PUBLICIDADE
Topo

Acervo de Naná Vasconcelos aguarda, desde 2016, espaço para virar museu

Quadro do percussionista Naná Vasconcelos - Brenda Alcântara/UOL
Quadro do percussionista Naná Vasconcelos
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

16/01/2022 04h00

Sentado na ponta direita de um tablado de madeira, numa rua estreita do Alto José do Pinho, periferia do Recife, o percussionista Naná Vasconcelos emendava uma piada com sua gargalhada peculiar — meio pausada, alta e rompante —, quando uma criança o interrompeu: "Moço, vai ter culto, é?", perguntou-lhe a menina de uns 7 anos, negra, cabelos cacheados soltos. Ela largou a brincadeira com outros amigos pela viela para saber o que estava acontecendo na vizinhança. Insistia na pergunta, apontando para um objeto coberto por uma capa preta, em cima do pequeno palco.

"Não, vai ter maracatu", respondeu o músico. Era 13 de janeiro de 2015, e aquele seria o primeiro de uma série de ensaios para abertura oficial do Carnaval da cidade. O tal objeto que chamava atenção da menina era um tímpano, usado por Naná, todos os anos, naquelas apresentações. O grande tambor de cobre, presente em orquestras sinfônicas e no jazz, servia para cadenciar o batuque de 500 percussionistas na cerimônia que o colecionador de oito prêmios Grammy coordenou ao longo de 15 anos.

Durante um mês antes da abertura do Carnaval, Naná percorria semanalmente os bairros onde estavam as sedes dos maracatus que participavam do evento. Ao todo, eram 14. A itinerância mobilizava, além da atenção dos moradores, uma parafernália — principalmente em torno do tímpano, que chegava ainda à tarde, numa kombi branca da Prefeitura do Recife.

Assim que ouviu a resposta sobre o maracatu, a menina voltou para a brincadeira. Poucas horas depois, pendurada na grade de casa, bem em frente ao ensaio, assistia à movimentação. Um grupo com dezenas de integrantes do Maracatu Estrela Brilhante do Recife se enfileirava no meio da rua. Ao lado deles, sete mulheres formavam um coral, cantando louvor aos orixás.

No palco, Naná já havia tirado a capa do tambor, que brilhava refletindo as luzes de uma gambiarra. Ele deslizou a baqueta sobre o instrumento, e deu o primeiro sinal para que todos começassem a tocar: uma batida vibrante ecoava pela rua.

Naná Vasconcelos durante ensaio com o maracatu Estrela Brilhante, no Recife - Rafa Medeiros/Prefeitura do Recife - Rafa Medeiros/Prefeitura do Recife
Naná Vasconcelos durante ensaio com o maracatu Estrela Brilhante, no Recife
Imagem: Rafa Medeiros/Prefeitura do Recife

Em busca de um museu

Quando morreu por complicações de um câncer de pulmão em março de 2016, Naná Vasconcelos, 71, deixou um acervo irretocável. São mais de 400 peças, incluindo o tímpano, outros instrumentos musicais, figurinos, discos, livros, quadros e imagens religiosas. Tudo guardado na casa onde vivera, em um bairro da Zona Norte do Recife.

A proposta, há 5 anos, era de que o material compusesse uma espécie de museu dedicado ao percussionista. Só que o projeto, por enquanto, não saiu do papel. Desde dezembro de 2021, a viúva do artista, a engenheira civil Patrícia Vasconcelos, 53, faz campanha no Recife para evitar que os objetos fiquem sem rumo. Com futuro indefinido, as relíquias foram transferidas agora para um galpão.

"Tem uma enorme falta de conhecimento e falta de interesse para cuidar desse acervo", reclama Patrícia, que vive atualmente em Nova York, onde estuda psicologia com foco numa tese a partir do trabalho musical do marido. "A impressão é de que as pessoas não têm dimensão da obra de Naná na própria cidade natal dele. Muitos acham que ele era somente o homem que fazia a abertura do Carnaval — o que não é um problema, claro —, mas sem saber que, na verdade, foi ele quem colocou a percussão no jazz."

Patrícia tem recorrido a instituições públicas e privadas para viabilizar a criação do memorial. "Senti uma tristeza muito grande, quando tive que tirar esse objeto da casa. É como se, ali, estivessem harmonizados com a energia dele. Mais triste ainda de colocar num espaço que não era aquele que eu queria. Naná merecia um espaço que fizesse jus à sua obra viva, um local onde a música também dialogasse com o corpo, com as ideias, com a memória."

