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Polêmica de youtubers revela racismo, ganância e manipulação na plataforma

Os youtubers James Charles e Tati Westbrook - Reprodução/ Youtube
Os youtubers James Charles e Tati Westbrook Imagem: Reprodução/ Youtube

Isabela Moreira

Colaboração para o TAB

30/07/2020 04h00

O assassinato de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por policiais no dia 25 de maio deste ano nos Estados Unidos, causou uma onda de protestos contra o racismo e a brutalidade policial ao redor do mundo. A luta antirracista também tem acontecido em outras escalas: consumidores estão questionando a falta de representatividade de marcas e cobrado posicionamentos de seus artistas e influenciadores favoritos.

O youtuber americano Shane Dawson, de 32 anos, foi um deles. Com quase 22 de milhões de inscritos, ele ficou conhecido ao longo dos últimos anos por fazer séries documentais sobre influenciadores polêmicos, numa tentativa de humanizar e redimir essas figuras para o público.

Mas Dawson coleciona controvérsias próprias. Ele começou a carreira no Youtube fazendo esquetes de comédia, se tornando tão popular que chegou a lançar um livro e um filme. Um de seus personagens mais famosos é Shanaynay, sua versão de uma mulher negra barraqueira, por meio da qual reproduzia diversos estereótipos racistas. Esses vídeos, bem como outros em que fazia piadas com pedofilia e fingia se masturbar com um pôster de Willow Smith, a filha então pré-adolescente de Will Smith, estavam no ar até junho deste ano — o que significa que o youtuber ainda ganhava dinheiro com eles. Camisetas da personagem Shanaynay também estavam disponíveis para compra em sua loja virtual.

A partir da repercussão negativa em torno desses conteúdos, o Youtube suspendeu a monetização dos canais de Dawson, afirmando que os vídeos "violam as diretrizes de comunidade" da plataforma. Na mesma semana, o youtuber publicou um vídeo se desculpando. "Eu já era um adulto quando comecei a publicar vídeos no Youtube e decidi propagar estereótipos de pessoas negras, asiáticas e mexicanas. Odeio a pessoa que fui, cheio de raiva e tristeza", diz ele. "Fiz muitos vídeos com black face e não tem nenhuma justificativa pra isso. Nem sei como pedir desculpas, parece algo imperdoável."

Com mais de 15 milhões de visualizações, seu vídeo mais recente de desculpas dividiu opiniões. Muitos dos comentários não dão bola para o conteúdo, preferindo focar em outras questões do momento, como a prisão dos policiais que assassinaram Breonna Taylor, uma jovem negra de 26 anos, dentro de sua própria casa em Louisville, nos Estados Unidos.

Dramageddon

O vídeo de desculpas de Shane Dawson que viralizou na internet recentemente não foi o único conteúdo a esse respeito. No início de julho, ele e outro youtuber americano, Jeffree Star, foram acusados de orquestrar um escândalo que quase acabou com a carreira de dos influencers Tati Westbrook e James Charles.

Em maio de 2019, Westbrook, então com 37 anos, publicou um vídeo em que, entre outras coisas, dava a entender que Charles, na época com 19 anos de idade, teve relações não consensuais com garotos menores de idade. Conhecida por fazer resenhas de produtos de maquiagem, a influenciadora se baseou em rumores sobre os supostos abusos cometidos por Charles para trazer o assunto a público.

A internet foi rápida em abraçar a versão de Westbrook da história. O vídeo da youtuber foi assistido mais de 50 milhões de vezes antes de ser tirado do ar e foi parar nos noticiários de grandes jornais americanos, como o The New York Times e o Washington Post. James Charles, que estava prestes a se tornar o youtuber de beleza mais seguido da plataforma, perdeu milhões de inscritos em poucos dias e foi atacado em massa nas redes sociais. Na linguagem da internet, ele foi "cancelado".

Mas toda história tem dois lados: cerca de uma semana depois de o vídeo de Tati Westbrook ir ao ar, foi a vez de James Charles usar a plataforma para se defender. "A última semana foi uma das mais difíceis da minha vida, e minha mente foi para um lugar muito obscuro", afirma. Ao longo de 40 minutos, o jovem expõe as questões que estava enfrentando em sua relação com Westbrook e mostra prints de conversas, vídeos e fotos que provam que os relacionamentos que já teve foram consensuais e com pessoas da idade dele.

Charles questionou ainda o envolvimento de outra figura famosa do meio no escândalo: Jeffree Star. Trata-se de um influenciador de 34 anos que, na época, disputava com Charles o título de youtuber de beleza com mais inscritos na plataforma. Até então, os dois davam a entender que eram amigos próximos, publicavam fotos e gravavam vídeos juntos — um deles, inclusive, mostra a dupla testando seus conhecimentos de maquiagem com Tati Westbrook.

