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'Ala dos descontentes': rebaixamentos no Carnaval do Rio geram reclamações

Desfile da Acadêmicos do Cubango - Agência Enquadrar
Desfile da Acadêmicos do Cubango
Imagem: Agência Enquadrar

Felipe Lucena

Colaboração para o TAB, do Rio

08/05/2022 04h01

O esquenta para o desfile da Acadêmicos de Santa Cruz, escola da zona oeste do Rio, acontecia normalmente. A agremiação foi a quarta a entrar na Marquês de Sapucaí no segundo dia de desfiles da Série Ouro, a divisão de acesso. Enquanto a Estácio de Sá cruzava a avenida com seu enredo-releitura em homenagem ao centenário do Flamengo, a Santa Cruz aquecia os tambores para mostrar ao público a trajetória do ator e diretor Milton Gonçalves.

Tudo parecia sob controle, mas naquela correria de sempre. A escola passou bem, sem grandes complicações ou razões para terminar o cortejo com o grito de campeão - que surge quase naturalmente nas arquibancadas quando o desfile se mostra acima da média. O problema desfilou depois da apuração dos jurados, quase uma semana após a quinta-feira de Carnaval.

A Acadêmicos do Cubango, por sua vez, teve desarranjos durante o esquenta. Segundo informações, a agremiação estava com problemas em carros e faltavam fantasias. Houve quem rebaixasse a Cubango antes mesmo do desfile, mas a verde e branco de Niterói concluiu sua passagem elogiada por especialistas. Assim como a Santa Cruz, os problemas abriram alas depois.

"Felizmente não se confirmaram os boatos que davam conta de grandes problemas na escola. A Cubango passou muito bem", escreveu Rachel Valença no site Carnavalesco. Na mesma página, também após o desfile, Luiz Fernando Reis afirmou: "Tá longe de descer, mas também não acho que dispute pra subir".

Não deu. Cubango e Acadêmicos de Santa Cruz foram rebaixadas. As duas escolas receberam a pior notícia possível no dia da apuração, mas o cenário se mostrou ainda mais cinza por uma alegada injustiça na soma dos jurados.

"O justo título do Império Serrano não pode apagar o crime que foi perpetrado contra Cubango e Santa Cruz", diz um trecho da postagem no Twitter de Luiz Antônio Simas, professor, historiador e estudioso do Carnaval.

Foi quase consenso que as agremiações mereciam sorte melhor. O resultado foi classificado como "barbaridade", "roubo", "absurdo" e mais uma Sapucaí de alegorias raivosas.

Desfile da escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz em 21 de abril, no Sambódromo do Rio - Gilson Borba/Futura Press/Folhapress - Gilson Borba/Futura Press/Folhapress
Desfile da escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz
Imagem: Gilson Borba/Futura Press/Folhapress

'Triste episódio'

Em um comunicado oficial, a Acadêmicos de Santa Cruz afirmou: "sentimos a necessidade e o dever de nos posicionarmos publicamente sobre o triste episódio ocorrido durante a apuração do Carnaval 2022 da Série Ouro, organizado e regido pela Liga-RJ - e consequentemente sobre o covarde, injusto e protervo rebaixamento da nossa escola e da nossa coirmã GRES Acadêmicos do Cubango".

O último parágrafo do texto traz o seguinte: "Temos plena convicção da qualidade do cortejo realizado pela nossa escola em 2022 e por isso repudiamos o resultado da última terça-feira, 26 de abril de 2022. De qualquer forma, continuaremos bastiões da cultura popular, promovendo sociabilidade entre nossa comunidade e com orgulho de gritar pro mundo que feliz é quem tem Santa Cruz no coração".

A reportagem fez contato com diversos integrantes da escola, que preferiram não se pronunciar publicamente sobre a situação. Porém, o clima geral é de tensão e extremo descontentamento. Um deles chegou a falar em um cenário que está "envolvendo muito osso enterrado no armário".

Em outro caso, um integrante da agremiação que tem cargo na Prefeitura do Rio, disse que em décadas de Carnaval ainda não tinha visto tamanha incoerência no resultado final. Chamou tudo de "palhaçada", mas preferiu não ter o nome citado por medo de retaliações.

Um comentário constante entre componentes da Santa Cruz era que a escola não é uma das "queridinhas" da Liga-RJ e que acabou caindo para impedir outras de mais força política de caírem.

