PUBLICIDADE
Topo

Aos 21 anos, Regina Azevedo é 'poeta que escreve como quem lança chamas'

Mais jovem da antologia "As 29 poetas hoje", Regina Azevedo publicou o primeiro livro aos 13 anos. A poeta potiguar recebeu o reconhecimento de veteranos como Chacal e Marcelino Freire - Arquivo pessoal
Mais jovem da antologia "As 29 poetas hoje", Regina Azevedo publicou o primeiro livro aos 13 anos. A poeta potiguar recebeu o reconhecimento de veteranos como Chacal e Marcelino Freire Imagem: Arquivo pessoal

Luiz Henrique Gomes

Colaboração para o TAB, de Natal

01/02/2021 04h00

Uma voz rompe o ruído de uma livraria cheia dentro de um shopping em Natal, no Rio Grande do Norte, para declamar três versos de um poema de Felipe Valério: "Ouça bem/ quando falo que te amo/ é do coração para fora". A intervenção artística não dura mais de dez segundos, registrados em um vídeo postado no YouTube, em que sequer é possível ver o rosto de quem grita. A descrição revela o nome das responsáveis. "Bagunça: Regina Azevedo e Bárbara de Medeiros".

Datado de julho de 2013, o vídeo está em um antigo canal de Regina Azevedo na plataforma. É ela quem grita os versos na livraria. Bárbara é a responsável pela gravação. Regina, nascida em janeiro de 2000, tinha 13 anos e considerava as intervenções artísticas quase como uma brincadeira -- ou uma bagunça, encarada como sinônimo no contexto da descrição que ela mesmo fez --, mas tinha consciência da potência da poesia.

Passados quase oito anos do vídeo, a poesia se tornou muito mais coisas para Regina Azevedo, mas não deixou de ser uma bagunça (ou uma brincadeira). Essa característica está no próprio modo como constrói seus versos. Costuma escrever à mão numa primeira versão, depois dispõe os esboços em cima da mesa, recorta as palavras, vai trocando cada uma de lugar e acrescentando outras, até achar que o poema está pronto.

O processo lembra o recorte de letras, palavras e frases inteiras de revistas para fazer colagens nas atividades escolares -- ou construir cartas que preservam o anonimato do autor, denunciado pela caligrafia. As duas coisas remetem à infância, mas a poesia de Regina está longe de ser infantil. "Escrevo poemas/ porque não posso/ atirar facas", afirma nos primeiros versos de um de seus textos. "Escrevo como quem lança chamas/ abaixa, acostuma ou vai embora."

A infância se faz presente de outro modo. Regina passava todas as manhãs na casa dos avós maternos quando criança. Os pais trabalhavam e os avós e tias cuidavam dela até a hora de ir para escola, à tarde. A avó passava as manhãs escutando missas no rádio; o avô, sentado na área de casa assistindo o movimento da cidade. Ela fazia de tudo para atrair a atenção dos dois -- e a solução mais fácil foi repetir as lições que via na escola.

Regina passou a fazer os avós desenharem, pintarem e aprenderem, junto dela, a ler e escrever. Os dois eram analfabetos, e ensiná-los a decifrar palavras era uma brincadeira que os aproximava. Através dessa relação, passou a ver a escrita como brincadeira e modo de construir afetos. "Do mesmo jeito que na escola eu tinha meu caderninho e meus materiais, um belo dia eu cheguei para a minha tia, que morava com os meus avós, e entreguei uma lista de materiais", conta. "Era uma ideia muito simples: eu queria dar aula para eles."

Desde então, as palavras são como um ímã que liga Regina de maneira mais vital ao que está em volta. Nunca mais parou de se relacionar com elas, seja na construção-colagem dos poemas ou na construção de suas relações.

Veterana precoce

Regina é uma mulher de cabelos curtos, óculos de armação tartaruga e bochechas que se arredondam quando sorri. No dia da entrevista com o TAB, vestia uma camisa cor-de-rosa claro com a frase "ouçam as mulheres" estampada em verde turquesa e uma calça rosa neon. Já não é mais a garota da intervenção poética realizada em 2013, mas continua organizando bagunças.

Aos 21 anos, está na antologia "As 29 poetas hoje", organizada por Heloísa Buarque de Hollanda e lançada pela Companhia das Letras na última sexta-feira (29). O livro reúne uma geração de jovens poetas brasileiras que se caracteriza pela "poesia escrita e a falada, o humor e a revolta, o tom intimista e a voz performática", como define a editora em seu site.