Charles e Star ganharam destaque na comunidade de beleza do Youtube por serem talentosos com maquiagem e romperem estereótipos de gênero. James Charles começou sua carreira compartilhando looks elaborados nas redes sociais, o que lhe rendeu um contrato com uma das principais marcas de maquiagem dos Estados Unidos, a Cover Girl. Já Jeffree Star surgiu na mídia em torno de 2008, com a premissa de ser "a próxima Lady Gaga". Como a ideia não vingou, ele trocou a carreira musical pela de influenciador de beleza, fazendo vídeos no Youtube e lançando sua própria marca, a Jeffree Star Cosmetics.

Quando o vídeo de Tati Westbrook ganhou tração, Jeffree Star, que já se envolveu em outras polêmicas de Youtube no passado, afirmou que James Charles era um "predador" e "um perigo para a sociedade". Em suas redes, Star disse ter um áudio de uma das supostas vítimas de Charles e conhecer outras que viriam à tona. Mas isso não aconteceu.

Nos bastidores

Enquanto os internautas prestavam atenção no conflito entre Westbrook e Charles, Jeffree Star gravava uma série documental com Shane Dawson. A ideia, segundo a dupla, era mostrar a sujeira que acontecia nos bastidores da indústria de beleza. O trailer de "The beautiful world of Jeffree Star" (O lindo mundo de Jeffree Star, em tradução livre) mostra momentos dramáticos entre Star e Dawson, incluindo cenas dos dois reagindo aos vídeos de Westbrook e Charles.

Esses trechos criaram uma expectativa enorme em torno da série, pois deram a entender que revelaria um lado da polêmica que o público ainda não tinha visto. O programa, no entanto, não mostrou nada disso, optando por focar na produção de uma linha de maquiagem de Shane Dawson pela Jeffree Star Cosmetics. Lançada em outubro de 2019, a coleção esgotou e rendeu dezenas de milhares de dólares tanto para Dawson quanto para Star.

Parte 2

De volta à junho de 2020. Jeffree Star entrou para a lista de influenciadores questionados por seu comportamento problemático: em conteúdos antigos, ele é racista, agressivo e chega a chamar uma youtuber negra de "gorila". Um ex-colega de Star, que trabalhou em campanhas publicitárias para sua empresas, relatou ter sofrido várias micro agressões da parte dele por ser negro. E, assim como outros influenciadores, disse suspeitar que Star, junto com Shane Dawson, arquitetou a queda de James Charles em 2019.

A suspeita foi endossada por Tati Westbrook. A youtuber publicou um vídeo pedindo desculpas a James Charles por ter feito acusações em público sem ouvir todos os lados. "Sou uma mulher adulta, mas estava vulnerável e me permiti ser usada por Shane, Jeffree e outros", alega. "Acreditar naquelas mentiras e me deixar ser manipulada a ponto de fazer aquele vídeo é um dos grandes arrependimentos da minha vida."

Segundo Westbrook, Shane Dawson e Jeffree Star a teriam usado para tentar criar um arco dramático para sua websérie e para eliminar seu principal concorrente, James Charles. Ela conta que, no fim de 2019, Charles iria lançar uma coleção de cosméticos, coincidindo com a chegada da de Dawson e Star ao mercado. O escândalo, porém, fez o lançamento de Charles ser cancelado.

Shane Dawson chamou a influenciadora de mentirosa e se recolheu. O cerco fechou para Jeffree Star, com seus seguidores e outros youtubers reforçando a necessidade de ele se responsabilizar por seu racismo e envolvimento em tantas polêmicas.

A pressão chegou a gerar alguns resultados. A marca Morphe, uma das principais parceiras da Jeffree Star Cosmetics, por exemplo, anunciou que não vai mais trabalhar com o influenciador e que repensará o futuro da empresa. Mas se Jeffree Star mudará ou se o público em geral vai deixar de apoiá-lo continua sendo uma incógnita.

Star continua tendo 17,5 milhões de seguidores no Youtube e uma empresa milionária. Quebrou seu silêncio sobre tudo que vem acontecendo só depois de algumas semanas. Sentado em um dos sofás de uma mansão que comprou por US$ 14 milhões, o influenciador gravou um vídeo pedindo desculpas a James Charles e falando de sua própria integridade. Não chega a reconhecer o peso de sua participação em polêmicas ou como propagou ódio e racismo ao longo dos anos. Termina o discurso agradecendo as críticas e pedindo que as pessoas chamem sua atenção se acharem necessário — porém deixou os comentários do vídeo fechados. E acrescenta que em breve anunciará novidades: o lançamento de mais produtos da Jeffree Star Cosmetics.