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Disputa judicial entre trenzinhos provoca 'Fofãogate' no interior de SP

A trupe do trenzinho Carreta Furacão em propaganda dos postos Ipiranga - Divulgação/ Posto Ipiranga
A trupe do trenzinho Carreta Furacão em propaganda dos postos Ipiranga Imagem: Divulgação/ Posto Ipiranga

Felipe Maia

Colaboração para o TAB

30/03/2021 04h00

Todo mundo ama o Fofão, mas nem todos podem sê-lo. Ao menos é o que dá a entender uma postagem no grupo de trenzinhos de Ribeirão Preto (SP), no Facebook.

Publicado em novembro de 2020 pelo perfil da empresa proprietária da Carreta Furacão — trenzinho mais célebre do Brasil —, o texto diz: "Donos de trenzinhos estão cansados de saber que não podem usar o Fofão e insistem no mesmo (...) Na justiça resolvemos", seguido de três emojis de beijinho com coração. Naquele dia, horas depois, o mesmo perfil postou: "Vou pra cima, vou pagar pra ver", seguido de dois emojis de demônio e um emoji de foguinho.

Em Ribeirão Preto, o personagem Fofão é protagonista de um silencioso conflito. A história começa no despertar do meme, nos anos 2010, e se sucede em disputas locais sobre quem é dono do personagem — isto é, quem pode botar o Fofão na rua. O confronto chegou às esferas legais nos últimos meses, quando a empresa do Carreta Furacão disparou uma série de ações para monopolizar o uso do personagem.

Postagem da Trenzinhos Dominium no Facebook - Reprodução/ Facebook - Reprodução/ Facebook
Postagem da Trenzinhos Dominium no Facebook
Imagem: Reprodução/ Facebook

'Fofãogate'

Nem todo meme nasce pra morrer. Tem meme que cai no mundo, serve para uma semana de risada e vira, se muito, piada interna entre grupos de amigos. Tem outros, porém, que se desdobram, se multiplicam e entram no panteão da cultura popular. Esses são ativos valiosos, mexem com o bolso de gente por aí, pode dar briga. É exatamente esse o caso do Fofão. Criação do artista Orival Pessini, o ícone televisivo de bochechas grandes e peruca basta foi um dos mais importantes personagens infantis dos anos 1980. Transformado em astro maior dos trenzinhos, Fofão provoca batalhas provincianas, intriga gringos e cria famosos anônimos pelo Brasil.

Na papelada movida pela Carreta Furacão, constam uma notificação extrajudicial contra a loja Palhaçaria & Cia — uma das principais fabricantes de máscaras e fantasias de Ribeirão Preto —, uma certidão de registro de um certo "Fonfon" na Biblioteca Nacional e um registro de marca do personagem Fofão Carreta Furacão no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial).

Desde que a lei sobre o que pode e o que não pode em matéria de fantasias passou a assombrar Mickeys, Homens-Aranha e Cebolinhas, as trinta carretas, trios e busões coloridos de Ribeirão Preto evitam utilizar o Fofão pelas ruas. A maior parte das empresas faz parte da Associação de Trenzinhos, a única do tipo no país. "Tá todo mundo com medo, estão ameaçando outros trenzinhos que usarem o Fofão", diz uma fonte que não quis se identificar.

Quem manda no Fofão?

A trupe do Carreta Furacão se transformou na mais bem sucedida companhia do nicho nos últimos dez anos, rodando o Brasil em eventos, programas de auditório e até participando de anúncios de TV.

Foi na ocasião do comercial do Posto Ipiranga que Alvaro Gomes, empresário de Orival Pessini, resolveu agir pela obra do seu também amigo. Morto em 2016, vítima de câncer, Pessini já viera a público mostrar seu descontentamento com o que se tornara sua criação. Nos últimos anos, Gomes foi colhendo provas e documentos que lhe permitissem auferir direitos sobre o personagem.

Na Associação de Trenzinhos de Ribeirão Preto, encontrou aliados. Agora, diz que tem tudo pronto para seu touché: um processo contra a Carreta Furacão por uso indevido do Fofão.

"Em minha defesa, tenho o direito autoral", afirma o empresário, pouco antes de enviar pelo WhatsApp um registro de 1983 do personagem Fofão da antiga Escola de Belas Artes da UFRJ. "A Carreta Furacão vai ser notificada e processada. E eu vou autorizar os trenzinhos da Associação a utilizarem o Fofão, só não vou autorizar esse fulano que tentou me enfrentar muitas vezes", finaliza.

