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Angolanos do Fenômenos do Semba conquistam mundo com dancinha e cachupa

O grupo angolano Fenômeno do Semba e sua célebre dança com cachupa - Divulgação
O grupo angolano Fenômeno do Semba e sua célebre dança com cachupa Imagem: Divulgação

Felipe Maia

Colaboração para o TAB

26/04/2021 04h00

Em sua foto de perfil do WhatsApp, Adilson Maíza posa de traje de gala ao lado da bandeira de Angola e do vice-presidente do país, Bornito de Sousa. O convidado ilustre da cerimônia era o próprio Adilson. Ele é líder do Fenômenos do Semba, grupo de dança angolano que tem vivido um ano de fenômeno mesmo.

Em fevereiro de 2020, Adilson e os amigos de baile postaram no Facebook um vídeo em que dançam a música "Jerusalema", dos sul-africanos Master KG e Nomceboo. A coreografia estourou e mudou a história do grupo — que passou a ver seus passinhos replicados em todos os cantos do mundo e, hoje, lida com uma agenda cheia de eventos, aulas e até encontros com presidentes.

"Era uma cachupa", lembra Adilson. "A gente estava comendo uma cachupa." O prato com a comida, uma espécie de feijoada cabo-verdiana, dá o toque especial do vídeo que hoje tem mais de 16 milhões de visualizações apenas no YouTube.

A trupe fazia uma comemoração por mais um ano de atividade e resolveu gravar uma coreografia simples, por brincadeira, enquanto comia. Com destreza e ginga de quem sabe do riscado, os Fenômenos do Semba vão soltando os passos e se juntando em frente à câmera do celular — sem parar para dar uma garfada de vez em quando. "Foi tão natural que a gente estava a comer e continuou, foi exatamente como está no vídeo, sem alteração nem edição", diz Adilson.

Foram necessárias menos de 12 horas de internet para que o vídeo já se mostrasse incomum em meio a outras postagens de Adilson na sua página no Facebook. "Depois que chegamos à marca de um milhão de visualizações, em um dia, postei no YouTube, e aí fez mais estrago ainda!", conta o dançarino. "No terceiro dia, eu comecei a receber vídeos de pessoas de vários lugares do mundo a copiar os nossos passos."

A hashtag #JerusalemaChallenge se espalhou feito rastilho de pólvora nos meses seguintes. De austríacos à beira de um lago nos Alpes a brasileiros em Copacabana, venezuelanos em frente a um estádio de futebol e romenos em uma grande praça da capital, Janet Jackson e Cristiano Ronaldo, igrejas e companhias aéreas, enfim, não é exagero dizer que a dancinha pegou todo o mundo.

Às semanas seguintes do hit vieram os convites para participar de programas de TV — em um deles, os Fenômenos do Semba comem um prato de macarronada enquanto dançam —, aulas via Zoom, apresentações virtuais e a visita ao gabinete presidencial. "Eles nos convocaram para apresentar propostas, trabalhar conosco e nos parabenizar por levar a cultura angolana para o mundo", conta Adilson.

"Isso mudou a vida por completo, foi num estalar de dedos. Nós vínhamos trabalhando no mundo da dança há muito tempo, a gente sempre esperou que algo assim acontecesse, mas não achamos que ia ser de uma forma tão rápida assim".

Danças e dancinhas

Apesar de abrupto, o sucesso não foi tão rápido assim se considerado o tempo de existência do coletivo. O Fenômenos do Semba é um grupo de dança e academia que existe há mais de 15 anos. A lista de estilos que os membros da equipe performam e ensinam é um recorte histórico e moderno das danças angolanas. Tem kizomba, bungula, kabetula, tarraxinha e, claro, semba. "Nosso nome tem semba porque essa é a dança que nos identifica enquanto angolanos, e dentro do semba há um mundo no que concerne a cultura angolana", explica Adilson.

A coreografia do vídeo leva o nome de dança da família, e é literalmente isso. A dança é um daqueles passinhos que sempre aparecem em casamentos ou qualquer outra festa que reúna gerações de famílias angolanas. "Quando soltam a música e alguém começa a dançar assim, todo mundo dança também", diz Adilson. "É impossível dançar sozinho, são passos leves e acessíveis para todos".

O artista afirma, contudo, que o grupo deu um toque de personalidade na brincadeira que lhes rendeu fama internacional. Essa forma de adaptação e recriação, diz Adilson, é parte da cultura angolana.

A canção que embala o vídeo, por exemplo, é música eletrônica sul-africana. Nos anos 90, músicas de pista como house e techno encontraram boa recepção no país e até hoje essas correntes estão na essência de gêneros originais cada vez mais conhecidos no continente africano e no mundo. É o caso do kwaito, do gqom e do house gospel que abarca a faixa "Jerusalema", cujo refrão diz "Jerusalém é minha casa" em isiZulu — língua mais falada na África do Sul.

"Depois é que fomos entender a letra", diz Adilson. "Se soubéssemos que era sobre esse tema, talvez nem estivéssemos comendo, mas foi algo espontâneo e caiu bem aquela naturalidade, aquela africanidade, porque estávamos a festejar mesmo sem ter muito."

Os resultados em números, até agora, não foram poucos. Até mesmo Master KG, o compositor da faixa, tem o que comemorar. Desde que o vídeo com a dancinha se tornou viral, a música "Jerusalema" chegou ao topo das paradas em diversos países europeus e ganhou versões de artistas em países como Venezuela e Nigéria. Nesse último caso, quem se juntou ao remix foi o cantor Burna Boy, atualmente a maior estrela da música pop africana em inglês.

Adilson Maíza, líder do grupo Fenômenos do Semba - Sergio Inacio - Sergio Inacio
Adilson Maíza, líder do grupo Fenômenos do Semba
Imagem: Sergio Inacio

Conexão Brasil-Angola

Os Fenômenos do Semba também têm colhido resultados que vão além da fama repentina. A academia, que fica em Luanda, passou por uma reestruturação. E o WhatsApp do Adilson não para de receber mensagens de contratantes. "Antes do vídeo, tínhamos de 2 a 3 atividades por mês, mas hoje recebemos entre 10 e 15 propostas e temos de fazer uma seleção", conta o dançarino. Os convites vão de conferências online a coreografias para artistas de diferentes países africanos e europeus.

Os eventos presenciais ainda não são tantos devido às restrições implementadas pelo governo angolano para frear a pandemia. O país apresenta atualmente uma taxa de 0,46 mortes por milhão de habitantes — o Brasil tem cerca de 85 mortes por milhão. Adilson diz que gostaria de vir com seu grupo ao país novamente. Os Fenômenos do Semba já estiveram em São Paulo e no Rio, e o grupo diz ver o Brasil como segunda casa dos angolanos. "Nós temos mais seguidores do Brasil do que da Angola nas nossas redes", conta Adilson, ao ressaltar que no seu país as cantoras Ludmilla e Jojô Toddynho fazem muito sucesso.

Se por um lado Adilson gostaria que a pandemia acabasse o quanto antes, facilitando viagens da trupe pelo mundo, ele também sabe que os Fenômenos do Semba ainda têm mais oportunidades pela frente. O posto de embaixadores quase oficiais da dança e cultura angolana não vai embora tão cedo depois do #JerusalemaChallenge.

"O vídeo se tornou um cartão de visitas para nós, e é muito gratificante isso", diz o artista. "Enquanto não surgir outro sucesso, esse vai demorar a passar".