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'Tacaram bomba na escola': Um dia de boatos no grupo de mães no WhatsApp

Movimentação no CEMEI Pinheirinho d"Água, que integra o complexo CEU Pinheirinho d"Água, no Jaraguá, na zona norte de São Paulo - Ricardo Matsukawa/UOL
Movimentação no CEMEI Pinheirinho d'Água, que integra o complexo CEU Pinheirinho d'Água, no Jaraguá, na zona norte de São Paulo Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

12/05/2022 04h01

"Bom dia, vai ser hoje o protesto?", perguntou uma mulher num grupo de WhatsApp que reúne 50 mães de crianças que estudam e passam o dia no CEMEI Pinheirinho d'Água, centro municipal de educação infantil no Jaraguá, na zona norte de São Paulo.

Elas compartilham entre si a rotina intensa — seus filhos têm de zero a seis anos de idade — e a dependência de centros de educação infantil e creches para deixarem os pequenos e ir à labuta, como é o caso da CEMEI, que integra o complexo do CEU (Centro Educacional Unificado) Pinheirinho d'Água - Luís Gama, ao lado do Parque Pinheirinho d'Água.

Naquela manhã de 29 de abril, porém, um motivo em especial as unia. "A gente precisa de segurança para nossos filhos, para todas as escolas", disse ao TAB a manicure Klaucia Lima, 19, repetindo o mote do grupo, criado por ela três dias antes.

Tudo começou no dia 26, quando ela recebeu um chamado da escola para buscar seus filhos Lorenzo, 3, e Leonardo, de 7 meses, antes do horário normal. Saiu no meio do trabalho, preocupada. Na secretaria, ninguém sabia explicar o motivo do pedido. No entanto, uma funcionária lhe confessou, à boca pequena: "Ela disse que havia um homem jogando bomba, que queria invadir a escola, estava armado e atirando para o alto".

Alarmada, Klaucia resolveu compartilhar a informação em posts no Facebook e em grupos do bairro. A história logo correu a região — e atraía ainda mais depoimentos de gente que teria presenciado ou ouvido o episódio. Não apenas ali, mas em outras escolas no entorno.

Nascia assim o grupo "Manifestação no CEU" com um chamado às ruas. A notícia chegou aos ouvidos da diretoria da CEMEI, que chamou as mães para uma conversa.

Segundo relato de Klaucia, a diretora confirmou que havia chegado o boato de que "supostamente uma pessoa armada" estava no entorno próximo à escola, mas que não havia indícios de veracidade. Klaucia achou estranho o desencontro de informações e estava determinada a solucionar o caso. O protesto ficou marcado para o dia 29, uma sexta-feira. Um emoji de chamas passou a ser utilizado para identificar o grupo — prometia, então, algo incendiário.

Movimentação no CEU/CEMEI Pinheirinho d'Água, no bairro do Jaraguá, na zona norte de São Paulo - Ricardo Matsukawa/UOL - Ricardo Matsukawa/UOL
Além da bomba, passou a circular outro rumor sobre uma pessoa supostamente armada no entorno da escola
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

'Alguém traz o álcool?'

No dia marcado, Klaucia não levou as crianças para a escola e foi à papelaria comprar cartolina para confeccionar cartazes. No caminho, instigava outras mães a participarem: "Vamos fechar a avenida".

Um integrante do grupo mandou um áudio reclamando que estava na fila do banco e não chegaria a tempo. No entanto, a maioria das mães, muitas delas jovens como Klaucia, confirmaram presença. A mais velha do grupo estava animada: "Vamos deixar a casa arrumada, a comida feita, os meninos na escola. Vamos 'se' animar para ter a segurança das crianças", disse, em mensagem de voz.

Eram 14h e a garoa engrossava no Jaraguá quando um novo áudio caiu como uma bomba. Era Klaucia, com respiração ofegante: "Gente, eu tô aqui embaixo e a menina que trabalha no CEU acabou de falar que está tendo bomba agora na escola", enfatizou. "Ela falou que a diretora e as professoras estão assustadas."

Mensagens pipocaram com uma sequência de perguntas: onde exatamente? Era bombinha? Nenhuma resposta concreta. A mais velha não se conteve: "Do jeito que eu estou revoltada na minha vida querendo fazer homicídio. Com certeza isso é molecagem, esses meninos sem pai nem mãe ficam fazendo fuzuê. Se uma bomba dessa pega numa criança?", disse. "Vamos pegar uma bomba e enfiar no rabo dele."

Muitas se desesperaram: seus filhos estavam naquele momento no CEMEI. Outros relatos, creditados a "vizinhos" e "amigo de amigo", confirmavam a informação. Um áudio apócrifo foi compartilhado: "Desde ontem está acontecendo isso, eu moro atrás da escola, eu achei até que era tiro, era umas 19h, 20h, por aí", diz a voz em sussurro. "A diretora quer passar pano, não é possível. Ou então são surdos", comentou outra.

Neste momento, a reportagem do TAB entrou em contato com o CEMEI. Um homem, que se identificou como segurança, deu uma leve risada: "Aqui está tudo em paz. Mas está rolando mesmo esse boato", disse. Às mães que ligavam preocupadas, os funcionários pediam calma, dizendo que se tratava de uma "fake news".

