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Sem eventos na pandemia, fotógrafos se divertem e ganham dinheiro em games

Foto de Bléia Campos no jogo Ghost of Tsushima - Bléia Campos/Ghost of Tsushima
Foto de Bléia Campos no jogo Ghost of Tsushima
Imagem: Bléia Campos/Ghost of Tsushima

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

27/04/2021 04h00

Dia desses, o fotógrafo Luiz Sontachi, 36, comprou uma boate. Conseguiu um DJ, convidou a parceira de trabalho Bléia Campos, 33, e armou uma balada em pleno março de 2021. Quebrando muitas leis, inclusive sequestrando o DJ, mas sem desrespeitar nenhuma regra da OMS como eles mesmos ressaltam, Luizão e Bléia beberam cerveja, dançaram e fotografaram um monte de gente em uma sexta-feira à noite de pandemia.

Tudo isso só foi possível porque aconteceu dentro de um jogo: o GTA V. Com saudade dos trabalhos presenciais — dos grandes eventos às baladas que eles clicavam pelo coletivo I Hate Flash — os dois fotógrafos encontraram no videogame uma forma de lembrar como costumava ser uma noite de sexta.

"Eu tinha sugerido de a gente fazer um I Hate Mondays (festa do I Hate Flash) online, e um dia o Luizão chegou e me falou: comprei uma boate no jogo, vamos fazer", conta Bléia ao TAB em entrevista por vídeo, de cabelo curtinho, moletom e capuz, igual à sua personagem no GTA. "A gente se encontrou para fazer algumas missões e fazer a boate acontecer, mas no fim ficou lá dançando e fotografando. Eu me diverti muito, até bebi umas cervejas."

Diversão paga

A fotografia em jogos de videogame e computador — ou fotografia in-game, como é mais conhecida — é uma maneira de os jogadores registrarem seus personagens virtuais e compartilharem nas redes, mas também virou trabalho para muita gente, principalmente durante a pandemia.

Luiz e Bléia fotografaram a balada sem receber nada por isso, mas projetos pagos desse tipo já existem, conta Leonardo Sang, 30, que atualmente tem a maior parte da renda mensal como freelancer vinda de projetos de fotografia in-game. Ele não revela quanto ganha, mas explica que o valor cobre o básico do mês.

O fotógrafo Leonardo Sang trabalhando antes da pandemia - Saymon Sampaio - Saymon Sampaio
O fotógrafo Leonardo Sang trabalhando antes da pandemia
Imagem: Saymon Sampaio

A maioria dos trabalhos virtuais de Leo Sang vem da parceria que ele tem com a empresa norte-americana de placas de vídeo Nvidia. Em 2016, Sang participou do desenvolvimento da Ansel, ferramenta da empresa que permite registrar a tela dentro de jogos de computador de forma mais detalhada, mesmo em games que não têm um modo específico de fotografia. Depois, a parceria seguiu com trabalhos de publicidade.

"No começo eles me davam jogos nos quais eles tinham alguma participação, eu fazia algumas fotos, postava em rede social, mandava para eles. Agora que a modalidade tem crescido e ganhado mais popularidade, a gente tem feito trabalhos pagos", conta Leonardo ao TAB, também em vídeo — com a luz cuidadosamente pensada para a entrevista, ao contrário da repórter, arrependida de não ter percebido o sol estourando na janela ao fundo antes de ligar a câmera para entrevistar um fotógrafo.

Foto de Leonardo Sang no jogo Control - Leonardo Sang/Control - Leonardo Sang/Control
Foto de Leonardo Sang no jogo Control
Imagem: Leonardo Sang/Control

Além dos trabalhos "tradicionais", a fotografia in-game ganhou alguns contornos mais inusitados durante o período de isolamento. Em novembro de 2020, uma agência de publicidade chegou a criar uma viagem de formatura de terceirão dentro do jogo Fortnite, com patrocínio de uma marca de salgadinhos. Os alunos que quiseram participar ganharam um universo exclusivo inspirado em Porto Seguro — destino comum de viagens de formatura — e até show do Dennis DJ, com fotos dos seus avatares se divertindo virtualmente.

Realidade virtual

Para Bléia, fotografar in-game ainda é uma mistura de aprendizado, diversão e um pouquinho de criação de portfólio. "Eu me entretenho muito fazendo isso, e gasto muito tempo no modo fotografia, às vezes até mais do que nas side quests. Se dá para pausar quando o bicho está batendo nos outros, então, aí eu fico muito tempo", conta ela, que diz estar fascinada pelo jogo Ghost of Tsushima.

"Eu tenho ficado atenta aos gestos dos personagens, como eles atuam quando eu os coloco ou para correr muito, para frear... O Jin, que é o personagem do Ghost of Tsushima, quando ele vai recolher a arma depois de matar vários inimigos, faz um movimento com o braço para tirar o sangue da lâmina. Se você pausa na hora, você pega esse exato momento do sangue voando", diz, fascinada. Bléia chega a comparar esse momento a uma fotografia da "vida real", quando ela precisa captar uma ação rápida. Só tem uma diferença: o poder de congelar o tempo e estudar a cena dentro do jogo, para escolher o melhor ângulo, a melhor luz com as melhores configurações de câmera.

