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Elogiada por Wagner Moura, preparadora de 'Marighella' processa atriz

A preparadora de elenco Fátima Toledo - André Lessa/Estadão Conteúdo
A preparadora de elenco Fátima Toledo Imagem: André Lessa/Estadão Conteúdo

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

28/01/2022 04h01

Em 1º de novembro de 2021, durante entrevista ao "Roda Viva", o ator Wagner Moura fez elogios ao trabalho da preparadora de elenco Fátima Toledo, responsável pelo ensaio dos atores de "Marighella". Ao comentar o processo de criação de seu primeiro longa-metragem como diretor, Moura disse admirá-la e ter aprendido muito com ela, com quem trabalha desde 2005.

A fala levou a atriz Denise Weinberg a postar uma "carta aberta a Wagner Moura", numa rede social. Nela, chamava Fátima Toledo de "pessoa do mal, que não entende nada sobre nosso ofício", que lhe "provocou uma hemorragia muito séria, por suas condições bárbaras de treinamento, dignas de uma fascista e torturadora".

TAB procurou Weinberg, em meados de dezembro. Por telefone, ela detalhou o conteúdo da postagem — trabalhara com Toledo em "Linha de Passe" (2008) — mas pediu à reportagem que não usasse a entrevista.

No início daquele mês, advogados de Fátima Toledo entraram com uma ação no TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) contra a atriz, que até a publicação deste texto não havia sido notificada formalmente.

A postagem, apagada pouco depois, ganhou repercussão na internet e suscitou a criação de um manifesto, assinado por mais de 200 profissionais de audiovisual, em apoio a Denise Weinberg. Desde então, reacendeu-se um antigo debate em torno do método de preparação de atores mais famoso do cinema brasileiro.

Método FT

O trabalho de Fátima Toledo ficou conhecido a partir dos anos 1990. Entre os principais filmes feitos por ela estão "Pixote, a Lei do Mais Fraco" (1981), "Central do Brasil" (1998) e "Cidade de Deus" (2002). O chamado Método FT une técnicas terapêuticas de "bioenergética" — através das quais os participantes contam suas histórias, seus traumas e dificuldades — e exercícios físicos para jogos teatrais, que já resultaram em situações extremas, como um famoso soco de Wagner Moura em um policial, durante a pré-produção de "Tropa de Elite" (2007).

"Ela inicialmente dá um cansaço físico. Em seguida, promove uma espécie de limpeza psicológica, e depois desse cansaço e limpeza, ela vai pegar o roteiro", define o jornalista e cineasta Evaldo Mocarzel, autor do documentário "Retrato Brasileiro: Fátima Toledo". "É de uma eficiência e excelência indiscutíveis, sobretudo com não-atores, mas também com atores. É polêmico porque, na verdade, os atores de teatro têm uma resistência a métodos mais contundentes, mas que funcionam muito no cinema."

Sérgio Machado preparou o elenco de "Cidade Baixa" (2005) com Fátima Toledo. "O que acho fantástico no trabalho dela é o ritualizar o ato da filmagem", afirma. Ele narra um exercício, feito com a atriz Alice Braga, que consistia em prendê-la deitada no chão e só soltá-la na hora da filmagem. "Era o momento em que a personagem estava se sentindo angustiada."

Embora goste do método, Machado sabe que há opositores e se diz preocupado com "essa cultura do cancelamento". "Tudo bem que quem se sinta prejudicado vá atrás dos seus direitos. Mas essa arena da internet é, de modo geral, perigosa. Essa história [da carta aberta] me incomodou, porque tem gente que nunca trabalhou com Fátima e tomou partido", diz ele.

"Estamos dando apoio, eu, Wagner Moura, Bruno [Gagliasso], Alice [Braga], todo mundo que gosta do trabalho dela", conta Machado. "O que acho que não dá para desmerecer é do trabalho dela."

Wagner Moura, Alice Braga e Lázaro Ramos foram um triângulo amoroso em "Cidade Baixa" (2005) - Divulgação - Divulgação
Wagner Moura, Alice Braga e Lázaro Ramos foram um triângulo amoroso em "Cidade Baixa" (2005)
Imagem: Divulgação

Ame-a ou deixe-a

A discordância sobre o método vem sobretudo de atores. Três conversaram com TAB, em condição de anonimato — entre eles há pessoas com sólida trajetória na televisão e no cinema.

Em 2017, Antônio* passou oito dias em sala de ensaio com Fátima Toledo, um assistente dela e mais dois colegas com quem dividiria cena em um filme. Ouviu repetidamente frases como "você não é ator", "você não entende o método", "você não é capaz", além de passar por exercícios que, segundo ele, nada tinham a ver com a personagem que interpretaria. Ao longo da semana, diz, chegou a travar a coluna.