Fofão, personagem de Orival Pessini (à esquerda), e o genérico da Carreta Furacão - Montagem/UOL - Montagem/UOL
Fofão, personagem de Orival Pessini (à esquerda), e o genérico da Carreta Furacão
Imagem: Montagem/UOL

O policial militar afastado Wellington Cardoni e a esposa, a empresária Fabiana Dameto, são proprietários do Carreta Furacão. Encontrando um espaço na agenda de reuniões com o YouTube, respostas do "jurídico" e chamadas via WhatsApp Business, Dameto informou à reportagem que só concederia entrevista ao TAB se a Furacão fosse a única mencionada na matéria. Isso deveria ser feito, ainda segundo ela, mediante assinatura de documento que registrasse o acordo.

Whole Fofão experience

O mais recente espasmo na vida do Fofão envolve Matheus Pereira, jovem de 21 anos de Araraquara, interior de São Paulo. No requebrado do bole-bole, ele trouxe nova energia ao personagem e angariou fãs em países como Estados Unidos e México. "Comecei há quatro anos e já fiz Peppa, Homem-Aranha, Máscara, Palhaço, Ben 10. Eu não tinha maturidade nem habilidade pra ser o Fofão no começo", diz ele, em uma chamada de vídeo, enquanto come um pastel de almoço. "Mas hoje estou no cargo de Fofão, o maior."

A alavanca do atual sucesso é o TikTok. Um perfil da plataforma intitulado @fofao_chapado compartilha vídeos de trenzinhos de todo o Brasil desde abril de 2020. O vídeo em que Matheus dá um salto mortal após tomar impulso na parede (wall flip, no jargão) foi publicado por lá em fevereiro e logo entrou no buraco de minhoca de hashtags e compartilhamentos.

Não tardou até que as imagens chegassem a dois milhões de visualizações e pulassem para o Twitter. Entre teorias fantásticas sobre o Fofão e fancams apaixonadas pelo remelexo de Matheus, gringos parecem fazer o grosso do novo público. Brasileiros se divertem tentando explicar a entidade para os neófitos. Alguns poucos que entenderam falaram à reportagem do TAB.

O gamer e streamer norte-americano Ryan Whatt comenta que conheceu o Fofão no TikTok. "Fiquei obcecado na hora", diz. "Os vídeos são 100% diversão, o tempo todo. Eu sempre quis ir ao Brasil e se eu puder visitar o país um dia, vou atrás da experiência completa do Fofão". A adolescente mexicana Dianys rasga elogios à estética creepypasta do novo ídolo: "Eu gosto muito da roupa dele e da cara, acho que tem um toque aterrorizante, é muito legal!". A designer Sevyn, também dos EUA, tem algumas meias-certezas: "No começo eu achei que era engraçado e aleatório", escreve ela. "Pesquisei mais e descobri que ele é tipo um mascote brasileiro que faz parkour e acrobacias e tem outros personagens também."

Matheus também era mais perguntas do que respostas quando o meme voltou a estourar, dessa vez com ele na posição de protagonista mascarado. "Eu não sabia de nada dessa história da internet", exclama o jovem. "Do nada, acordei e vi que tinha mais de dois mil seguidores no meu perfil. Tinha comentários como 'Fofão na gringa', 'Fofão é lindo', Fofão é isso e aquilo, a maioria em inglês." Ia tudo muito bem, até que a namorada quis saber. "Ela achou ruim que tanta gente tinha começado a me seguir, achou que eu tinha impulsionado o número de seguidores no Instagram. Ela até brigou comigo!", conta.

Se a fama online é novidade, a fama em Araraquara é tão comum quanto o cheiro de laranja que exala pelas ruas da cidade de 240 mil habitantes — capital da indústria cítrica brasileira. Matheus é barbeiro e afirma que muitos de seus clientes só sentam na sua cadeira por causa da sua vida de trenzinho. Sob o codinome Matheus Fofão, ele até se candidatou a vereador no ano passado pelo PL. "Eu queria fazer algo pelos trenzinhos", diz.

Os 289 votos não foram suficientes para sacramentar o primeiro vereador Fofão do país. Mas Matheus seguiu em frente, olhou para o lado e segurou a fantasia. "O Fofão é um personagem antigo, mas se não fossem os trenzinhos, ninguém ia conhecer ele hoje em dia", reflete o jovem.

Tony Leme, presidente da Associação de Trenzinhos de Ribeirão Preto, lembra do Fofão da TV, da época em que seus filhos eram crianças, e advoga por um Fofão livre hoje em dia. "O Fofão é usado no Brasil inteiro, em Minas, em Goiás. Vai impedir lá também?", diz ele, que tem uma espécie de autorização especial do empresário Álvaro Gomes para usar o personagem em Ribeirão Preto.

Não que seja útil. A pandemia tem minado o negócio dos espetáculos ambulantes, e a segunda onda parece ser a pá de cal em muitas das coloridas trupes da cidade. "Faz 15 dias que estou trancado, e se depender desse auxílio você tá fodido, por isso acho que vou comprar reciclável, vender banana, não sei", lamenta Tony. "Os trenzinhos estão parados." O Fofão não dança mais.