"As escolas que estão 'fora da panela' precisam ser perfeitas na avenida, porque se cometem qualquer deslize, vão ter notas mais baixas que o normal. Foi isso que prejudicou Cubango e Santa Cruz", alegou um componente da Santa Cruz.

Questionando o rebaixamento, Patrícia Cunha, mandatária da Cubango, disse que vai buscar reparação. "Nossa escola não fez um desfile para esse resultado. Um absurdo que indigna o mundo do samba com tamanha injustiça! Ao conferir cada justificativa dos jurados, buscaremos reparar a injustiça cometida, tomando as medidas cabíveis, em todos os âmbitos, para a defesa da Acadêmicos do Cubango", escreveu em uma rede social.

Patrícia ainda comentou uma possível perseguição: "Este resultado seria inexplicável se não fossem as recorrentes ameaças e tentativas de depor a minha gestão por não me sujeitar ao que queriam me impor. Nunca imaginei que atacariam a escola desta forma, uma mulher negra que não se submete aos 'senhores' incomoda muito".

Desfile da escola de samba Acadêmicos do Cubango em 20 de abril, no Sambódromo do Rio - Agência Enquadrar - Agência Enquadrar
Acadêmicos do Cubango desfilando na Sapucaí
Imagem: Agência Enquadrar

Tretas e brigas

A Tradição não desfilou na Série Ouro em 2022 porque não teve o seu acesso reconhecido pela Liga-RJ, após ter vencido o Carnaval da Livres (organização de escolas de samba dissidentes da LIESB), em 2020. O caso está na Justiça. A presidente da agremiação, Raphaela Nascimento, engrossou o coro dos descontentes. "Não é sobre desfiles, quesitos, quem é a melhor escola e quem é a pior na pista. É sobre interesses pessoais, financeiros e brigas internas. Até quem não é do Carnaval já sabia há meses que o Império Serrano seria o campeão do Carnaval, e a União da Ilha, que fez um brilhante Carnaval, ficou em terceiro lugar. A Unidos de Padre Miguel, impecável, em quinto lugar. Agora desceu a Cubango, que dentro da pista foi uma das melhores, e a Santa Cruz, que fez um grande Carnaval", escreveu em suas redes sociais após o resultado final da apuração.

Diretor de Carnaval da Unidos de Padre Miguel, Cícero Costa também usou as redes para se manifestar sobre o rebaixamento das escolas da Série Ouro e confirmar sua saída da Diretoria da Liga-RJ: "Acreditei e confiei que o processo e toda estrutura administrativa desta nova liga seria diferente das demais. Me enganei. Saio com a certeza de que não posso compactuar com todas as injustiças vistas em especial neste último Carnaval. O Carnaval que deveria ser da retomada, de alegria, terminou sendo de frustração para diversas agremiações que lutaram muito para apresentar um desfile digno na avenida", diz um trecho da nota.

Segundo o regulamento, cada um dos 36 jurados precisa escrever todas as notas por extenso e justificar toda vez que não der 10 no quesito. As justificativas foram divulgadas na sexta-feira, 29 de abril. Santa Cruz terminou com 268,1 pontos; a Cubango, com 267.8. À frente das duas, livre do rebaixamento, uma das cotadas para cair estava a Em Cima da Hora, que fez a pontuação de 268.5 — um dos carros da agremiação esteve envolvido na morte da menina Raquel. Outra apontada como forte candidata ao rebaixamento, de acordo com analistas, a Unidos de Bangu acabou em sétimo.

Fábio Batista, coreógrafo da comissão de frente do Cubango, se posicionou dizendo que "[os jurados] foram incisivos. As notas em si poderiam não me incomodar, mas a impressão que tenho é que o nosso trabalho teve um olhar bem mais cirúrgico. Minha escola foi desprestigiada e impossibilitada de ter qualquer reação nas notas que lhe foram atribuídas em todos os quesitos".

O coreógrafo também declarou que não deu para entender o senso de justiça para os desfiles depois desse episódio. Ele acredita que não houve o devido julgamento para o que a Cubango apresentou na Avenida, já que a passagem da escola foi elogiada. "Fica difícil entender o veredito disso tudo, o que é Carnaval na cabeça dos jurados?".

A Liga-RJ não se pronunciou sobre o resultado final da Série Ouro. As escolas rebaixadas disputam, automaticamente, o Carnaval da Série Prata na Estrada Intendente Magalhães em 2023. Arrastão de Cascadura e Unidos de Jacarepaguá subiram e vão desfilar na Sapucaí em 2023. Pelo menos é isso que está definido até o momento.