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Religiosos que vivem enclausurados dão dicas para sobreviver à quarentena

Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, onde 31 monges vivem enclausurados  - Lidi Cutrim
Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, onde 31 monges vivem enclausurados Imagem: Lidi Cutrim

André Bernardo

Colaboração para o TAB

07/04/2020 04h00

Boa parte da quarentena estabelecida por conta do novo coronavírus coincidiu com o tempo da quaresma. Coincidência? Talvez. Mas, as duas palavras têm a mesma origem latina: "quarenta".

No primeiro caso, os quarenta dias recomendados pelos médicos para evitar a propagação de uma doença; no segundo, os quarenta dias em que Jesus, segundo relatos do Novo Testamento, teria passado no deserto, sendo tentado por satanás. Coincidência ou não, o fato é que até quem vive enclausurado em um mosteiro sentiu os efeitos da pandemia. Muitos abades - título conferido ao superior de um mosteiro - tiveram que tomar medidas drásticas, como suspender aulas, dispensar funcionários e fechar igrejas. Por recomendação das autoridades de saúde e eclesiástica, as missas estão sendo celebradas sem a presença dos fiéis.

O TAB ouviu três monges - dois católicos e um budista - e uma monja, perguntando a eles sobre o impacto da pandemia em suas vidas. E mais: que dicas eles dariam, acostumados que estão a viver em clausura, para quem está comendo o pão que o diabo amassou para cumprir o isolamento social.

O melhor lugar do mundo é a cela da clausura

Dom José Palmeiro Mendes, que vive no Mosteiro São Bento (RJ) - Arquivo pessoal
Dom José Palmeiro Mendes, que vive no Mosteiro São Bento (RJ)
Imagem: Arquivo pessoal

A vida no mosteiro de São Bento, no Centro do Rio (RJ), começa cedo. Muito cedo. Às quatro e meia da manhã, os 31 monges que residem no monastério, com idades entre 18 e 98 anos, já pularam da cama para mais um dia de silêncio, trabalho e oração - não por acaso, o lema da ordem é "Ora et labora" ("Reza e trabalha"). Sete vezes ao dia, os beneditinos se reúnem para rezar. Tanto na igreja quanto no refeitório, eles procuram observar o silêncio e, em tempos de covid-19, manter a distância uns dos outros. Dentro da clausura, deve reinar o mais absoluto silêncio, mas, após as refeições, há momentos de "recreio". As aulas do colégio, um dos mais tradicionais do Rio, exclusivamente para meninos, e da faculdade — que oferece cursos de Filosofia e Teologia — estão suspensas e, o mosteiro, fechado. "Estamos levando uma vida mais recolhida que o habitual. Procuramos não sair da clausura", admite o abade emérito do mosteiro, Dom José Palmeiro Mendes, um gaúcho de 78 anos de idade e 36 de sacerdócio.

A clausura a que ele se refere é a parte do mosteiro onde os monges passam a maior parte do tempo. Cada um deles tem sua própria cela - do latim "cella", que quer dizer: "célula". A mobília é humilde e se resume a uma cama, armário, uma ou duas cadeiras ou poltronas. Quase todos, exceto os noviços, têm computador. Alguns monges, como Dom José, têm muitos livros. Outros, poucos. Todas as celas têm um pequeno banheiro. "Em nossas celas, lemos, rezamos e trabalhamos. Eu, por exemplo, estou revisando a tradução de um livro, que deve ser lançado em breve", conta o abade.

Indagado se os que estão em casa, cumprindo o isolamento social, sairão mais humanos, solidários e fraternos da quarentena, ele esboça dúvida. "Não sei. Deveriam aproveitar a reclusão compulsória para estreitar os laços familiares e interagir mais uns com os outros. Estão fazendo isso?", pergunta. E conclui: "É hora de levar uma vida mais simples, deixar a avidez do lucro de lado e se dar conta de que estamos todos no mesmo barco".

Doenças da alma

Se você achou um exagero acordar às quatro e meia da manhã, é por que nunca ouviu falar dos monges da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO, na sigla em latim), uma das mais rigorosas da Igreja Católica. Mais conhecidos como "trapistas", eles conseguem serainda mais madrugadores do que os beneditinos. O relógio do mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo de Tenente, a 100 km de Curitiba (PR), nem bem marcou três horas da manhã e eles já estão de pé. "A última oração do dia termina às 19h30. Não há um horário fixo para o repouso, mas ninguém está dispensado de levantar às 2h40", avisa o prior do mosteiro, o padre Gabriel Vecchi, de 41 anos.

Antes do período da quarentena, os 25 monges se revezavam na fabricação de pães, bolos e biscoitos, que eram vendidos para a comunidade. Como a loja do mosteiro está fechada, a produção caiu bastante. Não é só isso. A hospedaria, aberta para visitantes, também fechou suas portas, temporariamente. Por medidas de precaução, espalharam frascos de álcool gel pelo mosteiro e substituíram as toalhas de algodão pelas de papel. "O conselho que dou, com toda a humildade, é: tentem tirar benefícios da situação presente. Todos nós trazemos na alma doenças mais graves que a covid-19. Rancor, inveja e vaidade também matam", sugere.

