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Suíça brasileira? Pobres encaram frio e caos em Campos do Jordão

Morando em casa com paredes de madeirite, o marceneiro Luís Moreira observa a Vila Santo Antônio, uma das favelas de Campos do Jordão (SP) Imagem: André Lucas/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Campos do Jordão (SP)

02/07/2022 04h01

Após ultrapassar o portal de entrada, o turista deve superar o encantamento com a arquitetura alpina tardia e olhar para o morro à sua esquerda. Atrás dos plátanos que perdem folhas amarelas está o morro do Britador. Do outro lado do desfiladeiro, a Vila Santo Antônio ocupa a serra inteira.

São duas das sete favelas de Campos do Jordão (SP), a cidade mais alta do Brasil (a sede está a 1.628 metros do nível do mar). Na autointitulada "Suíça brasileira", a temporada de inverno atrai anualmente milhares de visitantes para ouvir música clássica, comer fondue e deslizar em pistas de gelo. Mas no verão o deslizamento é outro: todo ano as chuvas causam vítimas nos bairros pobres que se instalam em suas encostas íngremes.

O ajudante geral Fernando Ferreira, 34, sobreviveu a um desmoronamento em janeiro último. Seus joelhos ainda doem. E a imagem da terra cobrindo seu corpo não sai da cabeça. "Na hora pensei: 'Vou morrer'. Minha sorte é que estava no meio de dois montes de entulho, e isso segurou um pouco a força do barranco", descreve. Fernando foi resgatado pelos próprios moradores.

Em 2000, as comunidades jordanenses viveram seu pior desastre: dez pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas quando três nacos da montanha escorregaram em um dia de temporal. Hoje, após um reflorestamento, trechos de mata marcam esses locais no meio das favelas, mas várias casas já foram construídas nas proximidades.

Muitas são feitas só de madeirite e revestidas por dentro com papelão para tentar brecar as temperaturas negativas, comuns nesta época do ano. Na Vila Santo Antônio, uma delas é a do marceneiro Luís Moreira, 55, que mora com a mãe. "Para esquentar à noite, só com o forno a lenha e embaixo de quatro cobertores", diz Moreira. Nos bairros ricos, a lareira é item básico nas residências.

Chalés e barracos

O telhado bem inclinado e a janela no primeiro andar com balcão de balaústres feitos de madeira são típicas dos chalés. Porém a parede sem reboco, a proximidade entre as casas e os escadões para subir o morro revelam que ali é um bairro operário.

A habitação alpina tem várias razões para estar também num bairro pobre. Muitos moradores dali são pedreiros e carpinteiros da parte rica e aprenderam a forma de construção. As sobras de material das mansões acabam sendo utilizadas nas favelas de lá. O formato triangular ajuda a absorver e reter o calor. Só a função de não reter neve não tem utilidade — a última a cair na cidade foi em 1966.

Chalés e barracos se misturam na Vila Santo Antônio, área de risco em Campos do Jordão Imagem: André Lucas/UOL

"É mais barato de erguer também porque é pura telha. Não precisa de tanta alvenaria", explica Luís Roberto Pereira, 68, que desde um ano de idade mora no Britador. Seu pai era tratorista da prefeitura e ganhou em 1955 um terreno perto da pedreira municipal. O bairro recebeu o nome de Britador porque de lá se extraía brita para calçadas e ruas da cidade.

Ele lembra ainda das pedras voando em direção às casas a cada detonação. "Um funcionário gritava 'o fogo está queimando' e, em poucos segundos, dinamitavam a montanha", conta. Há quatro décadas, a pedreira municipal foi fechada. O espaço foi logo invadido e o maquinário para quebrar as britas ainda vai enferrujando nas matas e quintais.

Drogas e araucárias

As trilhas nos outros morros servem para o ecoturismo, mas em áreas próximas às comunidades carentes os caminhos na mata muitas vezes são rotas de criminosos e policiais.

Outra peculiaridade do município montanhoso é a existência de uma "cracolândia" entre araucárias e pinheiros. Há locais de venda de drogas no meio do bosque subtropical de altitude, e espaços onde os usuários permanecem dia e noite em volta de uma fogueira. Lá eles recebem a droga de um "aviãozinho" do tráfico e, quando o dinheiro acaba, são resgatados por amigos e familiares.

Nesses locais, o movimento é grande atrás de entorpecentes. A maior parte é de jovens das regiões mais abastadas, mas também há um tipo inusitado de consumidor: os pacientes do sanatório vizinho, que conta com grade nas janelas e duas fileiras de muros. Muitos entram na favela machucados e sangrando após superar esses obstáculos para manter o vício.

A clínica concentra dependentes químicos, mas também portadores de tuberculose, que buscam no clima frio e seco uma ajuda para combater a doença — Campos de Jordão foi criada justamente para tratar as pessoas infectadas por essa bactéria na virada do século 19 para o século 20.

