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Ir a bar medieval na pandemia ajuda a entender nova 'Idade das Trevas'

Juiz usa celular para cronometrar um combate medieval em bar da Vila Olímpia, em São Paulo - Rodrigo Bertolotto/UOL
Juiz usa celular para cronometrar um combate medieval em bar da Vila Olímpia, em São Paulo Imagem: Rodrigo Bertolotto/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB

09/12/2020 04h02

O sistema de reserva já avisa que, "neste período em que a peste nos assola", há muitas regras para adentrar a Taverna Medieval. O rosto agora é protegido por uma máscara de pano e não por um elmo de ferro, o preferido por lá antes da Covid-19. Logo na porta, o álcool em gel é oferecido como bálsamo alquimista.

Bares temáticos existem às dúzias em São Paulo. Há, porém, uma triste ironia nos locais com inspiração feudal. E isso vai muito além da pandemia. Por um desses rodopios que a história dá, vivemos dias obscurantistas e fundamentalistas, que lembram os relatos dos renascentistas sobre a tal "Idade das Trevas" — ok, o termo já até caiu em desuso. Apesar do divertimento, um certo desassossego invade o comensal.

Uma rua residencial da Vila Mariana, zona sul da cidade, serve de endereço para a Taverna Medieval. Alguns passos para dentro, a atmosfera muda, e a recepcionista me orienta por um declive: "A masmorra fica por aqui, milorde".

O ambiente iluminado por tochas artificiais nas paredes de pedra preta fica ainda mais escuro quando alguém pede "vinho canônico", o líquido que, pela fé católica, se transforma em sangue de Cristo durante a missa. A luz baixa, o canto gregoriano sobe, e um garçom vestido de monge franciscano traz o cálice e abençoa o conviva.

Um casal paramentado entra com rabeca e alaúde na mão, interpretando cantigas de mais de 800 anos. As conversas nas mesas estão tão animadas que não dá para identificar em que idioma estão cantando. Mesmo se o silêncio fosse sepulcral, não daria. "Eram trovas em provençal e occitano. Em nosso repertório, cantamos também em galego-português", esclarece, após a apresentação, Fernanda Ferretti, vocalista do duo Olam Ein Sof.

Flechas e poções

Mesmo em uma masmorra não poderia faltar, claro, o onipresente "espaço kids" de qualquer empreendimento. Por lá, a pista de arco e flecha cumpre o papel. O advogado Giancarlo Borba levou os filhos Pedro, 8, e Catarina, 5. "Eles adoraram tanto que querem voltar", diz o pai orgulhoso, depois de acertar em cheio uma maçã pendurada, no melhor estilo Guilherme Tell.

A maçã também está no centro do prato principal da casa: o apple bacon. Os proprietários estabeleceram até um "índice de medievalidade" para o cardápio. Nada menos medieval do que batata frita ou molho de tomate, afinal, esses ingredientes foram levados da América para a Europa após as grandes navegações. O hambúrguer, que domina o menu, também é muito moderno para o rótulo. Mas o gravlax de salmão (peixe marinado por dois dias em sal e endro, ao estilo viking) e o apple bacon (maçã, cebola e carne de porco) estão bem nesse ranking.

taverna medieval - Marco Mesquita/Divulgação - Marco Mesquita/Divulgação
Dupla de trovadores interpreta cantigas para frequentadores da Taverna Medieval, no bairro de Vila Mariana, em São Paulo
Imagem: Marco Mesquita/Divulgação

Entre as bebidas, a mais simbólica é o hidromel, um milenar fermentado de água e mel que foi redescoberto no atual revival medieval que promove feiras e festivais pelo mundo. Ele é base também das poções (do amor, inclusive), coquetéis servidos em frascos bojudos por lá. O curioso é que a expressão "lua de mel" teria vindo do costume da época de tomar o hidromel durante um mês após as bodas para aumentar a fertilidade.

A febre medieval ataca vários clãs da atualidade. Por um lado, há os geeks e seus RPGs e sagas cheias de magia, como as de "O Senhor dos Anéis" e "Game of Thrones". Outra frente é formada pelo heavy metal e seu visual trevoso. Os hipsters, com a mania por produtos antiquados, também entraram nessa cruzada. E a economia da experiência promove um recriacionismo histórico — tudo encenado embaixo do ar-condicionado embutido no teto que mal dá para perceber, claro.

A taverna paulistana tem mesa em forma de barco viking, um local para leitura de runas e banheiros com entrada secreta. "Esse aqui é o nosso segurança", brinca Ellen Lepiani, proprietária do local, apontando para a réplica do Cavaleiro Negro, o corajoso e decepado personagem do filme "Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado" (1975). Uma vitrine guarda uma armadura completa usada no longa "Coração Valente" (1995). Há ainda referências a Conan, "Caverna do Dragão" e "Assassin's Creed" pela casa.

