'Em cinco segundos, nada sobrou': a tragédia da casa amarela em Petrópolis

Pela intensidade e persistência, a chuva de domingo (20) lembrava a de 15 de fevereiro, quando uma tempestade lavou Petrópolis (RJ) e deixou mais de 230 mortos, a maior tragédia da história da cidade.
Naquela tarde, como no mês anterior, os rios que cortam o Centro Histórico transbordaram, lojas foram invadidas pela água e cenas de carros sendo arrastados pela correnteza se multiplicavam nas redes sociais. Havia uma sensação de que outra desgraça se aproximava.
Na rua Washington Luís, o fornecimento de energia elétrica caiu e a casa amarela em que o professor de artes visuais Nelson Ricardo da Costa, 59, vivia com a mãe, Heloisa Helena, 86, e o vira-lata Delúbio foi tomada pelo breu.
Nos momentos de escuridão, era com Mário Augusto Queiroz Carvalho, 35, que Nelson podia contar. Professor do IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Mário Augusto morava em um pequeno prédio a cerca de 200 metros do amigo.
Assim que a tempestade deu uma trégua e o alagamento da Washington Luís diminuiu, ele enfrentou a lama, a escuridão e a escadaria sem fim da servidão que levava à casa de Nelson. A intenção de Mário Augusto, dizem os vizinhos, era ajudar o parceiro de todas as horas no resgate de dona Heloisa, que tinha dificuldade de locomoção. Mas a chuva voltou ainda mais forte e levou a casa amarela encosta abaixo com todos dentro.
Como uma árvore se partindo
Do outro lado da rua, Bruno Scali, 35, acompanhava da janela de casa, no alto de uma ladeira, o movimento da água do Rio Quitandinha na Washington Luís. Os filhos Heitor, 9, e Isis, 4, se preparavam para dormir. Às 20h15, registrou ele, lâmpadas e postes apagaram. O celular de Bruno marcava 21h40 quando a construção de três pavimentos com Mário Augusto, Nelson, dona Heloisa, outras duas pessoas e o vira-lata Delúbio desmanchou-se.
"Primeiro foi um estalo, como uma árvore se partindo. Depois, outro e mais outro e mais outro. Em cinco segundos, não sobrou nada. Foram muitos gritos, muitos pedidos de socorro", conta.
A encosta onde ficava a casa amarela tem mata fechada no topo. Na metade inferior, a vegetação deu lugar, ao longo dos anos, a construções residenciais e comerciais. No temporal de 15 de fevereiro, a queda de uma barreira rasgou o morro até a base e atingiu quatro imóveis vizinhos. Na ocasião, a casa de Nelson ficou aparentemente intacta, mas o sinal de alerta tinha sido dado: terra e vegetação foram revolvidas, bem ali ao lado. Assustados, ele e a mãe buscaram abrigo no apartamento de Mário Augusto. Retornaram à casa na semana seguinte.
"Eles achavam que a vida voltaria ao normal, que o pior já tinha passado. Mas nem sempre as coisas acontecem como a gente quer ou merece", diz o aposentado Paulo César Martins da Silva, 79, morador do apartamento do andar inferior ao de Mário Augusto. Na manhã da tragédia, ainda viu o vizinho sair para o passeio habitual com Nelson e Delúbio. Como Nelson e dona Heloisa, outros moradores também voltaram.
"Há uma letargia do poder público. Após a tragédia de fevereiro, quase nada foi feito para evitar outras mortes, e nós ficamos sem saber como agir ou para onde ir", diz o funcionário público Marcelo Antonio Barros, 53, morador da construção logo abaixo da casa amarela, parcialmente destruída, agora acolhido com a mulher e dois cachorros na casa de um parente.
Letargia e temor
A Defesa Civil de Petrópolis demorou mais de um mês para atuar no caso da encosta da Washington Luís. De acordo com nota da prefeitura, enviada à reportagem do TAB na quarta-feira (23), "o imóvel atingido por deslizamento na Rua Washington Luís foi vistoriado no dia 18 de março e interditado. A medida foi adotada em decorrência da instabilidade na encosta. O imóvel chegou a ser afetado por alagamento na chuva de fevereiro. Com a constatação dos riscos, foi reforçada a orientação para que os moradores não permanecessem no local até que obras de contenção fossem realizadas no imóvel".
Internamente, a casa era dividida em duas residências. No terceiro piso, viviam Nelson e mãe, proprietários do imóvel. No andar térreo e no intermediário, moravam há cerca de um ano o segurança Antônio Guimarães, 40, sua mulher Mirian Gonçalves do Valle, 32, e os filhos do casal, Cauã, 9, e Davi, 6. No dia da tragédia, a família tinha visita: Vanila Jesus da Silva, 15, sobrinha de Antônio.
Amiga do casal, a professora Danielle Oliveira, 43, lembra que, após a queda da barreira em 15 de fevereiro, a família, com medo, decidiu se mudar para um lugar, ainda que próximo da casa amarela, mais distante da barreira. O aluguel já estava acertado, e a mudança, marcada para terça-feira (22). No dia da tragédia, aliás, a família finalizava a limpeza da futura casa.
"Estavam todos animados e, de alguma forma, aliviados porque acreditavam que ficariam em segurança. Com a chuva de domingo, um padrinho levou as crianças embora. Antônio, Mirian e Vanila dormiriam na casa nova, mas subiram até a casa antiga para pegar os colchões. Foi quando tudo caiu", conta Danielle.
Antônio foi resgatado dos escombros. Com fraturas em uma das mãos, passou por cirurgia e recebeu alta do hospital. Soterrado e bastante machucado, Delúbio foi encontrado pelos bombeiros 24 horas depois. As demais vítimas do desabamento não sobreviveram. Na encosta, não há mais qualquer vestígio da casa amarela.
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