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'Só números não são suficientes para explicar pandemias', diz especialista

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Ljubljana (Eslovênia)

01/07/2020 04h00

Entre as equações e fórmulas complexas de seu trabalho — intensificado por conta da pandemia de Covid-19 — e as brincadeiras com seus filhos pequenos durante o rigoroso confinamento decretado pela Eslovênia para conter a doença, o matemático português João Pita Costa, de 40 anos, pensava no tal "novo normal" e na vida que viria depois do lockdown. Sua preocupação, então, não estava nos números, tampouco em sua profissão. "É preciso lembrar as pessoas que a cultura não morreu com o vírus. E isso talvez seja a parte mais importante: percebermos que esse novo mundo que estamos a entrar não necessariamente precisa ser um mundo sem cultura, nem um mundo sem socialização", diz.

Pesquisador no projeto IRCAI (International Research Centre on Artificial Intelligence), mantido pelo Instituto Jozef Stefan, o maior centro de pesquisas da Eslovênia, Costa viu seu foco de trabalho mudar completamente em 11 de março, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia de novo coronavírus. O IRCAI é o primeiro centro de estudos de inteligência artificial chancelado pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

Envolvido há 15 anos em projetos que mensuram o impacto de gripes em países europeus, integrando as equipes de trabalho da plataforma portuguesa Gripenet.pt e da rede europeia Influenzanet, Costa conta ao TAB de que forma a matemática e os dados podem (ou não) nortear novas saídas para a crise.

TAB: Com a pandemia, qual passou a ser o foco do trabalho de vocês?

João Pita Costa: O IRCAI foi o primeiro centro de pesquisas ligado à inteligência artificial no mundo e, surpreendentemente ou não, está na Eslovênia. Então, o que fizemos foi desenvolver o portal Coronavirus Watch, que segue ativo. Uma das diferenças em relação a todos os outros portais do tipo é o fato de o nosso disponibilizar acesso às notícias acerca da pandemia, tanto globalmente quanto por país, também oferecendo vários modos de visualização para se tentar perceber melhor o que está acontecendo com a doença. Ainda fizemos um projeto de saúde pública, também disponível, que possibilita a exploração da ciência que está publicada acerca de todas as doenças, segundo a base de dados PubMed — que todos os médicos conhecem e usam para encontrar as informações que precisam. É uma base com mais de 25 milhões de artigos biomédicos desde 1940, uma fonte de informação muito importante. Sobre os metadados, construímos uma tecnologia para perceber os aspectos específicos da doença, que depois ajuda a medicina a encontrá-los mais facilmente.

TAB: Como sua experiência na Influenzanet acabou sendo útil a esse projeto?

JPC: Na Universidade de Ljubljana, comecei a trabalhar como pesquisador no Instituto Jozef Stefan, o maior instituto de ciência da Eslovênia. É um legado deixado pela ex-Iugoslávia, porque já era um dos maiores institutos daquele país. Nele, comecei a trabalhar em áreas ligadas à ciência da computação e, em particular, inteligência artificial, além de análise de dados. Nesses trabalhos, a matemática é fundamental. Ao longo do tempo, muita coisa se pareceu com a Influenzanet: ela convida voluntários online, quaisquer pessoas, que subscrevem a um questionário de sintomas para identificar na população a incidência de doenças que são parecidas com a gripe. Isso, de alguma forma, poderia indicar quão forte é a gripe no país em que se está.

Comecei a trabalhar no projeto ainda quando estava no mestrado. Não é só colher os dados, mas tentar perceber o tipo de insights e a informação específica que se pode encontrar através da análise de dados avançados e de inteligência artificial. O propósito da Influenzanet partia do fato de que poderia aparecer uma gripe que nós não conseguiríamos controlar, tal como já ocorreu várias vezes na Europa. E os hospitais ficariam cheios, não haveria possibilidade de controle dos meios oficiais e tudo iria estar bloqueado. Não imaginávamos que iríamos viver um exemplo tão forte.

João Pita Costa em home office com os filhos durante a pandemia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
João Pita Costa em home office com os filhos durante a pandemia
Imagem: Arquivo Pessoal

TAB: O novo coronavírus também mudou a Influenzanet?

JPC: O projeto está numa fase de mudanças e agora vai se dedicar, em boa parte, a tentar perceber, também por meio de voluntários via internet, qual a dimensão da doença e sua extensão. Dias atrás, participei de uma candidatura de um projeto muito grande nesse sentido e esse vai ser o ponto fundamental.