Patrícia Vasconcelos, 53, tenta criar memorial com acervo de Naná Vasconcelos, seu marido - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Patrícia Vasconcelos, 53, tenta criar memorial com acervo de Naná Vasconcelos, seu marido
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

No mundo

Naná Vasconcelos começou a carreira aos 12 anos, tocando percussão em bailes, com o pai. Na década de 1960, entrou para o Movimento de Cultura Popular, onde conheceu artistas como o cantor e compositor Geraldo Azevedo. Na época, o grupo do qual faziam parte montava espetáculos teatrais musicados, seguindo o estilo lançado pelo diretor Augusto Boal no Opinião do Rio de Janeiro. Foi então que Naná encontrou o berimbau, seu mais famoso instrumento.

"Eu peguei esse instrumento numa peça de teatro, 'Memória de Dois Cantadores', que falava da história cultural de cada estado do Nordeste", contou o artista, em entrevista, em 2013. "Quando chegava na Bahia, tinha que mostrar a capoeira, e eu aprendi a tocar berimbau para isso. Terminou a peça e eu fiquei com esse instrumento em casa. E sabia que tinha uma coisa ali. Como eu morava numa quitinete, não podia tocar bateria, então aprendi berimbau. Aprendi sozinho, nunca fui a uma escola de música. Hoje, os instrumentos que sei tocar foram graças ao berimbau."

Eleito oito vezes o melhor percussionista do mundo pela revista americana Down Beat, Naná construiu uma carreira de parceria com nomes como Milton Nascimento, o pianista e compositor Egberto Gismonti, o saxofonista argentino Gato Barbieri, o violinista francês Jean-Luc Ponty e o grupo de rock norte-americano Talking Heads. Ele morou boa parte da vida nos Estados Unidos e na França, e retornou ao Brasil no início dos anos 1990, onde também criou projetos de educação com música e expressão corporal, principalmente com crianças.

Na música, Naná se tornou referência em experimentações, criando sonoridades com objetos simples e inusitados, como plástico e madeira, e até mesmo com o próprio corpo e a voz. "No acervo, tem instrumentos orgânicos e não orgânicos", explica o roadie Edelvan Barreto, 59, técnico de som que acompanhou o pernambucano durante 20 anos e que desde a morte dele cuida dos objetos. "Tem desde os mais tradicionais até aqueles que Naná criou: um guarda-som, que ele fez com um guarda-roupa, e o Pinipac, com panelas e penicos."

Enquanto no Brasil, falta projeto para abrigar o acervo de Naná, a obra dele chama atenção em outros países. Desde o ano passado, três instrumentos de percussão foram vendidos ao Musical Instrument Museum, no Arizona, para integrar a exposição fixa com mais de 15 mil peças de artistas de todos os continentes. Em Nova York, foram lançados três discos com gravação inédita de shows antigos do percussionista, e, em Londres, o pesquisador Dan Sharp publicou um livro sobre o disco "Saudades", gravado em 1971.

A engenheira civil Patrícia Vasconcelos, 53, viúva de Naná - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
A engenheira civil Patrícia Vasconcelos, 53, viúva de Naná
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Brasil desconhecido

A frase que o marido costumava repetir, de que ele era um Brasil que o próprio Brasil não conhecia, virou um lema de Patrícia agora. "Naná nunca recebeu título de patrimônio de Pernambuco, por exemplo. Um título que existe e é dado a mestres", critica a viúva. "Mas vamos ver no que essa movimentação pode resultar. Eu estou aberta às propostas."

Na quinta-feira, 13 de janeiro, ela saía de uma reunião com o secretário de Cultura do Recife, Ricardo Mello, quando atendeu à reportagem. "Foi positiva, eu acho. Expliquei a situação, e ele me pareceu aberto a colaborar", afirmava. Eu só queria um lugar para celebrar Naná aqui, na terra dele. Nada mais justo."

Ao TAB, o secretário Ricardo Mello afirmou que soube do desejo de Patrícia e a convidou para uma reunião. A ideia, diz ele, em breve começa a tomar forma de projeto municipal, com espaço que, além de memorial, possa manter atividades de formação e pesquisa musical.

"Já sabemos que o ideal é ser no Bairro do Recife, mas a próxima etapa é formatar o projeto, pensar a estrutura e a captação de verba. Espero que no Carnaval de 2023 já tenhamos esse espaço para que as pessoas venham ao Recife e tenham esse lugar para visitar", afirmou ele, por telefone. "Precisa ser um lugar que tenha a ver com a inquietação criativa de Naná."