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Série Olímpica: arremessado à altura do pescoço, peso tem núcleo de chumbo

O atleta brasileiro Darlan Romani, durante o Mundial de Atletismo em 2017, em Londres - Kai Pfaffenbach/Reuters
O atleta brasileiro Darlan Romani, durante o Mundial de Atletismo em 2017, em Londres
Imagem: Kai Pfaffenbach/Reuters

Mônica Manir

Colaboração para o TAB, de São Paulo

17/07/2021 04h01

Quando um locutor esportivo anuncia a prova de lançamento de peso, saiba que já começou pisando na bola. Diferentemente do dardo e do disco, o peso não é lançado, mas arremessado. Aquela massa densa é empurrada a partir do pescoço do atleta, e não projetada pelo braço como uma flecha — o que não significa que não possa ir longe.

Ryan Crouser que o diga. Em junho, o norte-americano superou em 25 centímetros a marca que resistia por 31 anos. Corria o Pré-Olímpico no Oregon, nos Estados Unidos, quando Ryan chegou aos 23,12 metros na quarta tentativa. Recordista olímpico na Rio 2016, ele é a grande estrela da modalidade em Tóquio.

Seu implemento de estimação pesa 7,26 kg, medida padrão para o masculino adulto. O das mulheres adultas fica nos 4 kg. Há modelos infantis e masters, com 1, 2 e 3 kg, e tamanhos intermediários para categorias masculinas, entre 5 e 6 kg.

O atleta norte-americano Ryan Crouser, em competição de arremeso de peso no Oregon (EUA) -  Andy Lyons/Getty Images/AFP -  Andy Lyons/Getty Images/AFP
O atleta norte-americano Ryan Crouser, em competição de arremeso de peso no Oregon (EUA)
Imagem: Andy Lyons/Getty Images/AFP

Existe também certa liberdade para o diâmetro. No masculino, pode variar entre 10,9 e 12,9 cm; no feminino, entre 9 e 10,9 cm. A paulistana Elisângela Adriano, cujo recorde sul-americano em 2001 ainda não foi batido, preferia o diâmetro maior. "Como tenho a mão grande, o de cerca de 11 cm encaixava bem", diz ela em entrevista por telefone ao TAB — som do seu bebê de menos de 1 ano ao lado.

Já o material muda bem. Tem os de ferro fundido, por exemplo, que remetem às balas de canhão arremessadas por soldados em competições amadoras na Idade Média. Deles derivaram modelos com acabamento em aço, aço inox e bronze que levam chumbo no núcleo para, por exemplo, ajustar o equilíbrio do implemento. Alguns deles vêm com tampa. O fabricante pode desrosqueá-la e fazer uma cirurgia no miolo, botando ou tirando chumbo, a fim de garantir o mínimo necessário para a aferição. A esfera deve ser lisa.

Modelos mais toscos, meio ovalados e com ranhuras, até correm no mercado paralelo, mas não são nada recomendáveis, nem para treinamento. "Podem machucar o pescoço do atleta", afirma Maciel Tardivo Fatiga, diretor da Pista e Campo, maior distribuidora de artigos para atletismo do país. O preço dos produtos vendidos pela empresa varia entre R$ 49,90 (em ferro, de 1 kg) e R$ 1.219,90 (acabamento rígido de bronze, de 7,26 kg). A procura não passa muito dos 500 pesos por ano, o que também não estimula a fabricação desse implemento no país. Os de alto rendimento são importados da Índia, da China e da Polônia.

Maciel, que já fez decatlo e, portanto, já arremessou peso na vida, destaca o modelo infantil, com revestimento de PVC emborrachado e recheio de areia ou grânulos de chumbo, para iniciação no esporte.

Elisangela Adriano ganha a medalha de prata no arremesso de peso nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (República Dominicana), em 2003 - Antonio Gauderio/Folha Imagem - Antonio Gauderio/Folha Imagem
Elisangela Adriano ganha a medalha de prata no arremesso de peso nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (República Dominicana), em 2003
Imagem: Antonio Gauderio/Folha Imagem

Elisângela lembra de ter começado aos 12 anos com uma esfera de ferro de 3 kg. Perguntou para o professor de educação física como funcionava a história e logo tascou a ganhar medalhas. Até competiu no disco em paralelo, mas o bailado não a atraiu tanto quanto a força bruta do peso.

Pela regra, o atleta deve segurar o peso com as pontas dos dedos, e não com a palma. Está circunscrito a uma área de diâmetro 2,135 metros, na qual pode rodopiar e fazer o arremesso, desde que não ultrapasse um anteparo no chão. Assim que o peso tocar o solo, deve sair pelos fundos, nunca pela frente nem pelo lado do círculo. O berro na hora do arremesso é livre.

A prática trouxe contusões na mão, no punho, no cotovelo, no ombro, no joelho, na coluna, no quadril. "A gente trabalha muito com cargas e acaba lesionando um pouquinho", atenua. Ela só largou o implemento em 2013, aos 41 anos, depois de colecionar duas Olimpíadas (Atenas e Pequim), mundiais, sul e pan-americanos.

O peso com que chegou ao recorde de 19,30 metros, em Tunja, na Colômbia, está na casa da mãe, encorpando o orgulho ao lado das medalhas. "Minha mãe gosta muito de estar com as minhas coisas por perto", diz a filha, hoje única, depois de perder três irmãos. Há 10 anos, Elisângela Adriano dá nome a um instituto que fica em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e que atende, como ela diz, crianças de 7 a 60 anos.

Duas atletas que treinam no Instituto, Jucilene Sales de Lima (dardo) e Izabela Rodrigues da Silva (disco), vão competir em Tóquio. "Vai ser a Olimpíada da superação", aposta Elisângela, pensando nas dificuldades da preparação e na ausência de palmas de incentivo na hora da prova, já que não haverá audiência em função da covid-19.

Melhor brasileira no atletismo da Olimpíada de Londres-2012, a paulista Geisa Arcanjo faz arremesso de peso - Gustavo Epifanio/Folhapress - Gustavo Epifanio/Folhapress
Melhor brasileira no atletismo da Olimpíada de Londres-2012, a paulista Geisa Arcanjo faz arremesso de peso
Imagem: Gustavo Epifanio/Folhapress

Se bem que não teve caminho leve na sua trajetória. "Sofri preconceito por ser negra, por ser mulher, por ter ficado forte", diz. "Mas penso que nós enquanto mulheres, eu enquanto Elisângela, posso ser arremessadora de peso, lançadora de disco, o que o quiser". Ao fundo, a gargalhada do pequeno João Henrique parece concordar com a mãe.

Nomes para ficar de olho em Tóquio: Recordista sul-americano com 22,61 metros, o catarinense Darlan Romani tem chance de ouro no peso. O nome brasileiro no feminino é Geisa Arcanjo, atleta de São Roque (SP). Sua melhor marca foi obtida em Londres-2012: 19,02 metros.