi à Sicília em 2019 para tentar compreender, in loco, como é a relação entre produtores e mafiosos. Viu como pessoas ligadas aos criminosos dominavam o sistema de comercialização de produtos como tomate, não deixando que os agricultores vendessem diretamente aos entrepostos comerciais.

"Eles chegavam com seus caminhões, botavam as caixas e diziam que pagavam determinado valor. À vista, em dinheiro. Menos do que o valor justo, mas deixando o produtor sem qualquer chance de tentar vender em outro lugar", conta ele ao TAB. Linder diz que também ouviu de agricultores que, para nivelar os preços por baixo, os mafiosos controlam a importação de alguns produtos agrícolas justamente nas épocas de safra, gerando uma competitividade vista como desleal. Eles ainda criam uma relação clientelista com os produtores, emprestando dinheiro e garantindo alguns favores.

Fantini explica que, em geral, os mafiosos investem no negócio alimentar com o objetivo inicial de lavar dinheiro sujo obtido de atividades ilegais. E pode piorar. "A Covid-19 amplia muito a possibilidade de a máfia entrar em vários negócios, porque as empresas estão em crise. Por exemplo, os pequenos produtores de vinho não estão conseguindo escoar a produção para os restaurantes. Vejo um perigo muito sério", analisa ele.

Outra frente explorada por mafiosos no setor alimentar está na mão de obra ilegal e muitas vezes análoga à escravidão oriunda da crise humanitária. Fazendas contratam imigrantes que, alojados em moradias precárias, enfrentam jornadas de 10 a 15 horas por dia, com salários quase inexistentes.

Coordenador do departamento de legislação da seção de Palermo da Confederação Geral Italiana do Trabalho, o filósofo e jornalista Dino Paternostro concorda que este é um problema-chave da cadeia de trabalho agroalimentar. Ele ressalta que seu sindicato conseguiu pressionar a aprovação de uma nova lei contra a contratação de trabalhadores ilegais que prevê punições "severas àquelas que exploram essa mão de obra na agricultura". O desafio é fazer com que a norma seja fiscalizada.

"Estamos agora empenhados em fazer cumprir esta lei, que combina de forma ideal as batalhas contra a violência e a máfia levadas a cabo desde o final do século 19, na época dos 'fasci siciliani'", contextualiza ele.

Mafiosos não seguem as regras do jogo. Isso pode significar, por exemplo, usar terreno contaminado por resíduos tóxicos para a produção agrícola. Mas também está no "pizzo" cobrado que, claro, é repassado ao consumidor no custo final do produto. Ou mesmo nas adulterações de produtos com aditivos, como azeite e até mesmo muçarela, ressalta Linder.

Guerra à máfia

Em um país cheio de vícios de sistema e heranças patrimonialistas como a Itália, fiscalizar não é tarefa simples. É comum notar cartazes com frases de efeito contra a ação de máfia em murais de prefeituras e outros locais públicos.

Para combater esses grupos criminosos, é preciso um conjunto de soluções. "Trabalhar a inclusão socioeconômica nos territórios onde a máfia está enraizada e melhorar as estruturas do Estado para que a máfia não seja um substituto", enumera Linder. "E também ter regras claras e acessíveis para a produção e comercialização dos produtos, maior rastreabilidade e transparência da cadeia produtiva, apoiando-se em ferramentas tecnológicas para isso, maior fiscalização. Por fim, combater a guerra de preços patrocinada por grandes redes de supermercados, que esmagam as margens dos produtores e favorecem quem atua de forma desleal, e educar o consumidor, para que entenda que, por trás de um produto muito barato, pode existir mão de obra sub-remunerada, que trabalhe em condições precárias, ou ingredientes falsos."

Se a fiscalização é difícil, Fantini concorda que a faca e o queijo estão nas mãos do consumidor. "Uma solução é a repressão por parte das instituições, a ação da justiça [contra os mafiosos]", diz ele. "Mas, como consumidor, eu posso ajudar na luta contra a máfia comprando produtos transparentes em seu processo."