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Em meio à pandemia, rituais como Páscoa, aniversários e funerais já mudaram

Almerinda Martins, 84, comemorou seu aniversário com tudo do Palmeiras - Arquivo pessoal
Almerinda Martins, 84, comemorou seu aniversário com tudo do Palmeiras Imagem: Arquivo pessoal

Letícia Naísa

Do TAB

10/04/2020 04h00

No dia 27 de março, a imagem do papa Francisco rezando sozinho pelo fim da pandemia do novo coronavírus na praça São Pedro, no Vaticano, emocionou o mundo. O momento foi transmitido ao vivo pela internet. No próximo domingo (12), o pontífice celebrará a missa de Páscoa também sozinho — e os fiéis poderão acompanhar pelas telas. Este ano, a data religiosa será comemorada como nunca antes: com cada um na sua casa. Em tempos de pandemia, a forma como praticamos rituais e como as instituições mantêm as tradições está mudando.

"Além de sermos seres políticos e sociais, somos seres rituais", afirma Denise Moraes Pimenta, doutora em antropologia social. Pimenta acompanhou a epidemia do ebola em Serra Leoa anos atrás e observou como as tradições sofreram alterações, mas não deixaram de existir. "Em outros períodos, houveram epidemias, guerras, terremotos e os ritos não deixaram de acontecer. As pessoas se adaptam, porque se elas pararem de ritualizar, elas morrem", diz.

Uma das tradições que mais sofreu alterações e está gerando consequências terríveis para a população é a do velório. "Todas as religiões têm esse rito de passagem. Como a sociedade pode elaborar a morte sem ter um rito? O luto sem o ritual não existe", diz Pimenta. Como consequência, há o trauma. "Os ritos dão sentido à vida e geram esperança", diz a antropóloga. " Os de nascimento e morte são os mais importantes."

Hoje, em meio à crise provocada pela pandemia é que as pessoas estão percebendo a importância dessas tradições — até das mais cotidianas, como aniversários e, nesta época do ano, a Páscoa. "O futuro é sempre incerto, mas a gente tem uma ideia de que amanhã será uma sequência, há uma rotina. Agora, o futuro previsível nos parece imprevisível", diz Pimenta.

Este ano, segundo uma pesquisa da empresa de tecnologia Toluna, 63% das pessoas pretende mudar a forma como costuma comemora a Páscoa. Na casa de Filomena Gnazzo, 54, a festa no salão do prédio chegava a reunir até 50 familiares. Agora, será somente ela, sua filha e o neto mais novo. "Eu enfeito todo ano o hall de entrada do prédio, fazemos caça aos ovos para as crianças, então é muito chato ter que passar só e dividir a família", lamenta. "Vou preparar um almoço simples e fazer uma ligação por WhatsApp com quem puder."

"Há uma mudança clara em termos de distância física, mas de uma proximidade virtual nos novos tempos", avalia José Guilherme Cantor Magnani, antropólogo e professor da USP (Universidade de São Paulo). O telefone e a internet, para quem tem acesso, estão possibilitando a reinvenção dos núcleos familiares e reconstituição de vínculos que estavam perdidos ou distantes.

"Tenho observado como a criatividade em momentos de crise como esta se revela", diz Magnani. "Os rituais são mantidos, mas eles passam por uma criatividade muito grande. O que era uma tradição coletiva da família ampliada vai se transformar em um ritual de família restrita. O grupo que está em casa em isolamento vai fazer as tradições, elas se restringem a quem está junto. Essa é uma consequência direta da pandemia", explica.

Elma Bortolanza, 90, recebe a bênção do padre de sua igreja - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Elma Bortolanza, 90, recebe a bênção do padre de sua igreja durante missa realizada em fevereiro de 2020
Imagem: Arquivo pessoal

Assim será também na casa de Dirce Bortolanza, 67. A última grande reunião de família foi o aniversário de 90 anos de sua mãe, Elma, no início de fevereiro. A festa contou com os 10 filhos, 15 netos e 17 bisnetos. "Foi uma festa linda", conta a filha. "Esse momento está sendo muito difícil, ela ficou angustiada ouvindo as notícias e quis ligar para os filhos, os netos. Eles têm ligado bastante."

Apesar de acalentar o coração de dona Elma, para muitas pessoas mais velhas as ligações ou videochamadas não dizem muita coisa. "Os idosos talvez não morram de covid-19, mas podem ser muito afetados pela solidão", avalia Pimenta. "Em muitos lugares, cuidadores e psicólogos estão tentando adaptar e mostrar a família pela internet, mas, mesmo com acesso, a tecnologia não é algo que foi introduzido na vida deles, não é uma realidade."

Almerinda Martins, 84, também recebe ligações dos filhos várias vezes por dia. Mãe de 12, avó de oito e bisavó de três, costumava receber a família em casa com frequência. "Gosto da família reunida, nunca se espera uma situação dessa, mas faz parte da vida", diz. "Tem que saber que é bom pra quem a gente gosta e pra nós que, agora, o melhor é ficar longe", se consola.

Almerinda Martins, 84, teve festa surpresa em seu aniversário de 80 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Almerinda Martins, 84, teve festa surpresa em seu aniversário de 80 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Além da saudade dos parentes, ela sente falta do futebol na televisão. Palmeirense roxa e católica devota, faz simpatia em todo jogo para que seu time faça gol. Seu último aniversário teve decoração 100% verde e branca. "O Palmeiras tem uma história muito bonita, não tem quem possa colocar defeito", garante. Quando completou 80 anos, os netos organizaram uma festa surpresa e a foto com a família hoje está numa moldura do alviverde. "Tenho tudo do Palmeiras!", conta.

O próximo aniversário de Almerinda Martins será em junho. Com o futuro ainda incerto, ela não tem como saber se haverá possibilidade de reunião. Assim como a festa religiosa, as festas de aniversário desde o início da pandemia estão em suspenso.

A estudante Mariana Vasconcelos completou 18 anos na última terça-feira (7). Como qualquer jovem de sua geração, ela queria dar uma festa para comemorar a maioridade. Por causa da pandemia do novo coronavírus, a festa não aconteceu da forma como Mariana planejou. Pelo celular, ela reuniu as amigas depois do jantar e ficaram conversando. Fã de festivais de música, a estudante espera poder se juntar com os amigos para o Lollapalooza, que foi remarcado para dezembro.

Para Magnani, há duas possibilidades do que pode acontecer no momento pós-pandemia: "Quando as pessoas puderem se encontrar, pode haver grandes encontros, festas. Mas também é capaz de acontecer uma valorização dos encontros reduzidos, de as pessoas perceberem que vale a pena mantê-los."

Durante sua pesquisa sobre o ebola em Serra Leoa, Pimenta observou que, passada a epidemia, voltaram os casamentos, as festas, os rituais de puberdade, de nascimento e de morte. "Mas é notório que a postura corporal mudou. Desde 2014, as pessoas começaram a se cumprimentar com o cotovelo. Desde 2017, as pessoas não se tocam mais com tanta frequência", conta. "Acho que vamos voltar a nos abraçar e nos cumprimentar, mas, por um tempo, a gente ainda vai ter certos cuidados."