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Por que o documentário sobre uma apicultora é a grande surpresa do Oscar

Hatidze Muratova em cena de "Honeyland" (2019) - Reprodução
Hatidze Muratova em cena de "Honeyland" (2019) Imagem: Reprodução

Fernanda Ezabella

Colaboração para o TAB, de Los Angeles

05/02/2020 04h00

Pela imensidão das montanhas áridas do interior da Macedônia do Norte, uma mulher caminha solitária. De perto, observamos Hatidze Muratova na beira de um precipício, abrindo um esconderijo entre as pedras. Ela enfia as mãos desprotegidas numa colmeia, e a tela do cinema se enche de cor e som: o amarelo vibrante do mel e o zunzunzum assustador das abelhas.

"Metade para mim, metade para vocês", ela diz calmamente às abelhas, ao pegar dois favos e deixar outros dois. É um mantra repetido ao longo de "Honeyland" (terra do mel, em inglês), um documentário poético com estilo de filme de ficção, dirigido por Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska.

Não à toa, concorre em duas categorias do Oscar, documentário e filme estrangeiro, algo inédito na história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. No Festival de Sundance de 2019, recebeu três prêmios: documentário, fotografia e uma categoria especial, chamada "impacto por mudança".

Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, diretores de "Honeyland" (2019)  - IMDb/Divulgação
Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, diretores de "Honeyland" (2019)
Imagem: IMDb/Divulgação

A equipe de filmagem é invisível ao espectador, e os personagens não falam às câmeras. Sabemos pouco sobre a protagonista, uma apicultora solteira de 50 e poucos anos. Mora numa vila abandonada sem eletricidade, cuida da mãe doente e tem preferência pelas tintas de cabelo castanho, embora esteja sempre com um lenço verde na cabeça.

"Hatidze é uma pessoa única, extrovertida, que queria que sua mensagem fosse ouvida", disse ao TAB o codiretor Stefanov. "Quando viu o filme pronto, depois de cinco anos, ela chorou muito, ficou muito agradecida. Já fomos com ela para festivais em Sarajevo e Nova York, e agora ela vem para o Oscar. Está animada."

Ganância x equilíbrio

A trama é simples e poderosa. A vida idílica de Hatidze Muratova é interrompida com a chegada de novos vizinhos, uma família de nômades com sete crianças e 150 cabeças de gado. A princípio, a solidão é quebrada, e a apicultora finalmente encontra companhia para ouvir rádio ou dividir sua bebida caseira ao redor da fogueira. Mas tudo vira do avesso quando o patriarca decide entrar nos negócios do mel.

Desesperado para alimentar os filhos, ele começa a criar abelhas de forma mambembe, cai na tentação de um negociante sem escrúpulos e, maior pecado de todos, não escuta os conselhos da sábia vizinha. Estressadas e sem mel, as abelhas dele atacam as abelhas dela.

"É uma mensagem essencial de equilíbrio com a natureza: 'metade para mim e metade para você'. Acompanhamos um exemplo básico, num microcosmo, de como a ganância pode afetar uma cadeia inteira de sobrevivência", continuou Stefanov, de 45 anos, que faz sua estreia no formato de longa-metragem.

Cena de "Honeyland" (2019) - Reprodução/IMDb
Cena de "Honeyland" (2019)
Imagem: Reprodução/IMDb

A escolha pelo estilo de filmagem veio por conta dos desafios que eles enfrentaram. Embora Muratova fale macedônio, ela é descendente de turcos e conversava com a mãe e os vizinhos num dialeto que ninguém na equipe entendia.

Nos três anos de idas e vindas ao vilarejo, a dupla acumulou 400 horas de material. Traduzir tudo para o macedônio não era uma opção, então os diretores decidiram começar a montar o filme de uma maneira inusitada, explicou a codiretora Kotevska, de 26 anos, também em sua estreia em longas.

"Colocamos no mudo, esquecemos o som e fomos atrás das imagens para criar uma dramaturgia básica de um filme comum", explicou Kotevska. "Depois que traduzimos, trocamos algumas cenas para outras que tinham diálogos mais interessantes. Mas, no geral, mudamos apenas 10% da estrutura original."

Sem luz, mas com mel

O projeto começou como um curta-metragem sobre uma região no centro do país ao redor do rio Bregalnica, que pertencia aos turcos e passou para a Iugoslávia nos anos 1950. Sem nenhuma infraestrutura, muitas famílias abandonaram seus vilarejos, enquanto outras resolveram ficar, como a de Muratova.

Ao realizar suas pesquisas de campo, a dupla cruzou primeiro as colmeias, e logo apareceu a apicultora. Ela morava numa cabana apertada com sua mãe doente e eventualmente visitava a cidade grande, a capital Skopje, para vender seus jarros de mel por 10 euros.

"Começamos logo a filmar suas atividades e sua relação com a mãe. O plano e o dinheiro levantado eram para seis meses. Mas ficamos muito obcecados e conseguimos estender a produção", contou Stefanov. "Ficamos muito amigos de Hatidze, conversamos sobre tudo."

Como o vilarejo era de difícil acesso, sem estradas e eletricidade, a equipe de filmagens era enxuta, apenas quatro pessoas, e as estadias eram curtas, de apenas três ou quatro dias. E eles ficavam acampados em frente à cabana de Muratova.

Nos três anos e 100 dias de filmagens, apenas uma pessoa da equipe foi picada por uma abelha, ao contrário dos vizinhos caóticos, picados constantemente, em cenas um tanto cômicas.

"Se comemos seu mel? Claro, claro. Foi uma experiência 4D, de todos os sentidos", brincou Kotevska. O parceiro completou: "O gosto do mel é diferente, dependendo da estação. É uma região muito seca, as flores só duram duas semanas", disse.

Ajudar ou filmar?

Em suas visitas, a equipe levava para sua protagonista óleo de lamparina, farinha de pão e outros alimentos que não precisam de refrigeração, embora a ideia fosse não interferir em sua vida. "Num documentário assim, você precisa fazer uma escolha: vai ajudar ou vai fazer um filme?", disse o diretor.

"Tamara e eu tomamos a decisão de filmar, em conflito às vezes com o resto da equipe. Talvez seja egoísmo, mas foi o que fizemos."
Com o final das gravações, a amizade continuou. Com o dinheiro de um prêmio no Festival de Sarajevo, eles compraram uma casa para Muratova, que se mudou de vilarejo para morar perto de seu irmão. A equipe também criou uma campanha online para levantar fundos à comunidade, incluindo os vizinhos e suas crianças (que agora são oito).

No site do filme é possível fazer uma doação de no mínimo US$ 30 e ganhar um potinho de 30g de mel coletado pela própria Muratova e seus colegas na nova vila (sem entrega no Brasil).

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