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Com pandemia e desemprego, violinista acha sustento tocando em funerais

O violinista Israel Dutra - Matheus de Moura/UOL
O violinista Israel Dutra
Imagem: Matheus de Moura/UOL

Matheus de Moura

Colaboração para o TAB, de Florianópolis

19/11/2020 04h00

Dia frio e chuvoso. Israel Dutra, 32, salta do banco de trás do Gol Prata com pressa e tira de seu interior duas cases, uma cinza de capa dura e outra preta de tecido; nas costas, já carrega uma mochila cheia até o talo. Para sua sorte, é um homem grande, com quase 1,85m. Uma vez com as malas em mãos, acelera os passos para o interior da funerária Capital, umas das cinco dispostas naquele mesmo terreno em frente do cemitério parque Jardim da Paz, em Florianópolis, o maior de Santa Catarina.

Atravessa a recepção cumprimentando os funcionários, cruza a sala dos caixões, que emana um cheiro forte de madeira nobre, e segue por um corredor que leva ao ponto final: o mini-backstage da Capela A. Lá, na sala estreita e separada do palco por apenas duas cortinas, o jovem mestre de cerimônia Jessé Simão o espera.

Israel lamenta o atraso: "Tive problema com o Uber". O colega não liga, afinal foram só alguns minutos. "Israel é um cara ótimo de se trabalhar junto", comenta o cerimonialista, enquanto o amigo ajusta as configurações de som nos bastidores. Dali, Israel se escamoteia pela sala apertada, atravessa a cortina, ajeita a cadeira ao lado do palco, sobre o qual jaz um caixão com um defunto, tira do estojo de tecido o violino e da de capa dura a pedaleira BOSS RC-300 Loop Station — com custo de R$ 4.000, de complexo manuseio.

Entre poltronas de couro e corredores apertados, pouco mais de 40 pessoas de preto se aglomeram ao redor do palco da capela. Estão todos lá para dizer adeus ao corpo no caixão de MDF. Álvaro, um senhor branco e de bigode grosso, aposentado do setor de administração de empresas, morreu de velhice. Choravam pelo falecido principalmente as netas, inconformadas com o fim do ciclo.

Israel se senta na cadeira, pega o violino e, enquanto Jessé ajeita o microfone, começa a tocar "Hallelujah", de Leonard Cohen. Sobre sua cabeça, há uma televisão com slides de Álvaro almoçando, viajando com filhos e netos, vivendo. O violino provoca emoções entre os que se sentaram na fileira da frente, que choram copiosamente ao redor da matriarca, em luto silencioso. O instrumento vai desvanecendo com o controle do pedal de Israel, que ativa uma música para tocar ao fundo do discurso de Jessé, escrito com base na entrevista que realizara horas antes com dois familiares. Teve dificuldade de colher informações.

"Muito mais fechados que a média", explica Jessé Simão. Sem saída, apela para frase genéricas e clichês sobre a vida e sobre o próprio Álvaro.

O discurso termina com um convite para que os familiares subam ao palco para uma última despedida. Assim, levantam-se todos os da primeira fileira e, de braços dados, circundam o patriarca. Israel lhes deu a trilha para o momento, "Can't Help Falling In Love", de Elvis Presley, criando uma cena dramática, que termina com a dispersão dos parentes e a transição da música do rei do rock para "Descansarei", do Jotta A. Nesse final, falsas pétalas de rosa são expelidas de uma máquina no teto sobre o caixão já fechado.

Velório na funerária Capital, em Florianópolis (Santa Catarina) - Matheus de Moura - Matheus de Moura
Velório na funerária Capital, em Florianópolis (Santa Catarina)
Imagem: Matheus de Moura

Enterro alegre

Tudo aqui descrito faz parte de um pacote de R$ 1.550 para um funeral com cerimônia especial; vem com MC (mestre de cerimônia), violinista, snacks, ar-condicionado e máquina de pétalas, sempre na na capela A, a mais bem equipada do cemitério.

Há quase um ano atendendo às três funerárias que executam o pacote nessa capela, Israel já se acostumou a tocar em velório. Na noite anterior, fora chamado em cima da hora para o funeral de um membro da escola de samba Protegidos da Princesa. Por ter sido marinheiro, o homem fora enterrado com uniforme branco, mas Israel não pode ver: o caixão estava fechado, porque o homem havia contraído Covid-19 antes de morrer. Ele só soube desses detalhes porque Jessé, que acompanhou parte do proparo do corpo no caixão, lhe contou. Foi um dos enterros mais alegres que Israel já presenciou. Tinha muita cerveja e cantoria de samba — ritmo que ele, infelizmente, não se sentiu apto a acompanhar com o violino.

