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Livro discute os best-sellers da 'Febre Ferrante' pelo olhar da psicanálise

Margherita Mazzucco e Gaia Girace em cena de A Amiga Genial - Divulgação/IMDb
Margherita Mazzucco e Gaia Girace em cena de A Amiga Genial Imagem: Divulgação/IMDb

Letícia Naísa

Do TAB

21/05/2020 04h00

A psicanalista Fabiane Secches estava folheando um livro qualquer, em uma livraria, quando tudo mudou. As páginas de "A Amiga Genial" a conquistaram em 2015, e sua autora, Elena Ferrante, virou seu objeto de pesquisa. Cinco anos depois da primeira leitura, Secches lança "Elena Ferrante: uma longa experiência de ausência", obra derivada de sua dissertação de mestrado, defendida no ano passado na USP (Universidade de São Paulo).

Elena Ferrante é pseudônimo de uma autora (ou autor?) que assina nove títulos traduzidos no Brasil. Seu novo livro, "A vida mentirosa dos adultos", será lançado ainda em 2020. "A Amiga Genial" é sua principal publicação: já foi traduzido em mais de 40 países e adaptado para a televisão e para o teatro. A curiosidade em torno da figura de Ferrante traz ainda mais sabor à obra.

Secches disseca todas as obras da autora sob o olhar da psicanálise. O texto passa longe do academiquês, e a pesquisadora nos mostra os paralelos entre Ferrante e Freud, além de influências de Clarice Lispector e Simone de Beauvoir no segundo romance de Ferrante, "Dias de Abandono". Curiosa, também, é a observação de Secches sobre a relação das mulheres de Ferrante com a paisagem onde se desenvolvem, Nápoles - em quase todos os casos, à sombra de vulcões e abalos sísmicos.

Muito além das capas suaves (e até cafonas) da tetralogia napolitana, Secches dedica um capítulo inteiro à série que é considerada a obra-prima de Ferrante. A história da amizade entre Lenu e Lila é responsável pelo fenômeno da "febre Ferrante", que também tem um capítulo à parte na análise de Secches.

Em entrevista ao TAB, a psicanalista reflete sobre a obra da escritora italiana que causa tanta comoção e fala sobre o processo de análise das publicações de Ferrante, além da importância da literatura em tempos de pandemia e quarentena.

Fabiane Secches, psicanalista e pesquisadora de literatura - Fábio Audi
Fabiane Secches, psicanalista e pesquisadora de literatura
Imagem: Fábio Audi

TAB: A palavra que dá título ao seu livro é ausência, e você fala sobre a escolha de Ferrante pela ausência - não pelo anonimato -, já que seus livros são assinados. Qual é a diferença, na prática, entre essas duas escolhas? Por que você acha que a autora escolheu "ausentar-se"?

Fabiane Secches: Ferrante faz uma distinção entre o anonimato e o uso de pseudônimo, no sentido de que se seus livros são assinados, têm uma identificação de autoria. É essa identificação que permite delimitar o conjunto de sua obra. A partir disso, é possível lê-los em contraste, comparativamente, pensando nas relações de aproximações e diferenças entre as obras, observando temas e procedimentos que se repetem. Mas sabemos que o nome que assina os livros não é equivalente ao nome do documento de identidade da autora; que, em alguma medida, esse nome também é uma criação literária. A discussão sobre autoria, fundamental na tetralogia napolitana (pois a narradora, Elena Greco, está sempre se questionando sobre o quanto da sua escrita é moldada pela escrita da amiga Lila), também se desdobra para fora da obra, de modo que extrapola os bastidores editoriais e enriquece o debate da crítica literária.

TAB: Como foi o processo de escrita do seu livro? Como você foi conectando os pontos-chave das histórias de Ferrante com a psicanálise?

FS: A escrita partiu da minha pesquisa de mestrado, focada na tetralogia de Ferrante. Também escrevi artigos e apresentei trabalhos sobre seus outros livros, então posso dizer que essa publicação foi se formando ao longo desse tempo. Em 2019, com a dissertação terminada e com apoio desses textos e de outras muitas anotações que fui fazendo, pensei numa composição que pudesse uni-los. Assim, chegamos à estrutura atual. Uso o plural aqui, porque o trabalho de organização do conteúdo foi feito em conjunto com Tainã Bispo, editora da Claraboia, responsável pela publicação do livro.

Capa do livro "Elena Ferrante: Uma longa experiência de ausência", de Fabiane Secches - Divulgação
Capa do livro "Elena Ferrante: Uma longa experiência de ausência", de Fabiane Secches
Imagem: Divulgação

TAB: De que forma a academia encara o estudo de obras tão populares?

FS: Existe uma certa má vontade com best-sellers, mas devo dizer que compreendo o dilema: se a universidade se pautasse pelo termômetro editorial, estaria seguindo a lógica do mercado, e isso não pode acontecer. Num mundo ideal, a universidade deve se opor a essa lógica, resistir a ela. Ainda assim, algumas vezes, acontece de termos uma obra que mereça uma sondagem mais analítica e também ser um livro muito lido, um filme muito visto, uma obra muito comentada. A história da literatura tem alguns exemplos importantes. Na minha opinião, Ferrante está entre eles.