"Fomos orientados a fazer exercícios de bioenergética, um 'processo de cura'. Mas ela [Fátima] usa isso para coletar dados da sua vida pessoal. Quando você está bem vulnerável, ela 'ataca'", lembra o ator. "Ainda tínhamos que fazer exercícios mais violentos com uma colega mulher. Como aquilo nos incomodava, a gente pedia desculpas a ela no final. Mas Fátima reclamava, dizia que não era pra pedir desculpas a ninguém. [Mas] Eu só posso chegar a uma cena tensa com a confiança e parceria da minha colega."

Na noite do sétimo dia, Antônio encontrou colegas em uma festa, em São Paulo, e descobriu que a insatisfação com o método não era só dele. Ouviu relatos e críticas de quem já havia trabalhado com ela. No dia seguinte, decidiu ignorar os direcionamentos e chegou a discutir com a preparadora.

"Eu dizia: 'vocês estão me atrapalhando. Deixa eu fazer meu trabalho.' Eu gritava que aquilo não era preparação. Até que um assistente disse que eu a estava desrespeitando, e me deu três empurrões. Ela estava chocada", lembra. "No dia seguinte, mandei uma mensagem para a direção, contando o que aconteceu. Fui demitido do filme."

A ausência de exercícios com o texto causou uma situação constrangedora na hora de uma equipe gravar um longa-metragem, em 2011, do qual Carlos* participou. "O diretor nos chamou para o ensaio no set, mas ninguém sabia o texto. A gente não ensaiou assim", lembra ele, para quem o método "deixa a pessoa muito exposta".

"São sempre jogos na base de violência, agressão verbal, física. O pior de tudo isso é que não há um 'fechamento'. Você sai completamente mexido, humilhado, xingado e agredido", lembra ele. "Esse processo pode ajudar a quem não tem experiência em atuação. Mas a vida do profissional é vasculhar nosso interior, nossos sentimentos, emparelhar nossas emoções com a emoção dos personagens."

Carlos acabou aprendendo com alguns colegas a "fingir" as emoções propostas. "Aquilo me pirou mais a cabeça. Quer dizer que a gente vai fazer um processo e vai enganar a preparadora?"

Carlos assinou o manifesto de apoio a Denise Weinberg. "As questões ainda ficam intramuros. Muita gente se colocou ao lado dela [de Denise] porque passou por situação semelhante. Por outro lado, tem gente que gosta, se identifica", explica. "Ou tem gente que a engana", acrescenta, sorrindo.

No caso de Márcia*, a experiência foi em um curso intensivo, no início da carreira de assistente de direção. No primeiro dia de aula, ela lembra que ficou 1 hora de quatro no chão, respirando de boca aberta, babando, mexendo os quadris para cima e para baixo. Depois, passou a socar uma parede por um longo tempo.

"Para não machucar mais as minhas mãos, resisti a bater com força. A preparadora me chamou de travada e reprimida, afirmando que eu não servia e não prestava para ser atriz", lembra.

Num segundo momento, Márcia conta ter sido imobilizada por dois colegas no chão, ouvindo xingamentos. "Ela [Fátima] dizia que, se eu quisesse ser atriz, precisava reagir. Em um momento, explodi. Consegui me soltar e joguei um dos homens no chão. Ele deu um salto, saiu correndo e eu o alcancei, o encostei na parede e comecei a estrangulá-lo. Foi quando o assistente me agarrou."

A atriz Denise Weinberg, que foi processada por Fátima Toledo - Lenise Pinheiro/Folhapress - Lenise Pinheiro/Folhapress
A atriz Denise Weinberg, que foi processada por Fátima Toledo
Imagem: Lenise Pinheiro/Folhapress

Mobilização

O movimento de apoio a Denise Weinberg, após a publicação da carta, foi organizado com ajuda da ONG Respeito em Cena, que dá assistência a vítimas de abuso emocional ou assédio moral no meio artístico.

"Quando uma ou um artista entra em um espaço de estudo, ensaio e trabalho, coloca-se imediatamente disponível ao processo de criação, contando com uma atmosfera lúdica, profunda e saudável com profissionais que ofereçam segurança, amorosidade e confiança", afirma a documentarista Luciana Sérvulo da Cunha, coordenadora da ONG. "Alguém com boa dose de masoquismo se adapta e gosta de métodos invasivos e violentos. Entretanto, para uma boa performance, não é preciso maltratar o corpo, humilhar o colega, humilhar-se, dar ou levar porrada." A ONG não tem conhecimento, no entanto, de qualquer denúncia formal recente contra Fátima Toledo.

Toledo foi procurada por TAB para explicar o método e comentar o imbróglio com Denise Weinberg. Seu advogado explicou que ela prefere não dar entrevistas.

No processo judicial, ao qual TAB teve acesso, a defesa da preparadora afirma que as "acusações falaciosas e irresponsáveis" de Weinberg iniciaram "um movimento de cancelamento" contra Toledo. "Não se nega que o seu método não é uma unanimidade no meio artístico, todavia, o que é imprescindível destacar, é que nenhum profissional é forçado a participar de qualquer etapa da preparação", acrescentam os advogados. Eles pedem uma indenização de R$ 30 mil, mais retratação pública, por danos morais.

* Nomes trocados para preservar a identidade dos entrevistados