Bléia compara a fotografia in-game com a da vida real quando captura o momento exato da ação "com a diferença de que no jogo eu tenho o superpoder de parar o tempo", diz  - Bléia Campos/Ghost of Tsushima - Bléia Campos/Ghost of Tsushima
Bléia compara a fotografia in-game com a da vida real quando captura o momento exato da ação "com a diferença de que no jogo eu tenho o superpoder de parar o tempo", diz
Imagem: Bléia Campos/Ghost of Tsushima

Os settings, aliás, pouco deixam a desejar perto de um equipamento físico. Dependendo do jogo, é possível ajustar velocidade do obturador, exposição, temperatura de cor, campo de visão e foco. "Em geral, eu acho que a diferença é na parte tátil mesmo", diz Leo. "Na fotografia real, digamos assim, a gente tem o peso da câmera, o segurar da câmera, o vidro que muda a luz de uma forma que é física." Por outro lado, ele destaca que uma vantagem disso tudo é não se cansar e nem se colocar em perigo virtualmente para conseguir uma foto legal.

Dá inclusive para aprender com a fotografia in-game e levar novas técnicas para a realidade física, garantem os três fotógrafos. Leo, por exemplo, lembra quando um amigo o chamou para tirar fotos de um carro. "Eu sempre gostei de jogos de corrida, então fazia fotos nesses jogos, e nunca tinha feito fotos de carros na vida real. Quando meu amigo me chamou, pensei: 'hm, acho que eu tenho alguma ideia de como faz'. E essa tradução de meios fluiu, aconteceu bem."

O fotógrafo Luiz Sontachi - Luiz Sontachi/Acervo pessoal - Luiz Sontachi/Acervo pessoal
O fotógrafo Luiz Sontachi
Imagem: Luiz Sontachi/Acervo pessoal

Dentro dos jogos, Luiz gosta de explorar ângulos impossíveis de captar na vida real. Assim, acaba entendendo novas visões e movimentos de câmera. "Você às vezes consegue dar um pulo de cima de um penhasco com o personagem, consegue explorar ali uma perspectiva totalmente diferente do que no mundo real. Até porque é muito mais limitado pular de um penhasco na vida real, né", brinca.

Foto do jogo Assassin's Creed Odyssey, por Luiz Sontachi - Luiz Sontachi/Assassin's Creed Odyssey - Luiz Sontachi/Assassin's Creed Odyssey
Foto do jogo Assassin's Creed Odyssey, por Luiz Sontachi
Imagem: Luiz Sontachi/Assassin's Creed Odyssey

Trabalhe com o que você ama...

... e nunca mais ame nada na sua vida? "O quê virou o quê? O que eu gosto virou trabalho? O trabalho virou o que eu gosto? Não sei mais", filosofa Leo Sang, quando pergunto se ele consegue jogar sem fotografar. "São grandes debates mentais. Normalmente, eu jogava e fotografava ao mesmo tempo. Tô aqui jogando, bonito isso. Aí eu paro tudo, seja qual for minha missão importante, tiro a foto e continuo. Mas às vezes eu quero jogar um jogo só para jogar, para me divertir, e me sinto pressionado. Será que eu consigo jogar isso só para me divertir, sem fotografar? Fico 'oh não, fotografar jogos estragou meus jogos'. Mas esses dilemas de criatividade vão e voltam."

Os três entrevistados costumavam trabalhar em eventos, inclusive de jogos, e tiveram mudanças drásticas de rotina com o início das medidas de distanciamento, em março de 2020. Enquanto Leo já tinha o virtual como parte do trabalho e expandiu nesse ramo, Bléia tem feito fotos de produtos para e-commerce e vídeos para redes sociais de marcas. Já Luizão tem boa parte da renda atual vinda de fotografia de gastronomia. O videogame virou, para eles, quase como um escape para a vida de antes — com suas limitações.

Bléia Campos em evento antes da pandemia - Bléia Campos/Acervo pessoal/I Hate Flash - Bléia Campos/Acervo pessoal/I Hate Flash
Bléia Campos em evento antes da pandemia
Imagem: Bléia Campos/Acervo pessoal/I Hate Flash
Foto de Bléia Campos em Ghost of Tsushima - Bléia Campos/Ghost of Tsushima - Bléia Campos/Ghost of Tsushima
Foto de Bléia Campos em Ghost of Tsushima
Imagem: Bléia Campos/Ghost of Tsushima

"É levar a diversão para fora do videogame", analisa Bléia. "Agora eu tô tirando foto, postando, falando no Twitter sobre isso. Para mim, está sendo tudo. Eu não tinha uma rotina no trabalho, e ficar estacionada em casa [na pandemia] me deu muita ansiedade. O escape do videogame já era maravilhoso. Tendo essa modalidade de foto, em que cada vez mais desenvolvedoras apostam, e o próprio público gosta, melhor ainda."

"Hoje em dia, eu acho que nem jogo mais direito", conta Luiz. "Fico tão viajando em achar coisa para fotografar que às vezes eu nem termino o jogo. Eu tento. Falo: 'hoje vou sentar e jogar um pouco'. Dá 5 minutos e eu já esqueci do jogo e estou procurando alguma coisa para fotografar."