A mistureba medievalista se oferece como um antídoto à cultura contemporânea, tecnocentrada e multicultural, tentando resgatar uma matriz europeia idealizada, como aquele sujeito que busca pela internet em brasões de família e árvores genealógicas uma nobreza perdida em nossos dias.

Espadas e machados

"Minha cabeça virou um sino depois de uma espadada. Quase fiquei grogue, mas segui a batalha." O rosto de Junior Saw sai empapado do elmo de ferro após um duelo de um minuto e meio, cronometrado pelo celular por outro colega embaixo de uma armadura completa.

O evento de divulgação da LBCM (Liga Brasileira de Combate Medieval) acontece no bar Hatchet House, único especializado em lançamento de machado no país. Cercado pelas torres de vidro da Vila Olímpia, o bar abriu em 2019 para atender as legiões do condado corporativo de São Paulo, seja para relaxar dando umas machadadas após uma jornada estressante, seja para despertar o espírito guerreiro e atingir as metas da companhia.

"Chegamos a ter uma reunião da Samsung com 65 pessoas, mas agora 80% dos nossos clientes estão em home office. Antes da pandemia, o maior movimento era no happy hour de quinta e sexta. Quem pegou gosto vem aos sábados e domingos, quando tira uma folga do isolamento", conta Joseph Van Sebroeck, sócio do bar. Por medida de segurança, as áreas de lançamento de machado e de levantamento de copo estão bem delimitadas, e não se pode levar as ferramentas de corte para fora dos estandes.

A competição com machadinhas foi importada dos EUA e Canadá. Mas a logomarca na fachada mostra que a origem é anterior: duas armas se cruzam sobre um elmo medieval.

arco e flecha - Rodrigo Bertolotto/UOL - Rodrigo Bertolotto/UOL
Instrutor ensina a usar arco e flecha no Willi Willie, primeiro bar arqueria de São Paulo
Imagem: Rodrigo Bertolotto/UOL

Entre os armamentos no esporte medieval está a alabarda, misto de lança e machado. Como as espadas utilizadas, ela não tem lâmina, afinal, derramamento de sangue não conta nessa competição. "Embaixo da armadura temos toda uma proteção acolchoada. É muito raro alguém se machucar", conta Carlos Cuellas, que também é ferreiro e fabrica várias peças da modalidade.

Há batalhas campais de 12 contra 12 e até tropas de 150 cavaleiros se enfrentando. No espaço do bar, só havia espaço para o duelo "um contra um". Nele, a disputa se assemelha à esgrima e não se pode derrubar o rival. Já no pro fighting, os combatentes trocam também chutes e joelhadas, e quem cair tem dez segundos para levantar do chão se não quiser perder.

Apesar de ser lugar-comum da masculinidade, duas guerreiras se enfrentaram na demonstração da Hatchet House. "Já treinei judô, e isso me ajuda na luta. Pratiquei basquete e krav magá, mas o que mais gostei foi o combate medieval. Treino três vezes por semana para aguentar o peso da armadura", relata Bianca da Cruz, que saiu vencedora da contenda.

taverna medieval - Reprodução - Reprodução
Poções feitas com hidromel no bar Taverna Medieval, em São Paulo
Imagem: Reprodução

No Mundial (chamado de Battle of the Nations), competem batalhões de muitos países, como o Brasil, Estados Unidos e Austrália, que surgiram após a Idade Média. Mas há quem pense, como o historiador francês Jérôme Baschet, que o período colonial foi uma extensão do feudalismo, com os conquistadores europeus de armadura em cruzadas pelos trópicos contra os pagãos nativos.

A própria ideia que esses dez séculos (de 476 a 1453) são um intervalo entre a Antiguidade e o mundo moderno foi uma criação posterior, elaborada no Renascimento e reforçada pelos pensadores do Iluminismo, como uma época belicosa e bárbara em que a fé superou a razão. Com o Romantismo, no século 19, a Idade Média ganhou tons positivos em uma época que surgiram muitas nações e se buscava um passado glorioso para essas identidades locais — portanto, não é de estranhar que os nacionalismos atuais coincidam com uma revalorização medieval.

Como no século 14, a peste veio novamente do Oriente, encontrou muita intolerância e crendices no Ocidente e infestou as concentrações humanas e as atividades econômicas. Mas a luta agora não se dá com flechas e lanças, mas com agulhas de vacina. O comportamento já não é ditado por códigos de honra, mas adaptado segundo protocolos sanitários.

Enquanto a imunização não vem, o vírus vai levando vidas. Entre os milhares de mortos da pandemia está Wilson Camarero, 74, fundador do primeiro bar arqueria de São Paulo, o Willi Willie, aberto desde 1978 no bairro de Moema. Ele morreu semanas antes da reabertura da casa, em setembro. Triste é um mundo em que é mais fácil ir para o cemitério do que para o bar.