Avalanche de lixo

Lucimara e Edson Evaristo trabalham em uma lavanderia de hotel. Deixam tudo limpinho. Mas moram embaixo de uma escarpa que virou descarte de entulho e lixo de quem mora no alto do monte. "Tenho medo de desbarrancar tudo em cima das minhas crianças", afirma Edson. O casal tem quatro filhos, e a maior diversão deles é empinar pipa entre as ligações clandestinas de eletricidade.

Muitos barracos, contudo, não contam com energia, sem poder ligar uma lâmpada ou um aquecedor elétrico durante a noite gelada. A escuridão dali contrasta com o iluminado bairro de Capivari, o centro turístico da cidade. Lá, luzes de LED decoram árvores, fachadas e coberturas e servem de cenário para as selfies dos visitantes.

Com um de seus quatro filhos, Edson Evaristo empina pipa no alto do morro do Britador, comunidade pobre jordanense Imagem: André Lucas/UOL

"Minha rua nunca recebeu uma capa de piche, mas no centro o asfalto é um tapete. A prefeitura raspa e coloca outra camada toda hora. Já aqui vivo há 30 anos com esgoto a céu aberto", reclama Silvio Farias, 63, que veio do vizinho município de São Bento do Sapucaí para trabalhar na engarrafadora Minalba e foi também cozinheiro e jardineiro dos hotéis, até se aposentar.

Outra característica local é que várias favelas contam com bicas de água mineral, afinal, na região prosperam nascentes e rios subterrâneos. Mas no Britador, por ser uma área sem legalização, não se faz mais ligação de água encanada (só as anteriores de 2000 seguem funcionando), e os vizinhos precisam compartilhar o serviço em até cinco casas. "Nem compensa, mas é o jeito porque o consumo fica alto e a conta vem com a tarifa dobrada", conta Farias.

Após os deslizamentos de 2000, alguns moradores receberam apartamentos em um conjunto habitacional com fachada tirolesa e vista para a avenida principal, mas muitos não se adaptaram, venderam o imóvel e voltaram para a beira da pirambeira.

A Europa sem passaporte

A parte cenográfica de Campos do Jordão exibe urso polar de fibra de vidro, bar feito todo de gelo, sanduíches de queijo raclette e serviços para alugar casacos de pele e Porsches conversíveis. Um esquilo adorna um outdoor, mas quem aparece é um gambá, que se equilibra entre os postes da rua cheia de creperias e bistrôs.

O palco no parque Capivari já está pronto para receber o Festival de Inverno, maior e mais tradicional evento de música clássica da América Latina, que em 2022 terá sua 52ª edição. "A cidade tem toda essa fama, mas não tem um conservatório público para ensinar a população", se queixa Rogério Andrade, morador do Britador que é percussionista profissional e tem um grupo de samba. Seu tio Élcio toca violino e se apresenta nos bares e nas ruas tocando temas românticos, clássicos e populares.

Desde 2018, a prefeitura promete uma escola técnica de música, mas o projeto não saiu do papel. As únicas aulas acessíveis são na Fundação Lia Maria Aguiar, com cursos de artes mantidos pela herdeira do banco Bradesco, mas as vagas são limitadas.

"Aqui é muita fachada. Os bairros dos 'boys' têm de tudo, e aqui, nada. A prefeitura queria mais é derrubar o Britador para fazer mais uma avenida de entrada", desabafa Jorge Teodoro, liderança do bairro. Nos fins de semana, o fluxo dos viajantes congestiona todas as vias, até as que passam no meio da comunidade.

Cachorro aparece diante de barraco na favela Britador, em Campos do Jordão (SP) Imagem: André Lucas/UOL

Já os trabalhadores têm que voltar a pé, de bicicleta ou de moto para casa após o expediente para não ficar no ônibus engarrafado por mais de uma hora em uma cidade de 52 mil habitantes. "Antes a gente podia pegar o bonde elétrico, mas agora é só turístico. Não dá para pagar R$ 20 por uma viagem", afirma Teodoro, 44, que guarda a lembrança de ir pendurado no trenzinho em seus tempos de escola.

Não é só o transporte: o custo de vida como um todo acaba inflacionado pela população flutuante. Entre os moradores, quem dispõe de carro vai até os hipermercados de Taubaté, a 45 quilômetros de distância, para fazer as compras do mês.

Só não vêem essa realidade os bilionários que chegam e desaparecem pelos ares daquele cartão postal — alguns resorts possuem dois helipontos para evitar filas para quem não pode esperar para sobrevoar bem acima dos abismos nacionais.

A prefeitura de Campos de Jordão foi procurada pelo TAB, mas até o fechamento dessa edição não respondeu aos questionamentos da reportagem e às críticas dos moradores.

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