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O que a busca por sucesso tem a ver com pandemia e o colapso econômico

Populares utilizam máscara de proteção devido ao Coronavírus, na Avenida Paulista, região central da capital, neste domingo   - Ananda Migliano/Ofotográfico/Folhapress
Populares utilizam máscara de proteção devido ao Coronavírus, na Avenida Paulista, região central da capital, neste domingo Imagem: Ananda Migliano/Ofotográfico/Folhapress

Júlia Pessôa

Colaboração para o TAB, de Juiz de Fora (MG)

18/11/2020 04h00

Sem querer soar pessimista, 2020 acabou deixando a gente mais descrente e "casca grossa". Nas redes sociais, ainda que em tom de piada, as pessoas respondem à avalanche de notícia ruim postando variações de uma mesma sensação: "Nossa, mas não dá pra ganhar uma!".

Apesar de reconhecer o sentimento de frustração, sobretudo em um momento agudo de crise, Jack Halberstam, professor titular da Universidade de Columbia (EUA), conversou com o TAB em videoconferência. Ele disse que precisamos, na realidade, é fracassar.

"Neste momento, acho que só será possível promover mudanças por meio do fracasso. Porque sabe o que pôs a gente neste caos? O sucesso! A lógica do sucesso em si, que entende as pessoas como alguém que precisa, ganhar, precisa lucrar, precisa vencer, precisa avançar, precisa se desenvolver... ou, ao menos ter a aparência de vitória. O problema está aí. O discurso orientado somente pela vitória e pelo sucesso omite o que há na realidade e nos impede de mudá-la.", explica o pesquisador, que lançou em março a primeira edição brasileira de seu livro "A arte queer do fracasso" (CEPE editora, 2020).

Segundo Halberstam, a recusa de Donald Trump em conceder a vitória ao adversário Joe Biden — prática que é tradicional entre os presidenciáveis dos Estados Unidos — é um exemplo impecável da cultura do sucesso, e de como ela é falha.

"Ele continua agarrado a seu discurso de vitória, uma mentira absoluta. Não é surpresa também que líderes como ele e Bolsonaro mantenham essa aparência de que 'está tudo bem' em relação à pandemia de Covid-19. Criar essa atmosfera de triunfo impede que se tenha acesso às informações sobre a situação e também que decisões eficientes e voltadas à coletividade possam ser tomadas. Além disso, alimenta um pensamento elitista e egoísta, de que quando houver vacina, estará tudo bem. Mas a vacina será destinada às elites que poderão pagar por ela. O que a crise da pandemia fará com pessoas vulneráveis é inestimável ", destaca o professor.

                                 Jack Halberstam é professor titular da Universidade de Columbia (EUA) e autor do livro "A arte queer do fracasso" -                                 Vincent Tullo/Divulgação                             -                                 Vincent Tullo/Divulgação
Jack Halberstam é professor titular da Universidade de Columbia (EUA) e autor do livro "A arte queer do fracasso"
Imagem: Vincent Tullo/Divulgação

Sucesso e meritocracia

Para Halberstam, o sentido e a grande eficácia dos fracassos está em buscar vias alternativas ao que foi construído socialmente como sucesso, uma visão capitalista e que necessariamente se ancora na vitória de poucos às custas da derrota de muitos.

"Nesta noção de sucesso, só alguns podem ser beneficiados e para isso, a maioria tem que perder. Precisamos falhar em relação a esta construção, no sentido de negá-la. Num momento como a pandemia, isso seria, por exemplo, parar de tentar maximizar somente a vida de algumas poucas pessoas e promover saúde pública, gratuita e de qualidade a todas", pontua o professor.

Segundo Halberstam, essa busca incessante pelo sucesso impacta todas as esferas da vida social contemporânea, e vem também atrelada a um discurso de meritocracia, a aparente ideia de que qualquer pessoa pode ter sucesso caso se esforce o bastante e atenda aos padrões esperados para alcançar a vitória. "Essa cultura orientada pela premiação e pela recompensa distribui sucesso apenas suficiente e de uma maneira muito visível — se você pensar em programas de TV como The Voice ou American Idol, por exemplo — para fazer parecer que há múltiplas avenidas que levam à vitória. Quando na verdade, para a maior parte das pessoas, existem muito poucas".