TAB: Como você aponta no livro, há uma repetição de temas nos livros de Ferrante e até de cenários, como Nápoles. Você acha que a autora desenvolveu uma fórmula?

FS: Não sei se diria que é uma fórmula, porque essa palavra costuma ter uma acepção negativa e pode dar a impressão de ser uma receita de bolo - ou um produto meramente comercial. Mas concordo que há um universo bastante delimitado, bastante autoral. Há elementos particulares que nos ajudam a identificar: estamos aqui. A partir disso, é possível estabelecer relações entre as obras, tanto de afinidades quanto de diferenças. Se essas relações são feitas com o objetivo de iluminar as leituras, acho que são muito bem-vindas e podem enriquecer a discussão. Agora, se há apenas apontamento das repetições sem uma análise crítica, me parece, ao contrário, uma limitação. Quanto às temáticas que você menciona, me parecem questões inescapáveis para qualquer pessoa que se disponha a escrever sobre a experiência de ser mulher nesse mundo. É o que fizeram Gustave Flaubert, Leon Tolstói, Jane Austen e Toni Morrison, por exemplo. Cada qual à sua maneira.

TAB: Como interpreta a classificação "literatura feminina"? É um conceito que poderia se aplicar à obra de Ferrante?

FS: Por trás dessa lógica, há uma ideia arraigada de que as histórias escritas por homens, com personagens masculinos, têm algo de universal, enquanto as histórias escritas por mulheres, com personagens mulheres, poderiam interessar apenas a um certo grupo de pessoas, como uma literatura de nicho. Se você entrar numa livraria ou numa biblioteca, não vai encontrar uma seção com o título "literatura masculina". Sabemos que o mercado editorial reproduz disparidades do mundo: a maior parte das obras publicadas ainda é escrita por homens. Por isso, a meu ver, o esforço de destacar as obras escritas por mulheres, assim como obras escritas por outras minorias políticas, é importante. Mas como fazer isso sem reforçar estereótipos? Esse é um debate delicado, mas que precisa e merece ter mais e mais espaço.

TAB: Você dedica um capítulo à "Febre Ferrante", com comentários de escritores, críticos e leitores da escritora. Provavelmente, desde a febre em torno de Harry Potter, um livro infantil de fantasia, não se via tamanha comoção com uma obra literária. Por que algumas obras literárias causam tanta comoção?

FS: Há algo de misterioso em todo fenômeno de comoção coletiva. A gente vai sondando possibilidades, mas a verdade é que não sabemos. Entre minhas hipóteses, está a de que a habilidade de Ferrante como contadora de histórias tem um papel fundamental na recepção da obra. A autora constrói personagens vívidas e enredos riquíssimos de acontecimentos, recorrendo a recursos folhetinescos, melodramáticos, a todos os recursos de que dispõe e que servem àquela história, para escrevê-la e capturar quem lê. Como faz isso com qualidade literária, acaba chegando a grupos diferentes de leitores, e os mobiliza por razões também diferentes. E, claro, não podemos negar que o tal mistério em torno de sua identidade contribui para que a mídia se interesse ainda mais pelo tema.

TAB: Você vê mudanças significativas nas adaptações para as telas, como a série da HBO e os filmes das primeiras obras, e para a peça de teatro?

FS: É interessante pensar que praticamente todas as obras de Ferrante tenham ganhado ou estejam ganhando adaptações para outros formatos. São duas séries de televisão ("My brilliant friend", na HBO, e "A vida mentirosa dos adultos", anunciada pela Netflix), três filmes ("Um amor incômodo", "Dias de abandono" e, ainda em produção, "A Filha Perdida") e ao menos duas montagens no teatro, uma na Inglaterra e outra na Itália. Acho que esse é um dos elementos que fortalecem a hipótese de que a obra de Ferrante é, de fato, um fenômeno de recepção que ultrapassa os marcadores usuais do mercado editorial (número de exemplares vendidos ou número de idiomas para os quais uma obra é traduzida) ou da crítica literária (repercussão nos principais veículos especializados, indicação a prêmios prestigiosos), dialogando com algo mais raro: uma infiltração na cultura que poucas vezes observamos acontecer com obras contemporâneas. No caso da peça de teatro italiana - que assisti quando foi encenada em São Paulo -, há uma leitura mais poética da obra do que a que vemos na série, que tem um tratamento mais realista. Essas variações acontecem e devem acontecer. São obras autônomas, recriadas por seus autores, que têm na obra de Ferrante apenas um ponto de partida, e não um ponto de chegada. Algumas acertam mais do que outras, mas devem ser avaliadas caso a caso.

TAB: Como podemos relacionar a obra de Ferrante com a pandemia?

FS: Acho que a melhor relação a estabelecer é como companhia. Nesse momento de distanciamento social, a leitura pode ter um papel ainda mais importante. A obra de Ferrante tensiona muitas questões relevantes do nosso tempo, como a corrupção sistêmica e as diversas formas de violência e de desamparo perpetradas pela nossa cultura - principalmente nos quatro livros da "tetralogia napolitana" -, então acredito que lê-la é uma experiência enriquecedora, que, com sorte, pode nos tornar mais sabidos e mais sensíveis às nossas questões e às questões do mundo. De maneira geral, os livros, não apenas os dela, são bons amigos e se tornam companhias ainda mais valiosas em tempos tão difíceis.