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Por que frase de para-choque e caminhão pincelado estão ficando mais raros?

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em São Paulo

22/08/2021 04h00

Cena 1: caminhões empoeirados atropelam os restos mortais de frutas e legumes no Ceagesp, maior centro de abastecimento da América Latina. Cena 2: dentro de um galpão no ABC Paulista, lustrosos automóveis antigos estão estacionados, como um showroom idealizando os tempos em que a região dominava a indústria automotiva do país.

Em cenários tão diversos, há uma particularidade em comum: a arte de ornamentar com pinceladas as carrocerias dos veículos. Enquanto a tradicional filetagem, que cobre caminhões com figuras geométricas, paisagens tropicais e frases divertidas, é cada vez mais rara, a técnica norte-americana do pinstripe se espalha pelo Brasil, aproveitando a moda de customização de carros e motos.

"Quando eu cheguei há 20 anos, tinha uns 15 pintores. Hoje sou só eu e mais um ou outro que aparece. Continuo porque gosto de pintar à mão livre e ao ar livre", conta Joseval Cerqueira, 59, mais conhecido como Val Pintor no labirinto de armazéns do Ceagesp. Se pinta um caminhão por semana é muito. O ganho diário vem das placas para os comerciantes ou colocando numeração nos carrinhos dos carregadores.

Val aprendeu a pincelar com a mãe artesã em Feira de Santana (BA), onde começou a decorar carretas há mais de quatro décadas. "Treinei os desenhos por dois anos no muro de casa antes de encarar o primeiro cliente caminhoneiro", lembra.

Já Marcelo Lobão, 51, começou riscando epidermes antes de se aventurar em latarias. Natural de São Bernardo do Campo (SP), ele foi trabalhar como tatuador [de carros e peles] em Detroit, meca do automobilismo nos Estados Unidos, onde teve contato com o estilo pinstripe com um mestre de lá. Voltou ao Brasil com a técnica, que expõe em feiras automotivas e ensina por meio de cursos online para alunos em todo o país. Por seu lado, Val não tem ajudantes nem discípulos.

O enfeite contra o vazio

Esse tipo de ornamento é mais antigo que os carros: barcos, vagões e carruagens ostentavam arabescos e floreios que emprestavam requinte ao meio de transporte. A origem, porém, pode ir mais longe ainda.

Segundo o artista plástico e pesquisador Marcius Tristão, essa história remonta ao filósofo grego Aristóteles e ao conceito que depois se consagrou em latim como Horror vacui ("o horror do vazio"). As iluminuras medievais, os altares barrocos e as ilustrações vitorianas são exemplos de artes que combatiam o vácuo.

Para o estudioso, a versão nacional tem origem ibérica e é descendente das vinhetas que adornavam livros com desenhos de ramos e cachos de uvas. "A filetagem foi importada, mas sofreu adaptações no Brasil, e o que temos hoje é bem particular", afirma.

As pinturas brasileiras e norte-americanas são até bem discretas, comparadas com as de países como Argentina, Haiti e Índia.

tap tap - Orlando Barría/Efe - Orlando Barría/Efe
Tap-tap, como são chamados os ônibus decorados haitianos, circula em Porto Príncipe
Imagem: Orlando Barría/Efe

Em 2015, o fileteado portenho entrou até para a lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco. Mas seu prestígio nem sempre foi tão alto. Em 1975, a prefeitura de Buenos Aires proibiu os ônibus com pinturas rebuscadas, sob o argumento que o usuário tinha dificuldade para identificar a linha. A partir daí, os fileteadores passaram a decorar qualquer canto da capital argentina, de fachadas de casa até todo tipo de souvenir.

Já no Haiti, os tap-taps se destacam pela exuberância de cores e formas, contrastando com a miséria geral do país. Mas há uma explicação para os motoristas pintarem anualmente seus ônibus: o público embarca sempre no mais adornado. Isso porque o país não tem boa fiscalização, e a lógica é: se o dono gasta com a pintura, também investe na manutenção. O estilo haitiano é tão caótico quanto o trânsito local — um único ônibus mistura imagens de Jesus, rappers, futebolistas e divas sensuais, enquanto as janelas são em forma de coração, morcego ou óculos.

Outro estilo tão intrincado está nos caminhões da Índia. Pelas crenças locais, as cores têm propriedades mágicas, afugentam perigos e guiam destinos. Do escapamento até os retrovisores, tudo é decorado. E não podem faltar desenho de mulheres acinturadas carregando potes de água e frases no para-choque, mas os indianos preferem as mensagens filosóficas às expressões engraçadas.

Espiritual, não espirituoso

Val guarda algumas fotos de seu trabalho no celular, mas só mostra em último caso. "O caminhoneiro vai passar o dia todo olhando sem escolher, e eu não trabalho. Os desenhos e as frases estão na minha mente. Se deixar eu criar na hora, sem se intrometer muito, dou até desconto de 30% no preço", revela o pintor.

Ele gosta de escrever trechos da Bíblia, assim como a maioria de seus clientes. As novas regras de trânsito também amordaçam os típicos recados espirituosos. Desde 2020 é obrigatório o uso de adesivos que refletem nos para-choques — e as frases tiveram de descer para as lameiras emborrachadas.

Val cita de cor os bordões, desde os críticos ("Se correr, o guarda prende; se parar, o banco toma" ou "Pobre é que nem pneu: quanto mais trabalha mais liso fica") até os mais românticos ("Não é pressa: é saudades" e "Viajo porque preciso, volto porque te amo"), passando pelos satíricos ("Não me siga que eu estou perdido" e "Se está falando mal, me avisa: sei coisas terríveis sobre mim").

Val guarda sua caixa com tintas e pincéis em um galpão do entreposto. Todas as manhãs vem de Itapevi, na Grande São Paulo, e precisa no mínimo embolsar R$ 25 para pagar a condução e a alimentação. No vagão do trem, por vezes é acompanhado pela concorrência. Trata-se de Gil Pintor, nome artístico do cearense Gilvan Correia, 58, como está identificado em letras amarelas sobre mala preta em que leva seus apetrechos.

"Você se acostuma a ganhar R$ 150, R$ 200 por dia e não quer mais voltar para as firmas. Se aparece uma carroceria grande, dá para tirar R$ 1.000 em quatro horas de serviço", contabiliza. Ele trabalhou 20 anos em uma construtora até que foi demitido. Foi ao Ceagesp tentar a sorte por uma semana e acabou ficando 12 anos.

Gil reclama dos caminhoneiros. "É um bando de relaxados. Não gastam nem com graxa, imagina com tinta. Também falta dinheiro e tempo para eles. Por isso, eles falam em greve toda hora."

Antes, pintar esse segundo lar de uma forma única era celebrar a vida estradeira, criar uma identidade entre homem e máquina. As pinturas também serviam para ajudar a localizar o veículo em caso de roubo — algo ultrapassado em tempos de rastreadores por satélite.

Hoje, as frotas uniformizaram os veículos e aderiram aos baús metálicos, quando muito adornados com adesivos. Por outro lado, as fábricas de carroceria de madeira (600 em todo o país) diminuíram em 15% nos últimos dez anos, segundo entidade do setor. E, nelas, as pinturas foram padronizadas e feitas com moldes e spray.

Para Tristão, a filetagem não é um mero artesanato: é uma expressão estética arraigada no cotidiano, como as bandeirolas juninas, os ex-votos das igrejas ou as xilogravuras da literatura de cordel. Pelo menos, Val, Gil e os remanescentes do filete guardam uma compensação: nenhuma arte é mais itinerante que a deles, transformando cada rodovia em uma galeria.