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Justiça grega condena lideranças neonazistas por formação de quadrilha

A presidente do júri, Maria Lepenioti, durante o julgamento de membros do Golden Dawn em Atenas - Alkis Konstantinidis/Reuters
A presidente do júri, Maria Lepenioti, durante o julgamento de membros do Golden Dawn em Atenas
Imagem: Alkis Konstantinidis/Reuters

André Naddeo

Colaboração para o TAB, de Atenas

08/10/2020 04h01

A Grécia viveu na manhã de quarta-feira (7) o ápice do mais importante e longo julgamento político de sua história recente. Depois de cinco anos e cinco meses, o Tribunal Grego de Atenas condenou, por unanimidade, sete líderes do partido político neonazista Golden Dawn (Aurora Dourada). Todos foram condenados por organização criminosa, incluindo o fundador do grupo de extrema-direita, Nikos Michaloliakos, de 62 anos. As penas ainda não foram determinadas, mas já se sabe que cada um enfrentará, no mínimo, dez anos de prisão.

A decisão provocou um êxtase coletivo em cerca de 15 mil pessoas que aguardavam o veredito em frente ao Palácio de Justiça de Atenas, aos gritos de "nazistas ao xadrez". O anúncio da juíza Maria Lepenioti, presidente da Corte, é um marco na história recente europeia, que só encontra precedentes no Tribunal de Nuremberg, quando foram julgados os oficiais nazistas da Segunda Guerra Mundial.

Em cada uma das sentenças anunciada por um carro-elétrico estacionado próximo ao local, o público ia à loucura. O momento mais apoteótico, no entanto, foi quando se confirmou que o Aurora Dourada era, enfim, considerado uma organização criminosa.

Entre os cabeças, além de Michaloliakos, foram condenados o eurodeputado independente Yiannis Lagos, que deixou o Aurora Dourada em 2019, e o ex-porta-voz do partido, Ilias Kassidiaris.

O processo incluiu um total de 68 pessoas, entre elas Giorgos Roupakios, 45, que além de formação de quadrilha, também foi condenado pela morte de Pavlos Fyssas, 33, um popular artista hip-hop antifascista, assassinado a facadas em setembro de 2013, em frente a uma cafeteria no bairro de Keratsini, no subúrbio de Atenas.

Manifestantes gritam slogans pedindo a prisão dos neonazistas do Golden Dawn, julgados em Atenas - Sakis Mitrolidis / AFP - Sakis Mitrolidis / AFP
Manifestantes gritam slogans pedindo a prisão dos neonazistas do Golden Dawn, julgados em Atenas
Imagem: Sakis Mitrolidis / AFP

Clamor popular

A morte de Fyssas forçou as autoridades gregas a agirem de forma consistente contra o grupo neonazista, conhecido pela perseguição contra integrantes da comunidade LGBTQI+, membros de partidos de esquerda e comunistas, judeus, além de refugiados e imigrantes. Roupakios já havia confessado o assassinato do rapper. Além de ter sido condenado por porte ilegal de armas, deve enfrentar, de acordo com a imprensa grega, uma pena de prisão perpétua. Já não cabem recursos para todas as decisões.

"Você conseguiu, meu filho", vibrou, em lágrimas, Magda Fyssas, mãe do artista, que não faltou a nenhuma das mais de 400 audiências, desde o início do caso. Outros sete membros do grupo também foram condenados por coparticipação no assassinato. "Você está eternizado", disse, diante da multidão de jornalistas em frente ao Palácio de Justiça. Irini Fyssa, irmã de Pavlos, também estava presente e abraçou a mãe diante das câmeras.

A corte de apelações ainda analisou quatro tentativas de homicídio contra pescadores egípcios, em 2012, em que outros três membros do Aurora Dourada foram condenados. Três outros integrantes da organização já haviam sido declarados culpados pelo assassinato de Ssazad Luckman, um vendedor de frutas paquistanês, ocorrido em janeiro de 2013, e estão detidos.

Multidão do lado de fora do Tribunal de Apelação aguarda o julgamento do grupo de extrema-direita Golden Dawn, em Atenas - Socrates Baltagiannis/picture alliance/Getty Images - Socrates Baltagiannis/picture alliance/Getty Images
Multidão do lado de fora do Tribunal de Apelação aguarda o julgamento do grupo de extrema-direita Golden Dawn, em Atenas
Imagem: Socrates Baltagiannis/picture alliance/Getty Images

A sentença final contra o Aurora Dourada, que já chegou a ser o terceiro maior partido político da Grécia, contando com 21 cadeiras no Parlamento grego, é resultado de denúncias de cinco ex-integrantes do grupo neonazista, que trabalharam infiltrados e colheram vídeos e documentos que acabaram comprovando o estabelecimento de uma organização criminosa.

Vitória dos direitos humanos

Desde as primeiras horas da quarta-feira, helicópteros de redes de televisão locais sobrevoavam o percurso da Avenida Aleksandras, endereço do Tribunal Grego de Atenas. Um total de 11 ônibus anti-distúrbios cercou e protegeu todas as entradas do local, além de um efetivo de dois mil policiais, convocado para conter diversas manifestações organizadas por coletivos antifascistas e partidos.

"O impacto desse veredito não é apenas emblemático por levar à condenação um grupo de extrema-direita que discursa contra imigração e direitos humanos, mas também pelo fato de que será sentido além das fronteiras da Grécia", declarou nas redes sociais, Nils Muiznieks, diretor europeu da organização Anistia Internacional.

"É um passo importante contra os nazistas, mas a luta continua, não podemos baixar a guarda", tuitou a Central das Comunidades Judaicas Gregas (Kise, na sigla em inglês).

No meio da multidão estava também Georges Kounanis, 31, líder de três grupos coletivos LGBTQI+, atacado em 2018 por neonazistas junto com o então namorado. Ele sofreu fraturas na costela. "É uma notícia importante para a Grécia, para a Europa, para todo o mundo. Sabemos que a luta não pode parar, mas hoje foi dado um passo importante no sentido de ao menos essas pessoas serem condenadas", falou ao TAB.

Kounanis falou espontaneamente sobre as perseguições sofridas por grupos LGBTQI+ no Brasil, pioradas, segundo ele, com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. "Não acredito que um país tão bonito tenha alguém como ele no poder", bradou, antes de completar. "Bolsonaro, venho aqui dizer que muito em breve será a sua vez de enfrentar a corte, de enfrentar a Justiça. A sua hora vai chegar.

Julgamento do partido Golden Dawn (Aurora Dourada)

Auge e declínio

O Aurora Dourada nasceu como um partido nanico nos anos 1990. Seu criador, líder e mentor, Nikos Michaloliakos, é um admirador de Adolf Hitler e negacionista do Holocausto. A ascensão do grupo político coincide com o aprofundamento da crise econômica vivida pela Grécia há mais de uma década.

Em 2012, pela primeira vez, o AD arrematou 21 cadeiras no Parlamento Grego, ao atingir mais de 7% de votos nas eleições legislativas nacionais. Ali iniciou-se uma grande perseguição a minorias étnicas, figuras políticas de esquerda e comunistas, pelos conhecidos "grupos de motocicletas", que, encapuzados, com roupas negras e barras de ferro, perseguiam também gays, lésbicas, antifascistas e judeus.

A morte de Pavlos Fyssas, 33, foi o grande divisor de águas no caminho do Aurora Dourada, que nas últimas eleições, em 2019, com menos de 3% de votos nas mesmas eleições legislativas, perdeu todas as suas representações no Congresso. Muitos membros, contudo, podem ter migrado para a Nova Democracia, hoje no poder com o primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis.