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Com 'MST empreendedor', Alckmin é tietado pela esquerda em Andradina (SP)

Geraldo Alckmin tietado em Andradina (SP), na inauguração de uma fábrica de laticínios do MST - Rodrigo Ferrari/UOL
Geraldo Alckmin tietado em Andradina (SP), na inauguração de uma fábrica de laticínios do MST Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

Rodrigo Ferrari

Colaboração para o TAB, de Andradina (SP)

24/06/2022 20h53

Geraldo Alckmin (PSB) caminha entre uma multidão de militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Trajando seus bonés vermelhos, eles se espremem tentando agarrar o ex-governador de São Paulo, que por mais de 30 anos foi filiado ao PSDB. Os seguranças da equipe do ex-tucano procuram a todo custo dispersar a massa. Até que um militante mais afoito se aproxima e crava:

- Governador, uma selfie, por favor?

Ele sorri e posa para mais uma foto.

Se a cena narrada acima tivesse ocorrido dez anos atrás, talvez seu desfecho não fosse tão amigável. Mas os tempos são outros. Alckmin mudou de lado e partilha a chapa de Lula, de quem foi adversário na eleição de 2006.

Nesta sexta, (24), o pré-candidato a vice-presidência esteve em Andradina, no noroeste paulista, para uma agenda inusitada: a inauguração de uma cooperativa de laticínios do MST. O evento teve hino nacional — com direito a militantes cantando com a mão no peito —, oração com padres e uma pastora em prol da reforma agrária e da vitória de Lula em outubro, além de apresentações teatrais de jovens tatuados pregando o fim do latifúndio. Mais tarde, após a revoada dos políticos, ainda estava prevista a realização de um churrasco e um bailão para a militância.

Esse foi o primeiro compromisso público de Alckmin organizado por um movimento social, sem a presença de Lula. Em maio, ele chegou a participar de um ato das centrais sindicais, mas estava em companhia do colega de chapa.

A reportagem do TAB tentou abordá-lo ao fim do evento, enquanto era espremido por militantes do MST, do PT e até do Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), ávidos por um clique com Geraldo.

Ao ser perguntado se já havia participado de algum ato do MST, Alckmin respondeu que esteve em algumas inaugurações, mas que nunca comparecera a uma atividade de contornos mais políticos. Nas ocasiões, a recepção nunca havia sido tão calorosa. Prova disso é que, a todo instante, locutores que faziam a apresentação do evento referiam-se a ele como "nosso vice-presidente". Mas logo se corrigiam: "O pré-candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin".

MST empreendedor

Denominada Coapar, a cooperativa inaugurada em Andradina é fruto de uma aposta empreendedora do MST. O processo é descrito como financiamento popular, em que investidores podem apoiar iniciativas tidas como progressistas na economia.

Com essa operação no mercado financeiro, a empresa conseguiu levantar em torno de R$ 3,5 milhões para a construção da fábrica. Outros R$ 7 milhões vieram de financiamentos obtidos com a Fundação Banco do Brasil e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), além e R$ 2 milhões em recursos próprios.

O embrião da fábrica, com capacidade para armazenar e pasteurizar até 90 mil litros de leite por dia, foi um grupo de cerca de 100 famílias que se mudou para Andradina nos anos 1980 para ocupar — ou invadir, dependendo do viés ideológico de quem conta o causo — a Fazenda Timboré.

Lourival Plácido de Paula, presidente da cooperativa de laticínios do MST em Andradina - Rodrigo Ferrari/UOL - Rodrigo Ferrari/UOL
Lourival Plácido de Paula, presidente da cooperativa de laticínios do MST em Andradina
Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

O presidente da cooperativa, Lourival Plácido de Paula, explica que a área foi escolhida pelo movimento porque estava na lista do primeiro Plano Nacional de Reforma Agrária, desenvolvido no governo José Sarney, na década de 1980. Ele tinha 17 anos quando ingressou no movimento. "Naquela época, o Brasil vivia uma crise econômica sem fim, com inflação, desemprego e forme. Estávamos desesperados, como hoje", diz. Foi assim que ele preferiu trocar a casa na periferia de Campinas, onde morava com seis irmãos e os pais, por uma tenda de acampado do MST.

Hoje, ele comanda uma empresa cooperativa com 1.084 associados. A agrônoma Ana Terra Reis, 40, foi uma das que ajudaram a formular o sistema que hoje é negociado no mercado financeiro. A ideia despertou reações negativas no meio da esquerda, mas ela defende o projeto. "Não se trata de uma rendição ao mercado. Estamos apenas nos apropriando de mecanismos do capitalismo para viabilizar nosso modelo de produção", afirma.