TAB: As regras foram bem rígidas na Eslovênia, com praticamente tudo fechado e até a impossibilidade de se deslocar para cidades que não fossem a da sua residência. Como foi enfrentar esse período em Ljubljana?

JPC: Há muita possibilidade de se ir para a natureza e de estar ao ar livre sem cruzar com muita gente na Eslovênia. Além disso, os eslovenos têm muito mais apreço a estar na natureza do que no shopping center. Por outro lado, tudo o que é contato social — concertos, teatros, cinema, socialização, não só nos cafés, mas também fora — foi afetado e ainda será muito afetado. Ainda hoje, se sente bastante e penso que se vai sentir bastante esse efeito do lockdown.

TAB: Isso o preocupa?

JPC: Talvez aí seja a minha maior preocupação. O estranho conforto com essa situação toda que impossibilita o fator social, a oportunidade de nos encontrarmos na rua e darmos abraços. Trocamos isso muito facilmente pela Netflix e pelo YouTube e estamos mais ou menos confortáveis. Vão acontecer coisas difíceis e vai ser difícil, na minha opinião, trazer algumas pessoas de volta do lockdown, porque há demasiadas pessoas que ficaram confortáveis em casa.

TAB: E a situação do Brasil, você tem acompanhado?

JPC: Sei que o presidente demitiu ministros, mas conheço a situação mais por ver Porta dos Fundos [programa de humor veiculado pelo YouTube], que satiriza o que está a acontecer no Brasil. [O problema é que] quando se ignora a epidemia, vai rápido atingir o pico [dos casos], depois é tarde demais. É o que acontece no Brasil e na Suécia também.

TAB: São muitos os mortos, diariamente, e ainda há as sub-notificações?

JPC: Há pouca gente a falar das comorbidades [como fator de risco]. O que quero dizer é que se morre de outras doenças em conjunto com o coronavírus. Portanto, a Covid-19, mais do que matar, ajuda a morrer mais. Também me preocupo muito com o impacto [da Covid-19] sobre a saúde mental das pessoas. Estou a escrever um artigo científico acerca disso.

TAB: Como a matemática pode ajudar a vencer uma epidemia?

JPC: A matemática é importante, sempre é importante, especialmente em uma pandemia. Mas para responder, gostaria de relembrar que quando conheci o Gripe.net, deparei-me com o trabalho de um grupo multidisciplinar, com físicos teóricos, pessoas que trabalhavam mesmo na área de matemática para epidemias especificamente, biólogos, programadores e até profissionais ligados às ciências sociais para promover campanhas de conscientização pública.

A matemática, portanto, é parte integrante disso, desse conjunto. Não digo que seja o coração, mas é uma parte importante, porque a complexidade do desenvolvimento de uma epidemia é muito grande. Embora as fórmulas pareçam simples, para tentar com maior exatidão possível perceber como prever níveis de mortalidade, níveis de infecção ou de mobilidade, é preciso pensar muito bem em probabilidades de acontecer infecção e integrar todos os dados que conhecemos de pessoas transportadas, a probabilidade de elas se encontrarem e passarem o vírus. E a única forma, claro, de tentar fazer uma contabilização que sirva de base para algumas decisões é por meio da matemática.

TAB: Os tais modelos matemáticos?

JPC: Os modelos matemáticos sempre estiveram aí, por todo lado, mas só que, até agora, não se falava muito deles, porque não era preciso. Mas modelos matemáticos, uma função matemática, permitem termos ideia de previsão do que vai acontecer para tentar antecipar o comportamento de alguma coisa — neste caso, da epidemia.

TAB: Mais do que nunca se tem falado sobre modelos matemáticos. Não há um fetiche exagerado por eles, em sua opinião?

JPC: O modelo não é tudo. Os matemáticos por si só — eu incluído — podem ter dados diferentes nesses modelos, podem cruzar inteligência artificial, coisas mais avançadas... Mas o que pode acontecer no final é terem resultados que não compreendem o contexto, por exemplo.

Neste caso, a saúde pública. Por isso é preciso ter alguém com expertise, com conhecimentos específicos de saúde para perceber e tentar analisar com eles [os matemáticos] os resultados. Isso é fundamental. Por isso que uma equipe apenas de pessoas de matemática e ciências da computação não pode tentar resolver um problema desses, digo eu. Eles podem ter resultados certos, mas não saberem interpretá-los, não sabem o que fazer com eles.