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Quem foram os Bosozoku, tribos rebeldes de motoqueiros 'vida loka' do Japão

Cena do filme "High & Low"  - Reprodução/ Netflix
Cena do filme "High & Low" Imagem: Reprodução/ Netflix

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

02/10/2020 04h00

Um território historicamente dominado pelos Mugen e reivindicado pela família Amamiya transformou-se na área "S.W.O.R.D.", disputada por outros cinco clãs: S de Sannoh Rengokai, W de White Rascals, O de Oya Kou, R de Rude Boys e D de Daruma Ikka. Fosse essa a simples sinopse, a história lembraria sagas estilo "Game of Thrones".

Acrescente-se um toque "Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio" e o imaginário de gangues juvenis japonesas sobre duas rodas: eis a fórmula de "High&Low", que entrou no catálogo da Netflix japonesa no fim de setembro. Iniciada em 2015, a franquia, que inclui filmes, livros, mangá, série e spin-off, é um fenômeno deste lado do mundo -- a estreia de "High&Low O Filme" (2016), por exemplo, mobilizou especiais em 143 cinemas em todas as 47 províncias japonesas.

"Bosozoku" é uma das palavras que pairam na atmosfera do universo "High&Low". O termo, que pode ser traduzido como "tribo de direção perigosa", é uma subcultura de gangues de jovens japoneses, famosas nas décadas de 1980 e 1990 por pilotarem scooters e motos modificadas imprudentemente — ou, como bem definiu o influenciador brasileiro Sky Yabai, os "vida loka" do Japão.

Bosozoku eram adolescentes e jovens (entre 16 e 19 anos), que dirigiam motocicletas estilizadas em bando, com escapamentos barulhentos e antigos símbolos imperiais japoneses, em alta velocidade ou ziguezagueando, a fim de provocar badernas nas estradas -- e que, na disputa por territórios, portavam armas como facas, tacos de beisebol ou tubos de metal para brigas.

A volta do estilo "boso" é interessante na ficção pois, na realidade, o fenômeno vem desaparecendo desde a década de 2000, tornando-se um tipo de lenda urbana no Japão. Em 1982, ano-auge da popularidade dos Bosozoku, estimava-se pelo menos 42,5 mil membros de gangues de motociclistas no Japão; em 2018, segundo relatório da Agência Nacional de Polícia do Japão, 146 grupos ainda estavam ativos, totalizando 6.286 membros -- 49,4% deles eram jovens de até 20 anos. Ao longo de 2018, o país registrou cerca de 28 mil reclamações referentes a gangues de motociclistas.

Tribos rebeldes

Na década de 1950, surgiram as primeiras gangues de jovens motoqueiros no Japão. Eles se definiam como "otokichi" (auto bike mania), mas a imprensa os rotulou como "kaminari-zoku" (tribo dos trovões), devido ao som estrondoso dos escapamentos, como conta o antropólogo Ikuya Sato no livro "Kamikaze Biker" (The University of Chicago Press, 1991). Nos primeiros tempos, as transgressões dos motoqueiros se limitavam a infrações das leis de trânsito.

A partir da década de 1960, as motos se popularizam no arquipélago, assim como as gangues, atraindo jovens de diferentes segmentos da sociedade. Elas passaram a ser referidas como "circuit-zoku", "mach-zoku" e "thrill-zoku", que já se engalfinhavam em confusões e incidentes, destruindo carros e construções. Em 1972, lembra Sato no livro, 1.104 jovens motoqueiros foram presos por provocar baderna na estação de trem de Toyama. Após o incidente, batizado de "Toyama Jiken", a imprensa japonesa cunhou a expressão "bosozoku".

Em 1973, estimava-se 12,5 mil membros de gangues; em 1981, o número saltou para 40,6 mil. Às "simples" infrações iniciais se somaram ações mais violentas. Foram incorporados símbolos como o selo do crisântemo imperial e o sol nascente, que remete aos tempos imperiais do Japão, que ocupou a Coreia e a China.

Segundo Sato, os adolescentes das gangues buscavam um certo estilo de vida transgressor, uma juventude transviada que queria se divertir infringindo regras. Causar tumulto nas ruas (e ser destacado na imprensa do dia seguinte) era como ser laureado um "herói do sábado à noite", diz o livro. Ser bosozoku era um tipo de rito de passagem para a vida adulta -- para uns, a rebeldia passou, mas desembocou na máfia, a Yakuza.

"Hoje não sou mais Yakusa, sou só Hooligan", diz Kazuhiro Hazuki, ex-líder da gangue Narashino Specter, no documentário "The setting sun: the history and present of Bosozoku" (2015). Os primeiros líderes das gangues, como Black Emperor, Kira Rengo e Number One, já passaram dos 60 anos. Hoje na casa dos 40, Hazuki diz que seus dias de motoqueiro louco ficaram para trás. "Bosozoku é história", definiu ao jornal The Japan Times, que reportava o lançamento de outro documentário, "Sayonara Speed Tribes" (2012), do produtor norte-americano Jamie Morris, radicado em Tóquio.

Grupo de Bosozoku - Wikimedia Commons - Wikimedia Commons
Grupo de Bosozoku
Imagem: Wikimedia Commons

Os tempos mudaram, os jovens mudaram e as leis também. Um dos maiores motivos indicados para o declínio dos bosozokus é o endurecimento das leis japonesas de trânsito, principalmente após a nova lei de 2004. A província de Aichi, um dos maiores redutos de motoqueiros, viu o número de membros de gangues cair de 22 mil, em 2002, para 1.900, em 2006.