Geraldo Alckmin com integrantes do MST em Andradina (SP) - Rodrigo Ferrari/UOL - Rodrigo Ferrari/UOL
Geraldo Alckmin com integrantes do MST em Andradina (SP)
Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

Em defesa do chuchu

Alckmin, ao ser chamado para usar a palavra durante o evento, aproveitou para lançar mão de algumas expressões típicas dos coaches.

Ao saudar o MST, optou por destacar o associativismo da cooperativa, em vez do caráter político-ideológico do movimento social. Para isso, recorreu a Dom Hélder Câmara, ícone da Teologia da Libertação, que dizia que "sonhos sonhados juntos são o princípio de uma nova realidade" (a frase também já foi dita por Raul Seixas e Yoko Ono). E completou: "Um mais um é mais do que dois" — frase que evoca uma canção de Beto Guedes. Em determinado momento, Alckmin quase flertou com o pensamento de Karl Marx, ao observar que, no modelo de cooperativa, "o capital não explora o trabalho".

Sua fala foi rápida. Sem o mesmo traquejo do companheiro de chapa, Alckmin resolveu dar uma de Lula e arriscou um momento de autoironia: "Quero dizer aos produtores de chuchu que vocês não serão esquecidos!", levando a plateia aos risos.

Na ausência do ex-presidente, Alckmin virou a grande vedete do evento, que contou com a participação de deputados federais e estaduais do PT e também do pré-candidato a governador Fernando Haddad. O ex-prefeito da capital, que discursou antes, fez questão de exaltar seu "vice-presidenciável".

Ao defender a reforma agrária, porém, tanto ele quanto Alckmin evitaram falar de latifúndio, modelo que é criticado pelo MST. Enquanto o ex-governador passou ao largo do tema, Haddad preferiu se ater às propriedades improdutivas, deixando de lado questões como monocultura ou exportação de commodities.

Fernando Haddad discursa em Andradina (SP) - Rodrigo Ferrari/UOL - Rodrigo Ferrari/UOL
Fernando Haddad discursa em Andradina (SP)
Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

Sorrisos amarelos viram tietagem

No dia de São João, não foi apenas Haddad que se preocupou em preparar o caminho para Alckmin ser aplaudido. Os demais oradores, a todo instante, procuravam destacar "o compromisso democrático" do ex-tucano. Da primeira vez em que o vice de Lula foi anunciado, antes de chegar ao local do evento, a plateia tinha sorrisos amarelos.

Com habilidade, a locutora alegava que ele seria fundamental para uma eventual vitória do petista no primeiro turno. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (23) mostra o ex-presidente com 53% das intenções de votos, quando considerados apenas os válidos, percentual que permitiria a ele derrotar os adversários já em 2 de outubro.

A presença de Alckmin na chapa presidencial ainda causa algum desconforto no núcleo duro do eleitorado petista, mas a realidade já está assimilada. "É uma aliança de resultados", avalia o coordenador da CUT (Central Única dos Trabalhadores) de Presidente Prudente, Paulo Roberto Índio do Brasil, 66. Ele acredita que, em caso de vitória de Lula, o plano econômico do PT irá prevalecer nas políticas governamentais. Alckmin o apoiaria integralmente? "Ele foi do PSDB por muitos anos. Está impregnado daquelas ideias. É difícil alguém mudar", opina.

O professor de psicologia Blay Soares (camiseta azul-escuro e vermelha) e colegas da Apeoesp, em Andradina (SP) - Rodrigo Ferrari/UOL - Rodrigo Ferrari/UOL
O professor de psicologia Blay Soares (camiseta azul-escuro e vermelha) e colegas da Apeoesp, em Andradina (SP)
Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

Trajando camiseta da Apeoesp e acompanhado de uma caravana de Araçatuba, o professor de psicologia da rede estadual Blay Soares não poupa críticas a Alckmin. "Foi um dos piores governadores na área da educação", crava. Ao mesmo tempo, no entanto, entoa louvores à aliança com o antigo algoz. "Lula foi muito inteligente ao unir opostos", pondera.

O dirigente nacional do MST Gilmar Mauro admitiu, ao discursar, que o movimento havia "levado pau nas redes sociais", assim que a presença de Alckmin fora anunciada. Segundo ele, a possibilidade de derrotar Bolsonaro justificaria a união antes tida como insólita, em mais uma prova de que o desejo de ganhar — e no primeiro turno — tornou-se redenção para o vice de Lula.

Lourival Plácido de Paula, por sua vez, afirma que a relação de Alckmin com o MST, que já foi mais difícil, teria melhorado consideravelmente nos últimos tempos. "Era comum que ele nos recebesse no palácio. Inclusive, colaborou muito para que nossa fábrica pudesse sair do papel", diz.