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Arena apolítica: público de show sem Zé Neto desconhece polêmica do cachê

Cristiano faz selfies com fãs na saída do show em Catanduva (SP), na madrugada de sábado (4) - Rodrigo Ferrari/UOL
Cristiano faz selfies com fãs na saída do show em Catanduva (SP), na madrugada de sábado (4) Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

Rodrigo Ferrari

Colaboração para o TAB, de Catanduva (SP)

04/06/2022 12h42

Passava das 2h de sábado (4). Cristiano, da dupla com Zé Neto, solicitou ao público na arena do Catanduva Rodeo Festival que levantasse as mãos para o alto. "Peço humildemente", fazia questão de frisar o cantor, uma das estrelas do evento realizado na cidade de pouco mais de 120 mil habitantes, no noroeste paulista. "Essa tempestade vai passar", emendou.

O show com o parceiro Zé Neto era uma das atrações mais aguardadas do rodeio, o primeiro realizado na cidade desde o começo da pandemia. Era, pois acabou não ocorrendo, não da forma como o público e os organizadores esperavam. Horas antes da abertura dos portões do Recinto Municipal de Exposições, bombou nas redes a notícia de que o dono da primeira voz da dupla havia se acidentado, fraturando três costelas, fato que o impediria de se apresentar.

Nas redes sociais e grupos de WhatsApp da cidade, iniciou-se uma onda de lamentações — e também de piadas. Alguns mais pessimistas apostavam que a ausência de Zé Neto acabaria por esvaziar o evento. Houve também quem imediatamente lembrasse da polêmica do cantor sertanejo com Anitta, motivada pelos comentários dele acerca da tatuagem íntima da autora e criticando a Lei Rouanet, em show pago pela prefeitura de Sorriso (MT).

Alguns poucos logo relacionaram o ocorrido às recentes revelações sobre cachês milionários de músicos sertanejos, em shows organizados por prefeituras de pequenas cidades. Em Catanduva, contudo, a festa do peão é um evento privado. A diretoria do Clube de Rodeio "Os Bravos" (cujo presidente de honra é o vice-prefeito do município, Cláudio Romagnolli, do PSDB) foi ligeira para encontrar uma solução para a ausência de Zé Neto. A apresentação de Cristiano estaria mantida, só que com a companhia da dupla Neto e Henrique, de Fernandópolis.

Os portões do recinto seriam abertos por volta das 19h de sexta-feira (3). Questionada, a assessoria de imprensa do evento não soube informar qual era a estimativa de público para a noite nem a quantidade de ingressos vendidos. A organização optou por não revelar nem mesmo a capacidade máxima de público permitida no local.

Por volta das 23h, no auge da apresentação das montarias, era praticamente impossível circular pelas arquibancadas e mesmo pelos camarotes. As previsões sobre a possível debandada do público fracassaram.

Cristiano, da dupla com Zé Neto, faz show sem o parceiro em Catanduva (SP). No palco, foi acompanhado por Neto e Henrique - Beto Gonsalvo/Divulgação - Beto Gonsalvo/Divulgação
Cristiano, da dupla com Zé Neto, faz show sem o parceiro em Catanduva (SP). No palco, foi acompanhado por Neto e Henrique
Imagem: Beto Gonsalvo/Divulgação

Polarização social

Entre o público presente, política passou ao largo das preocupações. Na fila das bilheterias e no interior do recinto, a preocupação do público se restringia às costelas fraturadas de Zé Neto. As pessoas estavam ali para trabalhar ou para curtir uma festa eclética. Nos intervalos entre as montarias de cavalos e touros, por exemplo, um DJ executava desde trechos de sertanejo-raiz até acordes de metal pesado. Na primeira noite, a estrela do rodeio foi Alok.

O paulistano Alexandre Nascimento aproveitou o rodeio para faturar uns trocados. Ele veio a Catanduva para ajudar a irmã em uma barraca de lanches, Sobre a polêmica de Zé Neto e Anitta, afirma estar acompanhando por cima. Da política e dos preços dos cachês, afirma estar por fora.

