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Com ajuda de equipamento, atletas batem recordes pedalando dentro de casa

A especialista em meditação e mindfulness Alê Filippini - Alê Filippini/arquivo pessoal
A especialista em meditação e mindfulness Alê Filippini Imagem: Alê Filippini/arquivo pessoal

Isabela Mena

Colaboração para o TAB

15/04/2021 04h00

No início da quarentena, o advogado Eduardo Nicola, 61, subiu em sua gravel — modelo de bicicleta que combina elementos de agilidade com pneus para estrada de terra — e fez uma rota conhecida entre ciclistas: a que vai de São Paulo, onde mora, até a cidade de Aparecida. Pedalou 200 km em onze horas, sentiu o perrengue das subidas, a adrenalina das curvas e o frescor da brisa... do ventilador. Nicola não saiu do apartamento.

Ele pedalou sobre um equipamento tecnológico chamado rolo de treino smart. Trata-se de uma estrutura de metal que fixa o eixo da roda traseira da bike e permite que o pneu gire sobre um cilindro — o pneu dianteiro, apoiado sobre um suporte, fica imóvel. No cilindro, há um sensor interativo que, por meio de apps de pedal indoor, permite ao ciclista acompanhar a rota na tela do celular (do tablet, computador, TV), pedalar em grupo e simular e reproduzir percursos reais, repassando para o rolo a altimetria (inclinação exata de uma ladeira, por exemplo). O ciclista é obrigado a mudar as marchas ao longo do trajeto.

Com a pandemia e a necessidade de isolamento social, os rolos saíram do nicho dos ciclistas profissionais e triatletas e foram parar na sala da casa de esportistas em geral. Originariamente, rolos de treino são usados para treinamento de potência e melhora de performance: é mais difícil pedalar sobre eles do que ao ar livre.

Quem explica o porquê é a triatleta e ultraciclista profissional Emilia Bugarin, 46, que em junho passado disputou, em rolo de treino, o Race Across America — um dos campeonatos mais importantes do mundo de ultraciclismo, categoria de ultra distância. A edição de 2020, sua primeira, foi adaptada ao virtual por causa da pandemia, e ela ficou em quinto lugar na classificação geral feminina.

A triatleta e ultraciclista profissional Emilia Bugarin, 46 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A triatleta e ultraciclista profissional Emilia Bugarin, 46
Imagem: Arquivo pessoal

"Como no rolo você fica quase estático, você usa sempre os mesmos músculos e os movimentos dos ombros, dos joelhos e dos tornozelos ficam muito repetitivos. Meu tornozelo inchou e senti dores absurdas", conta Bugarin. "Na rua, você usa mais tipos de músculos e mexe todo o corpo enquanto está pedalando. Levanta do selim, fica em pé na bike, gira para um lado, para o outro", diz a atleta, que fez a etapa parcial da prova e pedalou 1.500 km em cinco dias.

Por esse motivo, em relação ao pedal in loco que Nicola fez a Aparecida, em 2017, o virtual teve duas horas a mais. "É bastante desgastante fisicamente, tem que ter muita força de vontade. Mas como única opção segura na pandemia, o rolo passa a ser maravilhoso, vira até um objeto de arte na sala".

Água que vai, água que vem

Entre março e novembro, quando voltou a pedalar na rua, o advogado replicou no rolo outras seis trilhas: da Serra do Rio do Rastro, do Caminho da Fé, do Caminho de Santiago de Compostela, de Fortaleza a Lagoinha e da Estrada Velha de Santos. Foram 3.100 km em sete meses.

Com o decreto da fase emergencial em São Paulo, retornou à suadeira no rolo. Literalmente. "Consumo um litro de água a cada 20 minutos de tanto que transpiro, a hidratação muda completamente", diz Nicola. Mesmo enxugando o suor com toalhas, que troca a cada 40 minutos, ele conta que colocou um tapete absorvente sob o rolo para não molhar o piso.

Não é um caso particular e serve como alerta para quem pretende se aventurar no equipamento. Segundo o ultraciclista profissional Marcelo Soares, 48, o Mixirica, o rolo faz com que o ciclista transpire quase 50% a mais em relação à mesma atividade na rua. No seu caso, que também disputou a edição virtual do Race Across America, o excesso de transpiração, somado ao atrito da pouca mobilidade no rolo e à longa distância — ele pedalou a prova completa, 4.060 km em 12 dias — o suor causou assaduras tão graves que algumas partes do corpo ficaram em carne viva, mesmo usando pomada e vaselina. "Os rolos não foram feitos para tanto tempo de pedal", diz.

