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Eutanásia de peixe: antes ornamentos e agora pets, eles ganham morte digna

O peixe-palhaço, popularizado pelo filme "Procurando Nemo" - Caters News Agency
O peixe-palhaço, popularizado pelo filme "Procurando Nemo" Imagem: Caters News Agency

Mônica Manir

Colaboração para o TAB

20/10/2020 13h00

Em 2017, a morte de um peixe no Aquário Shedd, em Chicago, nos Estados Unidos, causou espécie. Primeiro porque Granddad tinha 90 anos. Era o mais longevo de todos os peixes que habitavam aquários no mundo. Mais de 104 milhões de visitantes tinham ouvido a história desse ser pulmonado que chegou da Austrália, não raro se fazia de tronco caído e representava com galhardia um dos mais antigos gêneros de vertebrados do planeta.

Do obituário constava outro dado ímpar. Diante da falência dos órgãos de Granddad, os veterinários do Shedd optaram pela eutanásia. Queriam lhe dar uma morte digna. Entendiam que ele merecia um tratamento humanizado, expressão comum entre os que pregam a boa morte de animais.

Enquanto a dor de mamíferos e pássaros é assunto liquidado porque certo, há quem aposte que peixes não dão a mínima para falhas do próprio organismo, ferimentos, cortes por anzol ou falta de ar. Ou, se dão, sua reação seria de menor calibre e importância.

Peixe sente dor?

Autora do livro "Do Fish Feel Pain?", publicado em 2010, a zoóloga britânica Victoria Braithwaite, professora na Universidade do Estado da Pensilvânia, afirmou que os peixes sentem, sim, dor. E que ela pode se estender por horas. Segundo Braithwaite, os peixes têm células neurais que transmitem dor análogas às humanas: diante de estímulos como vinagre adicionado à água, agem como se a mistura os incomodasse. Em contrapartida, quando pesquisou peixes mantidos em tanques, concluiu que eles se saíam melhor se o ambiente fosse circundado por plantas. A britânica faleceu em setembro do ano passado, aos 52 anos, vítima de câncer.

Pesquisa mais recente feita na Universidade de Liverpool, em 2019, revelou que eventos potencialmente dolorosos resultam em mudanças comportamentais e fisiológicas nos peixes, como comportamento de guarda e aumento da taxa de ventilação, todos evitados pelo uso de analgésicos. Peter Singer, filósofo australiano, afirma ao TAB que os peixes são seres sencientes, ou seja, são capazes de ter sensações e sentimentos de forma consciente. Professor de bioética em Princeton, nos EUA, e autor de "Libertação Animal", entre outros, questionou em um artigo: "Por que peixes são vítimas esquecidas nos nossos pratos? Apenas porque têm sangue frio e estão cobertos de escamas? Ou porque não podem dar voz à sua dor?"

Para peixes usados em pesquisas científicas, há no mínimo instâncias que formulam as chamadas "normas de utilização humanitária". No Brasil, o Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) e a CEUA (Comissão de Ética para o Uso Animal) fazem esse papel. O Concea, por exemplo, indica métodos aceitáveis para eutanásia, como os anestésicos tricaína, lidocaína, benzocaína e eugenol (óleo de cravo), colocados diretamente na água. Aponta outros com restrição, como decapitação antecedida por anestesia geral. O choque hipotérmico, que induz a uma morte mais lenta, só receberia aval com justificativa muito fundamentada. Um dos fundamentos: se o uso de uma substância química para a eutanásia pudesse alterar o resultado da pesquisa em questão.

"O mais comum em pesquisas científicas ainda é o uso de ratos e camundongos, mas a utilização de peixes como modelo para estudo de doenças humanas vem aumentando de maneira impressionante nas últimas décadas", afirma Themis Reverbel da Silveira, gastroenterologista e pesquisadora de pós-graduação na UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre).

Aos 82 anos, ela se orgulha de ter criado o primeiro grupo de estudos em zebrafish (ZF) no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O zebrafish ou paulistinha -- de nome científico Danio rerio -- é muito utilizado para testar efeitos adversos de diferentes substâncias tóxicas. Por não serem agressivos, terem um ciclo de vida curto (a partir dos três meses, já são considerados adultos) e apresentarem baixo custo, também são empregados como modelo de análise de alterações no fígado e testes para inovações terapêuticas. "Além disso, suas informações hereditárias já foram todas decodificadas", lembra Raimunda Fortes, professora da Uema (Universidade Estadual do Maranhão). Esses diminutos, que não passam de 5 cm quando adultos, tiveram o genoma inteiramente sequenciado, o que evidenciou sua grande paridade bioquímica, fisiológica e genética com os mamíferos. Cerca de 70% dos genes humanos têm um semelhante nos peixes-zebras.

O zebrafish, também conhecido como paulistinha - Larissa Penha - Larissa Penha
O zebrafish, também conhecido como paulistinha
Imagem: Larissa Penha

Antes ornamento, agora pet

Quando o animal criado em casa aparenta sofrimento, o indicado é levá-lo a uma clínica veterinária para saber da necessidade ou não de eutanásia. Renato Leite Leonardo, veterinário que trabalha com medicina de peixes, relaciona algumas situações em que o processo pode ser irreversível: intoxicação por amônia ou nitrito, processos tumorais (condição relativamente comum entre carpas) e lesão grave por causa de um entrevero com outro peixe. O animal também pode pular do aquário, por ser naturalmente um saltador ou para fugir da má qualidade da água, e passar uma noite inteira no chão.

"Aos poucos, os peixes vêm sendo vistos pelos seus tutores como pets, e não como ornamento", diz Leonardo ao TAB. Isso os levaria a um fim de vida de melhor qualidade. A prática mais comum, no entanto, é descartar o animal no lixo ou no vaso sanitário, por vezes sem certeza do óbito. Além do estresse por se ver em um ambiente inóspito, o peixe pode entrar no ecossistema aquático local e devastar populações nativas. "O zebrafish, por exemplo, é exótico porque asiático, e pode causar um problema ambiental se cair num corpo hídrico", diz a bióloga Larissa Penha, doutoranda do programa de pós-graduação em Biologia de Ambientes Aquáticos Continentais da FURG (Universidade Federal do Rio Grande), no Rio Grande do Sul. Corpo hídrico seriam oceanos, mares, rios, lagos, lagoas, córregos.

Nas clínicas, o descarte sanitário será como o dos cães e gatos. "A prefeitura acaba recolhendo o cadáver para incinerá-lo da forma como todo cadáver deveria ser", afirma Leonardo. "Mesmo porque, muitas vezes, a gente não sabe a causa exata da morte." Segundo o IBGE, cerca de 11 milhões de brasileiros criam peixes ornamentais em casa.