Na sala do apartamento onde mora com a mãe, em Natal, ela conta que soube da antologia há cerca de dois anos, através de um e-mail, e ficou surpresa com o convite. "Estar numa antologia que só reúne mulheres para mim também é muito importante, porque mostra o momento atual da poesia brasileira. Foi a partir do convite que percebi que as maiores referências atuais são mulheres."

Sua poesia fala da política nacional, do erótico, da morte, do feminismo e do desejo, temas registrados nos quatro livros lançados pela autora. Outros lembram a relação dela com os avós ou dos dois gatos que possui, Cícero e Laranjinha. Só eles disputam com a divulgação dos livros da poeta o espaço do feed e dos stories no Instagram de Regina.

A autora lançou o primeiro livro aos 13 anos. "Das vezes que morri em você" (Jovens Escribas, 2013) chamou a atenção de poetas como Chacal, Nicolas Behr e Marcelino Freire. "Nem bem nasceu e já escreve como um capeta", escreveu Chacal numa postagem em que compartilha um dos poemas de Regina, em 2017, logo após o lançamento do terceiro livro da autora, "Pirueta" (Selo Duburro, 2017). "O futuro chegou."

Na orelha do livro recém-lançado por Regina, o poeta Marcelino Freire escreve que ela tem uma das vozes mais originais da poesia. Ao TAB, explica: "É uma poesia original, porque é uma poesia sem frescura. Regina escreve naturalmente, não parece que está fazendo poesia. É uma poesia combatente, de enfrentamento, mas escrita de maneira muito desarmada. É uma poesia no osso. Regina é uma veterana precoce."

Epifania

A artista só descobriu que existiam poetas vivos aos 12 anos, quando dois deles -- Daniel Minchoni e Carito Cavalcanti -- foram à escola onde ela estudava, numa ação de incentivo à leitura. Regina cursava o 7º ano do ensino fundamental e não estava na sala de aula quando os autores se apresentaram, mas um dos amigos entregou a Minchoni um texto que ela havia escrito (na época, registrava o que escrevia em um Tumblr).

Com a descoberta de que dois poetas haviam lido um texto seu, sentiu uma epifania. "Quando eu soube que poetas foram na minha escola eu pensei: como assim existem poetas vivos? Então, eu posso ser poeta?". O contato dela com a poesia, até aquele momento, se resumia aos livros didáticos, onde a maioria dos autores apresentados haviam morrido. Ela já escrevia, mas diz que não sabia o quê.

Daniel Minchoni conta que recebeu uma série de mensagens de Regina no chat do Facebook. Sem se apresentar, a agora autora disse que ele havia lido um texto dela na escola. Nas mensagens seguintes, já encaminhou novos poemas e um arquivo com um livro pronto. "Eu li, achei alguns poemas interessantes, mas um pouco infantis. Disse isso a ela porque ela perguntou minha opinião. Só que eu achava que estava falando com uma professora."

Três horas depois, Regina enviou uma nova versão do livro, corrigida com as observações de Minchoni. O poeta se assustou com a pressa, mas continuou dando toques, ainda sem perceber que se tratava de uma garota de 12 anos. A descoberta da idade veio um mês depois. Regina apareceu com uma ideia de sarau baseada nas batalhas de slam -- cena que Minchoni faz parte em São Paulo -- e propôs que ele fosse. O estranho é que o evento seria num parque, à tarde.

"Não é comum na cena do slam. Aí eu estranhei e perguntei: 'vem cá, quantos anos você tem?' e ela respondeu: '12 anos e 8 meses'."

"E mais não digo"

Regina é tímida, mas se solta quando começa a declamar poemas e, por isso, o sarau foi o espaço ideal para ela expressar o que escrevia. O início de uma apresentação no CEP 20.000, o Centro de Experimentações Poéticas do Rio de Janeiro, onde foi convidada por Chacal em 2017, ilustra o porquê: "Eu estava doente, mas quando eu cheguei aqui eu dei uma melhorada muito boa. Vir ao vivo é o melhor remédio, eu acho."

Em seguida, declama, completamente curada, e desmorona a própria timidez: "Deixar a blusa cair/ como uma pluma que desliza na película/ que é um hímen que é um mundo/ e mostrar a todas as americanas/ que no nordeste do Brasil/ se sangra todo dia/ e deixar que saibam a sorte/ que é morar aqui/ e ter sempre/ marquinha de biquíni/ e esse sangue/ de gente que nasce/ no interior do interior/ de tudo."

Ao TAB, Regina confessa que estava ansiosa naquele dia. Estava diante de uma das suas principais referências, Chacal -- que no fim escreveu em mais uma postagem no Facebook: "Regina Azevedo. E mais não digo."