Mãe pede segurança para os filhos em cartaz para o protesto no Jagauré - Reprodução - Reprodução
Mãe prepara cartaz pedindo segurança para os filhos no CEU Pinheirinho
Imagem: Reprodução

TAB relatou ao grupo de pais o diálogo com a escola, mas o protesto continuou marcado. "Não estou entendendo mais nada", disse uma mãe em um áudio em que se ouvia uma algazarra de crianças ao fundo. A mais velha da turma orientou: "Quem for pegar as crianças, já fica por aí. Essa diretora está debochando da gente", emendando adjetivos à responsável pelo espaço: "vagabunda", "rapariga", "sonsa" e "nojenta".

Klaucia entrou no meio: "Para de dormir gente, pelo amor de Deus, é claro que eles não vão falar pra gente. É porque eles sabem da nossa manifestação e eles não querem que isso aconteça", disse, ao compartilhar a foto do seu cartaz: "Pedimos segunça [sic] na escola: CEU Pinheirinho". O chamado deu certo. Teve quem disse que ia levar pneu, outra se comprometeu com o álcool. Klaucia garantiu: "Estou com o isqueiro".

Ação orquestrada

Na mesma hora, chegou à reportagem outra mensagem que circulava em grupos de WhatsApp como aquele, mas que se referiam à Escola Estadual Professor Jair Toledo Xavier, na Brasilândia, a 9 km do Jaraguá. Anônimo, o texto alertava: "Está rolando boatos por aí que hoje às 16h30 terá massacre na escola". Depoimentos de pais e vídeos confirmavam que os alunos foram dispensados mais cedo.

O mesmo alerta chegou aos ouvidos de outra escola estadual da região, a Dr. Ubaldo Costa Leite, como divulgado em páginas do Facebook. Nos comentários, a impressão era a de que se tratava de uma ação orquestrada — ainda que apena boatos. Relatos dão conta que a história se repetiu em escolas de Pirituba, Morro Doce, Jardim Guarani e Vila Terezinha, todas na zona norte.

Teve quem dissesse que os filhos voltaram para casa com crise de ansiedade. Outros confirmam que pichações nas escolas indicavam supostos ataques. Uma mãe compartilhou uma história que teria nascido num ambiente como aquele, digital: "Eu recebi um áudio no qual uma senhora falava que foi uma brincadeira da sobrinha dela com as amigas. As meninas queriam sair cedo da escola."

A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo informou ao TAB que não houve registro de ataques nas unidades citadas. "A pasta conta com o apoio da GCM e da Polícia Militar para policiamento e segurança da comunidade escolar. A Diretoria Regional de Educação (DRE) está à disposição dos pais ou responsáveis pelos estudantes para quaisquer esclarecimentos", afirmou, em nota.

A Secretaria Estadual de Educação não respondeu à reportagem até o momento. Nenhuma das pastas comentou especificamente sobre a onda de boatos do dia 29.

Movimentação no CEU/CEMEI Pinheirinho d'Água, no bairro do Jaraguá, na zona norte de São Paulo - Ricardo Matsukawa/UOL - Ricardo Matsukawa/UOL
A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo informou que não houve registro de ataques nas unidades
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

O protesto que não foi

Às 16h, três mães chegaram na frente da CEMEI Pinheirinho d'Água. As fotos compartilhadas no grupo de WhatsApp indicavam que a GCM fazia ronda no local. Fora o trio, havia um gato magro caminhando lentamente nas grades da escola. "Povo, cadê vocês?", perguntava Klaucia. "Anda desgraça, desce logo, porra. Já arrumei pneu e madeira pra gente botar fogo e parar o trânsito", disse outra mãe.

A chuva e a procura de alguém para ficar com os filhos eram as dificuldades relatadas. Alguém então avisou que o carro da reportagem da TV Record estava na frente da escola (o que não aconteceu). "Quem quiser ficar famoso e entrar na 'Fazenda', agora é a hora de brilhar."

Uma jovem, até então calada, avisou que estava indo com os filhos. "Por favor, quero ajuda pra segurar", disse, afobada. "Quero colocar fogo nos pneus, fogo nos carros, fogo em tudo. Vambora, manifestação! Começa, pessoal!"

Os áudios pipocaram: cada um dando sua localização atual. Os minutos passavam e ninguém chegava. "Ô gente, vocês estão vindo de helicóptero, de barco ou de jegue?", perguntou a mais velha. "Estou indo de barco, querida, porque eu sou chique", respondeu a jovem. A primeira voz masculina se fez ouvir no grupo: "E você deixou meus filhos com quem?"

Às 17h40, a manifestação foi oficialmente encerrada com apenas sete pessoas. Os áudios eram de lamentação e um certo ressentimento. "Quem ficou de leva-e-traz foram vocês, mas tudo bem, faz parte da vida", disse Klaucia.

"Tentamos correr atrás pra não acontecer nada com as nossas crianças, mas, infelizmente, as pessoas esperam acontecer para depois agir", disse a mais velha, sem meias palavras. "Se Deus me livre mais para frente acontecer alguma coisa, a minha consciência vai estar limpa."

Às 18h, o grupo implodia com uma sequência de avisos de saídas, restando 19 participantes que nunca mais interagiram. Desde então, não houve mais boatos. Procurada pelo TAB no dia 29 (e nos dias seguintes), a diretoria do CEMEI Pinheirinho d'Água afirmou que não tinha nada a comentar.