Sob Bolsonaro, Cultura destinou R$ 30 mi para bicentenário que já passou

Mais de um mês após o 7 de Setembro que marcou o bicentenário da Independência, a Secretaria do Audiovisual e a Ancine (Agência Nacional do Cinema) publicaram um edital que concederia R$ 30 milhões para produções audiovisuais brasileiras independentes, intitulado "Independência 200 anos - 2022".
Datado de 4 de novembro de 2022, quando as luzes do governo de Jair Bolsonaro (PL) já estavam se apagando, após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o documento abria inscrições para o financiamento de minisséries e telefilmes de ficção, animação ou documentário. Os órgãos receberiam projetos entre 8 de novembro e 23 de dezembro de 2022.
Após a transição, o TAB pediu informações sobre o andamento do edital via Lei de Acesso à Informação: o comitê julgador ainda não foi definido e os projetos inscritos não foram avaliados, "em virtude dos trâmites relativos à mudança de governo", informou a atual Secretaria do Audiovisual. "O lançamento do edital aconteceu posteriormente à celebração do bicentenário, portanto, ainda não houve produção ou lançamento das obras."
Editais relacionados a datas comemorativas costumam ser publicados bem antes — e não depois da efeméride, diz a advogada Cecília Rabêlo, 34, presidente do IBDCult (Instituto Brasileiro de Direitos Culturais). Não que haja obrigatoriedade legal, pondera. "Só fica meio esquisito e talvez pouco efetivo, já que perde o 'calor' do momento."
"O bicentenário da Independência deveria ser um projeto prioritário. Num governo normal, seria um grande evento. Mas o foco do 7 de Setembro [no governo Bolsonaro] era outro, a obsessão era mostrar força", conta Mauricio Noblat Waissman, 45, que foi secretário de Desenvolvimento Cultural entre agosto de 2020 e agosto de 2021. Segundo ele, a Secult (Secretaria Especial de Cultura) atuava apenas como "máquina de propaganda para o público interno deles".
"Eventualmente eles criavam na Secult um 'pseudoassunto', como esse edital do bicentenário. Mas nada do que eles anunciavam era realizável, era inércia total."
Passou 2021
Timing não foi o forte do antigo governo nas celebrações da efeméride. No Twitter, Josias Teófilo, diretor do documentário "O jardim das aflições", sobre o finado guru bolsonarista Olavo de Carvalho, cobrou, em julho de 2021: "Nada foi divulgado até agora, e não existe nem tempo hábil para lançar um edital. Bolsonaro foi eleito para combater o socialismo internacionalista. Aí vem o bicentenário da Independência, a data mais importante dos últimos anos para o Brasil, e eles não fazem nada?".
À frente da Secult, Mário Frias (PL) anunciou em agosto de 2021, após o fogo amigo, a abertura de uma linha de crédito de R$ 600 milhões para festejar o bicentenário: "Acabou a bagunça na Ancine", Frias declarou em uma live de Bolsonaro, mas não deu detalhes. Na página oficial do bicentenário, a secretaria anunciou um "edital comemorativo" de R$ 30 milhões para cerca de 20 projetos, julgados por servidores da Secult, da Ancine e por "profissionais do setor audiovisual de notório saber". "Lançamos um edital em comemoração aos 200 anos da Independência do Brasil, que selecionará projetos de obras audiovisuais brasileiras relacionadas ao tema", Frias disse, à época.
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