"Você vê todo tipo de gente nos enterros. Esse [do Álvaro] é mais frio, bem típica família brasileira de classe alta, mas já teve outros em que todo mundo chorava de um jeito que pesava o clima. [...] Não costumo me sentir mal, mas alguns foram bem intensos."

Talvez o que mais o marcou foi a morte de uma travesti de pouco mais de 20 anos, no início de 2020. Esfaqueada até a morte. Na capela especial, 12 jovens da comunidade LGBTQI+, todos muito abatidos. São raras as vezes em que Israel toca para vítimas de morte violenta. Mais incomum ainda é tocar para jovens que partiram — parte de uma estatística que, como ele mesmo disse, "a gente só conhece na teoria, né".

O violinista Israel Dutra - Matheus de Moura - Matheus de Moura
O violinista Israel Dutra
Imagem: Matheus de Moura

A saga da música

Quando, aos nove anos, Israel foi convidado pela sua mãe a frequentar as aulas de música da igreja Assembleia de Deus, no Centro de Florianópolis, a última coisa que imaginava era que, em 23 anos, estaria fazendo a trilha sonora de velórios. Formado em Música pela UESC (Universidade Estadual de Santa Catarina), teve seu primeiro contato com esse universo aos cinco anos de idade, quando a avó aprendeu gaita de boca por conta própria. Já adulto, trabalhou em cameratas e orquestras do Sul, na Orquestra Barroca de Mato Grosso do Sul e até numa pequena turnê pela Bolívia. No lado menos glamouroso da profissão, fez presença em eventos comuns, como casamentos e aniversários. Mas nunca havia exercido o ofício num velório. Até porque o serviço vem sendo oferecido pelas funerárias há menos de dois anos.

Israel entrou nessa após integrar uma banda de forró, substituindo um violinista que, no horário comercial, tocava em velório. Quando soube do trampo, pediu indicação ao conhecido, que ficou de o indicar quando saísse. Dito e feito. Em questão de meses, Israel ocupava o cargo do rapaz.

As coisas eram mais atrapalhadas no começo. Havia um homem para botar a música de fundo e passar os slides enquanto o cerimonialista falava e o violinista tocava. Mas Israel insistiu que, com sua pedaleira, conseguiria não só melhorar a produção do som que tocava como também mixar as músicas de fundo, controlando o fade in e o fade out, algo que o funcionário não sabia fazer. Assim, Israel foi se tornando essencial para o funcionamento da cerimônia. Ganha R$ 250 por velório, valor que considera baixo, mas que não o incomoda devido à alta demanda.

A necessidade por dinheiro foi justamente o que o atraiu para o serviço. Com a chegada da crise econômica de 2015, músicos foram ficando sem oportunidade, especialmente os de instrumento clássico, como é o caso do violino. Bicos em festas e casamentos se cristalizaram como uma das principais fontes de renda da classe musical — Israel incluso. Mas nenhum trabalho desses vem com tanta frequência quanto os de velórios. Em outubro, Israel participou de sete.

O violinista Israel Dutra - Matheus de Moura - Matheus de Moura
O violinista Israel Dutra
Imagem: Matheus de Moura

Ele pode pegar o dinheiro antes ou depois, na sala de administração da funerária. Com isso, consegue pagar as contas e manter o apartamento em que vive, no Itacorubi, um dos mais caros bairros universitários de Florianópolis. Ele reside a pouco mais de um quilômetro das funerárias; não fosse o peso do equipamento, iria a pé, não de Uber.

A demanda só desapareceu durante os primeiros meses da pandemia, quando corpos sequer podiam ser velados, tornando impossível qualquer tipo de cerimônia. As coisas melhoraram a cada flexibilização do governo em funerais. Hoje, Israel está de volta às cerimônias e vez ou outra lida com velórios de vítimas do Covid-19. Geralmente, são aquelas com caixão fechado e número limitado de pessoas.

Como não é celetista das funerárias, não costuma ter certeza da causa mortis ou do porquê de o caixão estar fechado, até perguntar para Jessé. Juntos, eles entregam um serviço que, antes, era exclusividade dos funerais religiosos, em especial da Igreja Católica.

Na visão de Israel, pode-se dizer que Jessé ocupa o papel de padre, com seus discursos morais e otimistas, enquanto ele próprio veste o papel do músico de igreja, que normalmente toca piano ou órgão. Ele acredita que, com o esmorecimento da centralidade da religião na vida urbana, a demanda começou a ser suprida pela iniciativa privada. Tal como com os casamentos, quando o padre sai, alguém entra e lucra. E ele, Israel, só está tentando tirar um sustento disso tudo.