Na lei de 2020, dirigir agressivamente, com manobras perigosas de ultrapassagem e freadas bruscas, por exemplo, podem render multa de até 500 mil ienes (cerca de 26 mil reais) e três anos de prisão. Dirigir perigosamente nas estradas, inclusive forçando outros veículos a parar nas vias expressas, pode valer multa de 1 milhão de ienes (mais de 50 mil reais) e cinco anos de prisão.

Estilo boso

Embora os bosozoku estejam desaparecendo, o estilo ficou na memória japonesa. A cultura de customização, por exemplo, se disseminou entre motos e carros. Um tipo de uniforme das gangues, conhecido como "tokko-fuku", também foi incorporado pela cultura pop: são macacões, estilo militar ou de operários de fábricas, adornados com kanjis (caracteres da língua japonesa). Além de slogans rebeldes, agora há modelos personalizados com frases poéticas e até citações de animes, como a série "Love Live!", reportou o jornal The Japan Times.

"Atualmente, os bosozokus não são mais temidos como antigamente. Os jovens das gangues pilotam scooters, não mais motos. [...] Os integrantes agora dirigem por becos e ruelas, ficando longe da polícia. Muitos dizem que não é nada mais que uma tentativa de reviver algo que já se foi e, hoje, o bosozoku é uma lenda urbana japonesa, que existe mais como estilo do que como subcultura de fato", escreveu Arun Singh Pundir, no site especializado Hot Cars.

Há 20 anos no Japão entre idas e vindas, o paulista Alex Yamada, 38, teve seus dias breves ao lado de bosozokus. Fascinado por motos desde a infância, ele rodou com amigos motoqueiros na adolescência, em Toyota (Aichi). De volta ao Brasil, aos 18, montou uma oficina de aerografia, técnica de ilustração e pintura para tanque de motos e capôs de carros em Natal, no Rio Grande do Norte. Aos 24, voltou ao Japão, casou com uma japonesa (também fã de motos) e mergulhou de vez nesse universo: abriu a Premier999, misto de oficina de customização e concessionária, em Nisshin (Aichi).

As roupas estilo boso - Reprodução/ Facebook - Reprodução/ Facebook
As roupas estilo boso
Imagem: Reprodução/ Facebook

Primeiro brasileiro a montar motos estilo Chopper, modificadas com a dianteira alongada, ele ficou conhecido como Alex Chopper. Entre seus clientes, ainda há bosozokus, "poucos, mas há", diz. "O estilo rebelde dos bosozokus ainda é atual. Por mais bonzinho que o cara seja, ele se transforma se senta a bunda em uma moto, ele se sente poderoso. É um estilo, uma pose, mas mais um sentimento", define Chopper, que dirige uma Harley-Davidson modelo Ultra Classic 2008 ("Harley é a Ferrari das motos", diz) e um caminhão Toyota ToyoAce, para transportar os pedidos dos clientes.

Desde 2004 no Japão e instalado em Yokohama, o paulista Edson Assato, 49, também se interessa por motos desde a infância -- a lembrança de filmes antigos como "The wild one" (1953), estrelado por Marlon Brando, e "Easy rider" (1969), dirigido por Dennis Hopper, o inspira até hoje. "'Born to be wild', de Steppenwolf, trilha sonora de 'Easy rider, é um dos hinos da minha vida." No dia a dia, Assato dirige uma lambreta; para viajar, pilota uma Yamaha Dragstar 1100 cilindradas customizada. "[Dirigir moto] dá uma sensação de liberdade. Eu me sinto como se estivesse flutuando no ar", diz ele, que frisa que não gosta de correr, apenas andar, ver a estrada e sentir o vento no rosto.

Assato e Chopper se conheceram por indicação de amigos comuns e, nos tempos de Orkut, tornaram-se também amigos. Juntos, eles decidiram fundar o motoclube Bad Influence em 2008. A liga começou como um grupo de motoqueiros latino-americanos radicados no Japão e depois se expandiu para o Brasil -- a filial fica em Monte Alto, em São Paulo. "O clube cresceu tanto que não sei quantos membros temos hoje", conta Chopper, o presidente, que estima que 80% dos integrantes sejam brasileiros e 20% japoneses; há homens e mulheres. Segundo Assato, a ideia é viajar junto e confraternizar, "longe de confusão" e dos bosozoku remanescentes, com quem às vezes são confundidos. "Nossa rebeldia é contra as diferenças, os contrastes sociais do mundo", diz.

Anualmente, o clube realiza encontros de confraternização, como churrascos e campings. Desde 2009, eles integram iniciativas solidárias no Japão: visitam asilos, onde vivem velhos japoneses sozinhos; promovem campanhas de arrecadação para causas sociais; arrecadam brinquedos e vão distribuí-los em orfanatos, vestidos de Papai Noel (sem deixar a estilizada jaqueta de couro de lado). A ação nos orfanatos acontece sempre no mês de dezembro. A ação foi originalmente organizada pelos Gaijin Riders, um fórum de motociclistas estrangeiros no Japão, onde não se celebra o Natal.

Alex Yamada durante ação em orfanato - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Alex Yamada durante ação em orfanato
Imagem: Arquivo pessoal

"Uma vez no orfanato, uma criança japonesa me disse: quando eu crescer, quero ser igual a você, andar de moto, ter esse estilo. Foi emocionante e nunca esqueci. Quer dizer, na verdade, não é 'má', é uma boa influência", conta Assato. "Bad Influence era mais para provocar impacto. 'Good Influence' ia ficar muito tosco. Imagina, uma galera com cara de mau, pilotando 'umas puta' máquinas dessas, não ia combinar", brinca Chopper. "A pose é de mau, mas a ideia é do bem."