O ultraciclista Marcelo Soares, 48, conhecido como Mixirica - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O ultraciclista Marcelo Soares, 48, conhecido como Mixirica
Imagem: Arquivo pessoal

Mixirica ficou em terceiro lugar na classificação por idade, em quarto na geral e bateu o recorde das Américas de permanência no rolo, que era de quatro mil quilômetros. Mas penou. "Eu tinha noção do sofrimento que é pedalar em rolo, mas não de que seria tanto. Foi um massacre para o corpo: além das assaduras e feridas, fiquei todo machucado por não ter como balançar o tronco, as pernas, esticar as costas", conta.

Para o atleta, o equipamento é ótimo, mas meia hora é o tempo ideal de exercício sobre ele. "É suficiente para um treino diário em rolo. O importante é simular a força da pedalada", diz. Por esse motivo, ele advoga pelo uso de um rolo de treino simples, sem tecnologia, conhecido como rolo de treino fixo ou rolo dumb — burro, em inglês. O oposto de smart.

Burro sem carga

Sem interação com aplicativos, o treinamento no dumb depende apenas da vontade do ciclista para mudar as marchas da bicicleta e colocar força e velocidade nas pernas. Para driblar o que chama de massacre no rolo de treino fixo, a designer Débora Cataneo, 46, namorada de Mixirica, contratou os serviços de um coach de ciclismo.

No início da pandemia, quando comprou o rolo, seu treino era freestyle. "Eu colocava música ou clips na TV para me distrair, mas o tempo não passa sem objetivo e desafio, é massacrante", diz Cataneo.

Especialista em meditação e mindfulness, Alê Filippini, 49, trabalha há 12 anos com desenvolvimento pessoal e, algumas vezes, utiliza seu rolo smart, sem aplicativos, para fazer treinamento mental enquanto pedala. "Uso a respiração consciente, que é prestar atenção na respiração, aprofundá-la e controlá-la conscientemente", fala Filippini. "Isso ajuda a manter a cabeça focada no desempenho e no movimento e faz com que você demore mais para fadigar".

Seu primeiro rolo foi comprado em 2015, quando começou a praticar triatlo, para driblar a falta de tempo entre idas e vindas para os treinos outdoor. "Gosto de pedalar no rolo, o aplicativo Zwift é tipo um videogame e consigo simular exatamente o que quero treinar e isso melhora minha performance."

A designer Débora Cataneo, 46, namorada de Mixirica - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A designer Débora Cataneo, 46, namorada de Mixirica
Imagem: Arquivo pessoal

Outros rolos

Nos primeiros meses da pandemia, alguns modelos sumiram das lojas. Quem comprou ainda sem conhecer bem o equipamento, e depois voltou a pedalar ao ar livre, provavelmente sentiu o baque. "O corpo se acostuma com o pedal parado e sem estímulos externos. Na rua, há pessoas, carros, faróis, e a tendência é esquecer, é preciso treinar a cabeça", diz Mixirica.

Outra consequência do aumento da demanda foi uma inflacionada nos preços dos rolos de segunda mão. Novo, um rolo de treino fixo (dumb) varia entre R$ 200 e R$ 500 e um de treino smart começa em cerca de R$ 3.000 e chega a R$ 20.000 ou mais. Os altos valores e a variação entre eles se dão por conta da tecnologia.

Há, ainda, uma terceira categoria, o rolo de treino solto, que varia de R$ 200 a R$ 1.000. É uma peça plana com três cilindros paralelos sobre os quais os pneus giram à medida que se pedala. É preciso ter alguém ou uma parede por perto para conseguir subir e descer do aparelho, além de muito domínio para manter o equilíbrio. O risco de cair é grande.

Fuçando na internet, dá para achar também algumas invenções de rolo caseiro, feitas de estrutura de madeira e garrafa PET ou rolo de PVC. A ideia mais conhecida, que viralizou nas redes sociais, é de uma menina que pedala em uma Mountain Bike apoiada sobre uma rede de balanço, presa pelo selim. Se o pedal for tão puxado quanto no rolo é só tirar a bike de cima e usar a rede para o que originariamente foi feita. O modelo é 2 em 1.