A história não contada do quarto lugar

Em um dos capítulos de "A arte queer do fracasso", Jack Halberstam fala sobre a experiência do quarto lugar olímpico de qualquer modalidade, que a despeito de ser uma das performances esportivas mais extraordinárias de sua categoria no planeta, fica frequentemente relegado ao apagamento histórico, ao silêncio da mídia e ao desconhecimento do público. No livro, ele cita a tocante mostra "Fourth", de Tracey Moffat, que retratou apenas os quartos lugares de várias modalidades das Olimpíadas de Sidney, em 2000.

"Na vida cotidiana, essa é a experiência da maior parte de nós, quando estamos tentando um emprego, nos nossos relacionamentos, concorrendo a uma bolsa de estudos? É muito mais provável que a gente falhe do que vença, ainda que sejamos extraordinários. Se a gente pensar em mídias sociais, pode ser algo assim: você tem, sei lá 300 mil likes em uma determinada foto. Mas para fazer uma parceria com uma marca e passar de fato a ganhar dinheiro, você precisaria de 3 milhões ou 350 mil. E isso faz as pessoas viverem em busca de atingir certos ideais, seja um pódio olímpico, seja mais milhares de likes, é assim para tudo na vida", explica.

Recordista brasileiro de marcha atlética nas duas distâncias em que compete (20km e 50 km), o atleta Caio Bonfim coleciona títulos e medalhas, mas conta ter vivido este apagamento de suas conquistas esportivas, apesar do desempenho excepcional.
"Curiosamente, não foi quando obtive o quarto lugar nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio. Mesmo tendo ficado a somente cinco segundos do bronze, tive um reconhecimento grande do público e da imprensa, o quarto lugar foi uma virada na minha carreira. A partir desta visibilidade, mesmo perdendo o pódio, pude falar sobre como o esporte é ridicularizado, o quanto já fui xingado, a homofobia que sofro sem nem ser homossexual (e que também seria absurda se eu fosse), como é difícil treinar na rua para um esporte sem investimento e em que as pessoas te gritam, xingam, jogam o carro para cima de você...", relata o desportista.

Caio Bonfim chegou em 4º lugar na disputa de 20 km da marcha atlética - Ryan Pierse/Getty Image - Ryan Pierse/Getty Image
Caio Bonfim chegou em 4º lugar na disputa de 20 km da marcha atlética
Imagem: Ryan Pierse/Getty Image

Ele afirma, entretanto, que inúmeras vezes se sentiu invisível na pista -- mesmo sendo um dos maiores atletas do mundo. "Na Olimpíada de Londres, nem a imprensa brasileira quis falar comigo. E só estar em Londres já era um sonho, um marco importante para qualquer desportista".

Depois da prova nas Olimpíadas do Rio, Bonfim se sentiu abraçado e reconhecido pelo seu desempenho onde mais se sentiu acuado em toda a vida. Foi em Sobradinho (DF), a cidade em que nasceu, cresceu e vive, treinado pela mãe, ex- atleta e marchadora Gianetti Bonfim, e o pai João Sena, professor de Educação Fìsica. "Ganhar e perder são noções muito relativas.

Quando eu conquistei o bronze no Pan de Toronto, fui convidado a passear em um carro do Corpo de Bombeiros, mas não quis. Não queria passar por aquelas mesmas ruas em que eu era xingado e humilhado todos os dias. Mas agora nossa equipe tem mais de 20 marchadores, treinamos na rua, e desde as Olimpíadas do Rio, não me lembro mais de ser xingado, ofendido ou ameaçado. Quero que meu filho cresça numa realidade assim", conclui Bonfim.

Usando as Olimpíadas como gancho para falar sobre movimentos históricos e políticos, Jack Halberstam alerta que o apagamento das histórias dos ditos "não vencedores" nos suprime de possibilidades de resistência.

