Topo

A amizade de moradores de rua que perderam o pouco que tinham em Petrópolis

Os catadores de papelão Márcio José Lésse e Celso Luis da Silva no abrigo da Igreja de Santo Antônio, no Alto da Serra, em Petrópolis (RJ) - Rolland Gianotti/UOL
Os catadores de papelão Márcio José Lésse e Celso Luis da Silva no abrigo da Igreja de Santo Antônio, no Alto da Serra, em Petrópolis (RJ) Imagem: Rolland Gianotti/UOL

Rolland Gianotti

Colaboração para o TAB, em Petrópolis

25/02/2022 04h00

A vida promove encontros mesmo quando tudo é desencontro -- e cruzou as histórias de Márcio José Lésse e Celso Luis da Silva, ambos de 45 anos, um ano antes da chuva que devastou Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Foi quando viraram vizinhos de rua: Márcio José, morando em um Ford Escort 1992 caindo aos pedaços; Celso, em um pequeno caminhão quase ferro-velho, emprestado.

O temporal levou o quase nada que tinham, mas os aproximou ainda mais.

Tanto Márcio José quanto Celso já tiveram emprego, casa e família. Ambos se afundaram no álcool -- vício do qual, com a ajuda de remédios, ainda tentam se manter longe. De tantos abandonos, chegaram à indigência. Mas quis a sorte que eles se encontrassem nas ruas, que mudassem suas rotas na tarde da enxurrada e que, contando com o apoio um do outro, agora se recuperassem juntos das novas perdas.

O catador de papelão Celso Luis da Silva, 45 - Rolland Gianotti/UOL - Rolland Gianotti/UOL
O catador de papelão Celso Luis da Silva, 45
Imagem: Rolland Gianotti/UOL

Solidariedade e ganha-pão

Márcio José e Celso dividem um alojamento na Paróquia de Santo Antônio do Alto da Serra, bairro onde fica o Morro da Oficina, a maior concentração de vítimas da tempestade de 15 de fevereiro. Nos salões da igreja, vivem agora cerca de 150 pessoas desabrigadas.

No alojamento, os amigos tornaram-se sócios na separação e na venda do papelão para reciclagem que envolve os donativos para as famílias que perderam suas casas. Ganham R$ 0,32 pelo quilo de material. O faturamento foi de R$ 250 na primeira semana.

"Eu fico com 40%, Celso com outros 40%, e o restante é para a manutenção do carro", explica Márcio José. "É meu dormitório e meu ganha-pão", justifica.

Separado da primeira mulher, com quem deixou os quatro filhos, Márcio José virou dependente químico e passou sete meses em um centro de reabilitação destinado à população de rua. Depois, casou-se pela segunda vez e, em plena pandemia de covid-19, perdeu o emprego de taxista auxiliar. O casamento, que já não ia bem, acabou.

Sem casa, Márcio José foi parar na calçada da Rua Doutor Souza Franco, onde aos sábados e às terças-feiras acontece a feira livre do Centro de Petrópolis. Era ali que ele deixava o Escort que tinha comprado recentemente -- em prestações ainda não quitadas -- de um conhecido.

Agora, ele usa o carro para juntar papelão recolhido nas ruas e vende ao dono de um depósito de material de reciclagem no bairro Floresta, não muito longe.

O catador de papelão Márcio José Lésse, 45 - Rolland Gianotti/UOL - Rolland Gianotti/UOL
O catador de papelão Márcio José Lésse, 45
Imagem: Rolland Gianotti/UOL

O dia fatídico

Celso era garçom. Até que, também separado da mulher e também sem emprego, passou a morar na rua. No último ano, fez pequenos fretes com o caminhão baseado na rua da feira. Com o passar do tempo, se aproximou de Márcio José, de quem recebeu dicas sobre a venda de papelão para reciclagem. Assim, a dupla estreitou a amizade.

Quando a chuva desabou em 15 de fevereiro, os dois estavam em regiões diferentes da cidade. Celso tinha ido ao Alto da Serra atrás de papelão velho e acabou ajudando no resgate de vítimas da enchente; Márcio José estava no terminal de ônibus urbanos, onde há banheiro público e restaurante com refeições a preços populares.

Sem conseguir sair, Márcio José passou a acompanhar as notícias por um aparelho de TV da rodoviária. Quando, enfim, conseguiram voltar à rua da feira, em momentos diferentes, os amigos encontraram um cenário de destruição feito de lama e lixo.

Companhia na solidão

O caminhão de Celso foi jogado pela correnteza contra um muro e já não presta mais. Roupas e documentos se perderam. Para a sorte de Márcio José, quando o rio começou a subir, um outro morador de rua empurrou o Escort velho para um trecho mais alto da via -- mas o papelão acumulado sumiu.

Diante daquela visão, a morte do outro veio à cabeça de cada um. "Achei que nunca mais", diz Márcio José. "Para mim, ele tinha sido levado pela correnteza", completa Celso.

Horas depois, vagando na lama, os amigos, enfim, se esbarraram, se abraçaram e seguiram juntos. Tentaram abrigo em duas casas de acolhida mas deram com a cara na porta. A Igreja de Santo Antônio os recebeu.

O abrigo foi o primeiro a receber os desalojados pela maior tragédia da história de Petrópolis, com mais de 200 mortes. Ali atuam 120 voluntários -- como o pároco da igreja, José Celestino Coelho, 59, que informou no grupo de WhatsApp dos fiéis da igreja que o local ficaria aberto e poderia receber quem precisasse. A mensagem viralizou.

O padre José Celestino Coelho, pároco da Igreja de Santo Antônio, em Petrópolis (RJ) - Rolland Gianotti/UOL - Rolland Gianotti/UOL
O padre José Celestino Coelho, pároco da Igreja de Santo Antônio, em Petrópolis (RJ)
Imagem: Rolland Gianotti/UOL

"A tragédia se deu na nossa porta, não podíamos ficar de braços cruzados", lembra o padre que, da varanda da casa paroquial, assistiu o deslizamento de toneladas de pedra e lama sobre dezenas de casas do Morro da Oficina.

A estrutura do abrigo montado na igreja conta com seminaristas, irmãs de caridade, enfermeiros, donas de casa, estudantes, bombeiros, assistentes sociais, cozinheiros e faxineiros. Além dos serviços prestados aos desalojados que lá estão, os voluntários também cuidam da organização e distribuição de donativos que chegam de várias partes do país.

Coleta de doações na Igreja de Santo Antônio, em Petrópolis (RJ) - Rolland Gianotti/UOL - Rolland Gianotti/UOL
Coleta de doações na Igreja de Santo Antônio, em Petrópolis (RJ)
Imagem: Rolland Gianotti/UOL

A logística é responsabilidade do seminarista João Monteiro, 25, formado em filosofia e a dois anos de receber a batina. Há seis trabalhando com acolhimento familiar no município de Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio, ele diz que o atendimento aos desabrigados, que deveria ser de caráter emergencial, não tem previsão para acabar.

Desde que chegaram à paróquia, os amigos não foram procurados por ninguém. Nenhum parente, nenhum conhecido. "A gente continua não sendo notado", lamenta Márcio José. "Ter um amigo e um carro, mesmo que caindo aos pedaços, já ajuda no recomeço", consola Celso.