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Turismo dark prospera em Chernobyl e em antigos campos de concentração

Anna Mirtu é guia de passeios em inglês e espanhol pela Zona de Exclusão de Chernobyl - Anna Mirtu/Arquivo Pessoal
Anna Mirtu é guia de passeios em inglês e espanhol pela Zona de Exclusão de Chernobyl Imagem: Anna Mirtu/Arquivo Pessoal

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB

04/11/2020 04h01

A ucraniana Anna Mirtu, 32, estava à procura de um emprego que pagasse melhor quando encontrou um anúncio no Facebook para trabalhar como guia de turismo em uma agência de viagens em Chernobyl. Ela riu da possibilidade, mas se arriscou e conseguiu a vaga. Há três anos, dedica-se a passeios em inglês e espanhol na Zona de Exclusão onde aconteceu o maior acidente nuclear da história.

Esse tipo de atividade tem um nome específico: turismo dark, feito por pessoas que buscam conhecer palcos de tragédias e lugares lúgubres. Há uma outra denominação, tanatoturismo, para a prática, que significa viagem ao encontro da morte.

Embora o nome sugira uma relação sombria, não se trata apenas da ida a cemitérios ou casas consideradas abandonadas. Localidades que preservam a memória de vítimas de um acontecimento, a exemplo do Memorial do Holocausto, em Berlim, campos de concentração de Auschwitz, na Polônia, e o One World Observatory, em Nova York (EUA), que relembra o atentado terrorista de 11 de setembro, são parte do curcuito do turismo dark.

Mesmo com a exposição à radiação, o número de visitantes na Zona de Exclusão, situada em uma usina nuclear na cidade de Pripyat (Ucrânia), está em alta. Em 2019, segundo Anna Mirtu, o local recebeu 125 mil pessoas, crescimento de quase 1.495% em comparação há cinco anos — 90% do público total é de estrangeiros. Mas a pandemia diminuiu até o ritmo de trabalho da guia, que agora sai de casa seis vezes no mês para receber turistas.

A recomendação de segurança que Anna dá os visitantes é o uso de calçados fechados, em razão das regras contra radiação. "Não gosto de chamar Chernobyl como um lugar de turismo dark. Os turistas não precisam usar máscaras, respiradores ou roupas de proteção. Eles andam na zona e sorriem, porque consideramos Chernobyl um lugar de vitória e não de tragédia. Somos gratos aos profissionais que limparam a Zona de Exclusão da radiação e temos que entender que a vida continua, mesmo ali", diz ela, que sustenta três filhos como guia de turismo do local.

Limites entre gostar e apreciar

Professora de Turismo da USP (Universidade de São Paulo), Mariana Aldrigui acredita que a curiosidade é intrínseca ao ser humano. No entanto, é necessário haver uma reflexão respeitosa a partir do acontecimento que se observa. Embora o conceito seja um consenso entre estudiosos, há discordâncias quanto ao recorte de abrangência do tema, pois há pesquisadores que relacionam, por exemplo, turismo em favelas como um passeio "dark" ao explorar a realidade daquelas pessoas.

Ela acredita que a Alemanha é um caso único, por ter tratado o nazismo de forma educativa, com a valorização do patrimônio histórico e os ensinamentos sobre as consequências da Segunda Guerra Mundial. Os campos de concentração nazistas não cobram a entrada de turistas. Entretanto, a possibilidade de comercializar o espaço, com lojas de presentes, é alvo de críticas no campo acadêmico.

"É possível que haja um grupo significativo de pessoas que vão pelo calor do momento e um grupo que homenageia as vítimas. É aí que reside a polêmica do conceito, quando começam as discussões [o principal questionamento] é: 'onde já se viu explorar a dor?'. A 'guerra' está entre o que o turista tem curiosidade para pagar e o que se pode mostrar. Uma porcentagem de pessoas não se afetará, mas são pessoas que não se afetam com nada", destaca.

Entre cemitérios e tragédias

Beckie Galentine, 30, gostava de fotografar cemitérios e cenas de crime desde quando era adolescente. A norte-americana, que trabalha como aprendiz de embalsamadora em uma funerária em Connecticut (EUA), expõe nas redes sociais sua apreciação por locais considerados "descartáveis", como a própria diz. Ela usa o Instagram e o TikTok para publicar fotos e vídeos rápidos com textos reflexivos sobre a morte para mais de 240 mil seguidores.

Ao TAB, ela explica sua motivação pelo turismo dark. "Se eu me cercar do tema da morte, se ela virar uma 'amiga', me sinto mais confortável em discuti-la, é inevitável. Não me rodeio da morte porque quero morrer, e não visito lugares onde a morte ocorreu porque me faz feliz que pessoas tenham morrido. Quanto mais caminhamos com a morte, menos tememos e mais compreendemos."

A influenciadora considera, porém, inapropriado visitar qualquer locação apenas com a intenção de registrar uma selfie. Alguns pontos de visitação devem ser respeitados por serem "sagrados", a exemplo do World Trade Center em Nova York. Ou seja, deve haver uma separação entre as curtidas e a empatia.

Para Beckie, sempre há um limite entre a prática do turismo dark e a humanização pelas memórias do passado. "A minha regra é que se há uma vítima viva e a comunidade pede para que a história pare de ressurgir, temos de respeitar. Se uma tragédia é nova o suficiente para que os sobreviventes ainda estejam visitando ou residindo naquele local, isso é traumático e não um lugar para ficar de boca aberta. Uma vez que as vítimas tenham deixado [o local], é bom visitar, mas isso não significa um total desrespeito pelo passado."

A aprendiz de embalsamadora Beckie Galentine, dos EUA: para ela, é possível visitar um local que foi palco de tragédia e respeitar a memória das vítimas - Beckie Galentine/Arquivo Pessoal - Beckie Galentine/Arquivo Pessoal
A aprendiz de embalsamadora Beckie Galentine, dos EUA: para ela, é possível visitar um local que foi palco de tragédia e respeitar a memória das vítimas
Imagem: Beckie Galentine/Arquivo Pessoal

Dark é pop

Ao voltar os olhos para a Europa, Mariana Aldrigui destaca que o munícipio de Nuremberg (Alemanha), reconhecido pelo julgamento de líderes nazistas, não se vende como um destino de turismo dark. Já Budapeste, capital da Hungria, tem um apelo voltado a essa prática ao explorar a memória da Segunda Guerra Mundial, apontando em construções históricas os bombardeios que sofreu e a reconstrução no pós-guerra.

Segundo ela, essa estratégia não passa diretamente pelas mãos da indústria de turismo, mas da gestão local. "É importante entender que nunca é decisão de um diretor de turismo. Sempre há uma lógica combinada de patrimônio, cultura, educação e desenvolvimento econômico. Mesmo nos casos mais bem-sucedidos, o turismo vem como elemento de organização logística, não é o que toma a decisão de fato. Posso até ter empresários disponíveis a fazerem A, B ou C, mas isso tem que estar alinhado com o que a gestão daquele lugar espera para o futuro", conta ao TAB.

Quando observa o Brasil, a especialista encontra uma ausência de produtos formatados para o turismo dark, ainda que encontre potencial. Ao ser perguntada sobre um possível ponto de visitação para esse público de interesse, Mariana diz que "Praia dos Ossos", em Búzios (RJ), que recentemente virou podcast ao reconstruir o assassinato de Ângela Diniz, tem tudo para despertar o interesse de turistas.