O padre Gabriel Vecchi, da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, no Paraná - Arquivo pessoal
O padre Gabriel Vecchi, da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, no Paraná
Imagem: Arquivo pessoal

Aos domingos, os "monges do silêncio", como são conhecidos, têm direito a uma tarde de lazer. Neste dia, tocam instrumentos, fazem artesanato, entre outros hobbies. Padre Gabriel gosta de ler clássicos da literatura, pratica caligrafia e se dedica ao estudo de idiomas ("Não gosto de revelar quantos falo, digo apenas que são alguns"...). Um dado curioso: os trapistas não leem jornais, nem ouvem rádio, muito menos veem televisão. Então, como se mantêm informados sobre a nova pandemia que assola o mundo? "Compete ao superior acessar as informações, via internet, e transmitir o que julga pertinente à comunidade. Ficamos sabendo apenas do essencial, sem excessos", diz.

A hora de ouvir o que Deus tem a dizer

Derivada do grego, a palavra "monastério" quer dizer "casa solitária". Ao contrário do que parece, essas "casas solitárias" não são habitadas apenas por monges. Há também os mosteiros femininos. Como o da Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra (SP), onde vivem 27 religiosas, entre monjas, noviças e postulantes. A primeira providência que elas tomaram ao saber do avanço do novo coronavírus foi dar férias a alguns dos funcionários. Arregaçaram as mangas dos hábitos e passaram a fazer, elas mesmas, os serviços que, antes, eram deles — como cozinha, lavanderia e pomar, entre outros.

Irmã Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, que vive no mosteiro Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra (SP) - Arquivo pessoal
Irmã Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, que vive no mosteiro Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra (SP)
Imagem: Arquivo pessoal

A exemplo de outros mosteiros, elas deixaram de receber fiéis nas missas e de acolher viajantes na hospedaria. A loja, que vendia artesanato e doces, entre outros produtos, também está fechada por tempo indeterminado. "Sem dúvida, sairemos melhores desta quarentena compulsória. A humanidade está fazendo algo que, há muito, não fazia: parar. É como se o próprio Deus estivesse gritando dos céus: 'Acalmem-se e saibam: Eu sou Deus!'", diz a abadessa do mosteiro, Irmã Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, de 60 anos, citando o versículo 11 do capítulo 45 do Livro dos Salmos.

Monja há 38 anos e abadessa há 22, Irmã Martha sugere, além de manter a calma e conversar mais com Deus, usar de criatividade no período de quarentena. Que tal aproveitar o confinamento para dividir as tarefas cotidianas, consertar algo quebrado ou fazer um curso pela internet? "Mesmo sem poder sair de casa, não descuide da aparência", aconselha. Adepta da jardinagem, Irmã Martha gosta de fazer trabalhos manuais, como poda, rega e limpeza. E não é só isso. Em suas horas livres, gosta de estudar música e exercitar seus dotes no órgão da igreja. "Também gosto de passear com nossos cães, um casal da raça pastor alemão, Darko e Layka, e a nossa vira-lata, a Mel. São ótimos companheiros!", brinca.

Não tenha medo de ter medo

Até pouco tempo atrás, os monges do mosteiro budista Suddhavãri, em São Lourenço (MG), saíam todos os dias, por volta das 10 da manhã, para recolher doações de alimentos. "Como fiz voto de pobreza, é meu dever pedir esmola. Por obrigação, vivo da comida que me dão", explica o abade do mosteiro, o monge Ajahn Mudito, de 42 anos, diretor espiritual da Sociedade Budista do Brasil. Desde que a pandemia impôs rígidas normas de isolamento social, Ajahn tem se alimentado com a comida que é feita na cozinha do mosteiro - em páli, um dialeto do sânscrito, Suddhavãri, o nome do lugar, significa "água pura".

Essa não foi a única mudança que sofreu a rotina do primeiro monge brasileiro da escola Theravada. Impossibilitado de viajar para fazer palestras, ele tem postado vídeos no YouTube. Em um deles, aconselha os internautas a não ter medo de ter medo. É uma emoção como outra qualquer, tranquiliza. O problema é quando o medo dá lugar ao pânico. "Só não vai sentir medo quem for xarope da cabeça. Neste caso, tem que mandar para o hospital. Não tá com medo? Ou você é doido ou é burro demais para entender o que está acontecendo", afirma.

Os monges do mosteiro budista Suddhavãri, em São Lourenço (MG) - Arquivo Pessoal
Os monges do mosteiro budista Suddhavãri, em São Lourenço (MG)
Imagem: Arquivo Pessoal

Com 18 anos de vida monástica, Ajahn tira a manhã para resolver tarefas administrativas, como trocar lâmpadas, fazer reparos e responder e-mails. Quando não tem nenhum afazer, pratica meditação, estuda religião ou faz traduções. Antes da chegada da pandemia, as meditações eram comunitárias. Hoje, cada um dos cinco residentes medita em sua própria cabana na floresta.

Em tempos de quarentena, Ajahn orienta as pessoas a colocar a leitura em dia. "Há bons livros na internet. Basta fazer download. Sugiro os russos. Li muito Tolstói antes de virar monge", recorda. Outra dica é "pacificar a mente". Como? Falando pouco, ouvindo muito e sendo gentil. "Quando estão estressadas, as pessoas só sabem agredir umas às outras. Vivemos a era do 'falar o que pensa, doa a quem doer'. Se todo mundo descarregar sua raiva uns nos outros, vai dar briga. Vamos tirar a gentileza do fundo do baú", sugere.