"É algo de que o autor Robin Kelly fala sobre a negritude no livro 'Freedom Dreams': as histórias são escritas com foco nos resultados, não nos processos. Algumas histórias são enterradas, como as de importantes movimentos anticapitalistas ocorridos nos séculos 18 e 19, em batalhas navais, com a pirataria e mobilizações como as rebeliões de pessoas escravizadas. Não temos um amplo leque de informações sobre elas porque, ao fim e ao cabo, elas não venceram. Mas seria essencial para termos um longo arco de informações sobre rebelião e resistência que pudesse nos ajudar a pensar formas de confrontar o que vivemos hoje, além das que o capitalismo nos permitiu acessar. Como fazer frente a ele com as informações que o sistema nos deu?"

Falhando para entender um sistema viciado

Com ou sem coroa, a Miss Brasil 2019 Júlia Horta, atenderia sem qualquer dúvida aos padrões necessários para ser reconhecida como uma das mais belas brasileiras. A jornada nos concursos começou em 2014, quando foi convidada a representar sua Juiz de Fora no concurso Miss Mundo Minas Gerais e levou o título. Na etapa nacional, ficou em quinto lugar e passou por uma série de disputas nacionais, regionais e internacionais em que figurava sempre entre as cinco primeiras concorrentes, obedecendo aos padrões tradicionais de misses: o longo cabelo liso, corpo magro e escultural, discurso discreto. Todos os pré-requisitos eram atendidos, mas a faixa nunca vinha.

"Na época, confesso que não entendia o que faltava em mim, achava que esse mundo não era pra mim. Pensava 'Meu Deus, será que eu não sou bonita o suficiente ou competente o suficiente? Hoje, depois de ter passado por um processo de autoconhecimento, e entender melhor quem eu sou e o que eu buscava nos concursos, parei de tentar me encaixar em um padrão esperado. Deixei de tentar ser o que diziam que era uma ganhadora e investi em ser eu mesma, na minha melhor versão. Só aí deu certo", conta ela, que foi coroada com um corte long bob em vez de longas madeixas lisíssimas ou com as pontas de babyliss, visual clássico das misses.

Júlia Horta, de Minas Gerais, vence a final do concurso Miss Brasil 2019 - Mariana Pekin/BOL - Mariana Pekin/BOL
Júlia Horta, de Minas Gerais, vence a final do concurso Miss Brasil 2019
Imagem: Mariana Pekin/BOL

Além disso, em sua participação no Miss Universo, Horta homenageou o futebol de mulheres (sobretudo a jogadora Marta) e exibiu um manifesto contra a violência de gênero, indo além de clichês vazios como a "paz mundial". "Apesar de não ter avançado além do top 20, foi a melhor coisa que me aconteceu, porque minha palavra chegou ao mundo, e esse discurso tão urgente que eu tentei levar adiante teve uma plataforma enorme de alcance."

Foi por meio de fracassos, ainda que num contexto extremamente mais "vitorioso" que a maioria das pessoas, que Júlia Horta e Caio Bonfim conseguiram entender o sistema de poderes em que estavam inseridos — no caso, concursos de beleza e disputas esportivas. Só assim puderam buscar reverter suas regras (ainda que com privilégios) e construir uma trajetória fora das narrativas de "persistência', "resiliência" e "esforço pessoal" atreladas aos padrões que regem a noção de sucesso e inundam as redes sociais.

Segundo Jack Halberstam, a mesma lógica que opera nestas duas situações tão específicas vale para qualquer aspecto da vida social, por isso é tão importante perceber como o fracasso é útil, construtivo e necessário.

"Por meio do fracasso e do reconhecimento de que ele existe, tudo é revelado. Precisamos materializar o fracasso, reconhecê-lo. para ver de que maneiras o sistema é viciado, disfuncional e só assim poderemos buscar alternativas a este sistema, mudar a realidade. E é fundamental fazer isso sem invisibilizar ou sobrecarregar ainda mais os sujeitos mais vulneráveis."