O vigia Pedro Olímpio Barbosa, 40, é outro que aparenta não estar preocupado com a verborragia de Zé Neto e suas preferências políticas. Ele foi à portaria do rodeio, tentando vender cerveja em lata, mas reclamava do movimento. "Hoje está muito fraco. Também, o povo já chega bebendo, com três latas na mão."

A polarização que se observa no evento é, acima de tudo, social. Numa esquina localizada a cerca de 200 metros da entrada do recinto, Emily Pereira, 17, balançava freneticamente uma lanterna com as mãos, enquanto berrava tentando convencer motoristas a utilizarem o estacionamento improvisado em um posto de gasolina. "Já estou quase sem voz", reclamou.

Mesmo trabalhando ao lado da festa, a adolescente não havia conseguido entrar no recinto em nenhuma das noites. O ingresso mais barato para a noite de Zé Neto e Cristiano era de pista, vendido a R$ 100.

Emily diz gostar de algumas músicas da dupla e demonstra estar ciente da polêmica da tatuagem. "Sei lá, acho que ele errou ao se meter na vida dos outros. A tatuagem é dela. Não é da conta dele", pondera. E quanto à política e aos cachês milionários em eventos pagos com dinheiro público? "Disso não estou sabendo, não."

Show de Cristiano em Catanduva (SP), sem a presença de Zé Neto, na madrugada de sábado (4) - Rodrigo Ferrari/UOL - Rodrigo Ferrari/UOL
Show de Cristiano em Catanduva (SP), sem a presença de Zé Neto, na madrugada de sábado (4)
Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

'Um cavalo, de tanto que canta'

O público precisou de paciência para aguardar o início do show. As montarias terminaram por volta da meia-noite. Depois disso, foi preciso esperar mais de 40 minutos para que técnicos montassem uma apresentação "piromusical", em que uma viola é desenhada no centro da arena e depois incendiada, enquanto fogos de artifício sincronizados explodem no mesmo ritmo de um pagode da finada dupla Tião Carreiro e Pardinho.

Apenas à 1h09 de sábado é que Neto e Henrique subiram ao palco. Apesar de esbanjarem empolgação, demora um pouco até o público engrenar. Dez minutos depois, já é possível ouvir vozes femininas emocionadas entoando o refrão de "Cheiro de Problema".

Quase 15 minutos depois, Cristiano apareceu e enfim a plateia explodiu, sobretudo quando ele puxou o hit "Notificação Preferida" (o vídeo tem 726 milhões de visualizações no YouTube). Ao contrário de Zé Neto (que fraturou as costelas treinando boxe) e seu jeito polêmico, Cristiano opta por um tom mais cordial e apolítico nas declarações e gestos. Durante pouco mais de uma hora em que permaneceu no palco, passou boa parte do tempo fazendo fotos com celulares que os fãs atiravam ao palco.

A cada instante, procurava se desculpar por sua voz não ser tão potente quanto a do colega. "Hoje é um dia muito difícil para mim. Em 11 anos de carreira, nunca fiz a primeira voz." Reconhece que seria difícil suprir a ausência de Zé Neto. "Ele é um cavalo, de tanto que canta."

Sempre que possível, Cristiano fala de Deus e de Jesus. Na metade do show, ele convidou o jovem catanduvense Bruno Barbosa, que é cadeirante, para ir à frente do palco. O gesto rendeu inúmeras exclamações entre os presentes, do tipo "Que lindo!". O show prosseguia em tom improvisado, com canções de autoria própria e de outros sertanejos.

Perto do fim, Cristiano emendou sucessos de grupos de rock nacional como Jota Quest, Capital Inicial e Raimundos. Tudo isso, sem deixar de fazer muitas selfies nos celulares atirados ao palco. Por volta das 2h30, o cantor encerrou sua participação, desculpando-se mais uma vez, prometendo retornar em breve com Zé Neto e entregando a batuta para Neto e Henrique.

Na saída do estacionamento, ainda teve paciência para parar a van que o transportaria até São José do Rio Preto e fazer fotos com fãs. Sempre sorrindo. Nenhum dos que clamavam pela atenção do ídolo estava preocupado com tatuagens íntimas, cachês milionários pagos com dinheiro público ou posições políticas. No tribunal do rodeio de Catanduva, Zé Neto e Cristiano pareciam mais do que absolvidos.