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'Rebecca': filme vem de obra acusada de plagiar o brasileiro 'A sucessora'

Remake de "Rebecca", da Netflix - Divulgação
Remake de "Rebecca", da Netflix Imagem: Divulgação

Isabela Moreira

Colaboração para o TAB

27/11/2020 04h01

"Ontem à noite, sonhei que voltava a Manderley. O caminho até a casa estava tomado por uma selva sombria e tortuosa. A natureza havia dominado, mas a casa ainda estava lá. Manderley. Reservada e silenciosa, como sempre foi. Ressurgida das cinzas." É com essa narração que começa "Rebecca - A Mulher Inesquecível", filme original da Netflix que estreou no serviço de streaming em outubro. Estrelado por Lily James (de "Cinderela") e Armie Hammer (de "Me chame pelo seu nome"), o filme é remake do clássico de 1940 dirigido por Alfred Hitchcock que, por sua vez, é uma adaptação do livro "Rebecca", da inglesa Daphne du Maurier.

No enredo, uma jovem casada com um viúvo milionário se sente perseguida pelas memórias da falecida esposa dele, Rebecca. Apesar do sucesso, a origem dessa história vem sendo questionada desde que a primeira edição do livro foi publicada, em 1938. Há diversos elementos em comum com uma obra brasileira, lançada quatro anos antes: "A sucessora", de Carolina Nabuco.

Quem foi Carolina Nabuco?

Filha do político, escritor e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Joaquim Nabuco, Maria Carolina Nabuco de Araújo nasceu em 1890, e estreou na literatura em 1929, com a publicação de "A Vida de Joaquim Nabuco", biografia do pai que passou 8 anos escrevendo. Com duas edições e mais de 4.000 cópias vendidas, foi considerado um sucesso de público e crítica na época.

Carolina se aventurou na ficção ao ter a ideia para um conto chamado "O Retrato da primeira esposa", que foi evoluindo até virar o livro "A sucessora", publicado em 1934. "Imaginei-o influindo sobre a jovem sucessora como se a primeira falasse, mas este conto — que era um diálogo — foi crescendo até virar um livro", conta a escritora em sua autobiografia "Oito Décadas", de 1973. "Os pormenores que eu ia acrescentando davam mais relevo ao contraste entre as duas personalidades. O enredo me pareceu e, ainda me parece, novo."

A sucessora conta a história de Marina, uma jovem que vive numa fazenda no interior do Rio de Janeiro que conhece e se apaixona pelo viúvo Roberto, um empresário rico com quem se casa. Ao se mudar para a mansão dele na capital, ela passa a sentir a pressão das expectativas da sociedade cosmopolita carioca, principalmente por ser constantemente comparada à falecida esposa de Roberto, Alice, cuja memória parece lhe perseguir.

A escritora Carolina Nabuco, autora de "A Sucessora", de 1934 - Reprodução - Reprodução
A escritora Carolina Nabuco, autora de "A Sucessora", de 1934
Imagem: Reprodução

A obra foi elogiada mas só ficou conhecida anos depois, com o lançamento de "Rebecca".

As semelhanças não param nas premissas dos dois livros. A ingenuidade e a origem das protagonistas, as relações que desenvolvem com seus esposos e os ambientes têm muito em comum.

No jornal Correio da Manhã, à época, o jornalista Álvaro Lins deu nomes aos bois: para ele, Daphne du Maurier plagiou Carolina Nabuco.

Carolina Nabuco concordou com a crítica de Lins. Em sua autobiografia, a escritora diz acreditar que Daphne du Maurier escreveu "Rebecca" após ler um manuscrito de "A sucessora" em inglês. "Eu havia traduzido o livro para o inglês com esperança de vê-lo editado nos EUA. Esta tradução foi oferecida — sem êxito — a várias editoras por uma agência literária em Nova York, a quem confiei o manuscrito para esse fim, mediante contrato. Eu havia pedido a esse agente literário que tentasse também encontrar-me um editor na Inglaterra", conta.

A escritora Daphne du Maurier, autora de "Rebecca", de 1938 - Reprodução - Reprodução
A escritora Daphne du Maurier, autora de "Rebecca", de 1938
Imagem: Reprodução

Depois de ler "Rebecca", a brasileira entrou em contato com o agente literário, lhe perguntando se tinha enviado o manuscrito para um editor em Londres. Em um primeiro momento, ele respondeu que não. Mas após as acusações de plágio reverberarem na imprensa internacional, o agente voltou atrás e disse que sim.

"Tive a princípio um grande desgosto, mas veio a convicção de que houve realmente um plágio", afirma Carolina Nabuco, que optou por não processar Daphne du Maurier judicialmente. "Embora muitos me aconselharem iniciar processo, fiquei plenamente satisfeita em ver o plágio ser geralmente proclamado pelos que haviam lido os dois livros."

Adaptações

A disputa continuou em 1940, quando o filme "Rebecca, a Mulher Inesquecível", dirigido por Alfred Hitchcock, chegou aos cinemas. O longa-metragem conta com Joan Fontaine e Laurence Olivier nos papéis principais e chegou a ser indicado a 11 categorias do Oscar, levando as estatuetas de Melhor Cinematografia e Melhor Filme.

"Rebecca", adaptação de Alfred Hitchcock - Divulgação - Divulgação
"Rebecca", adaptação de Alfred Hitchcock
Imagem: Divulgação

O sucesso da obra de Hitchcock transformou o livro inglês em best-seller. De acordo com Carolina Nabuco, quando a obra estava prestes a estrear nos cinemas brasileiros, os advogados dos produtores do filme entraram em contato com ela. Eles queriam que a autora assinasse um documento admitindo a possibilidade de as semelhanças entre "A sucessora" e "Rebecca" serem meras coincidências. "Se me prestasse a isso, eu seria compensada com uma quantia que o doutor Torres [advogado de Nabuco] qualificou como 'acordo patrimonial'. Não anui, naturalmente."

A parceria de Alfred Hitchcock e Daphne du Maurier se repetiu em 1963, quando ele adaptou o conto "Os Pássaros", publicado por ela em 1952, para o filme de mesmo nome. O longa foi um sucesso de bilheteria, mas du Maurier foi acusada de plágio novamente: dessa vez pelo escritor inglês Frank Baker, que lançou um livro chamado "Os Pássaros", com a mesma premissa, em 1936. Assim como aconteceu com Carolina Nabuco, ele descobriu que seu editor havia falado sobre o livro com Daphne du Maurier, sua prima. Baker considerou processar a escritora e o estúdio, mas desistiu por considerar arriscado.

Mais de 30 anos após sua publicação, "A sucessora" foi adaptado para a televisão por Manoel Carlos. A novela foi ao ar entre 1978 e 1979 no horário das 18h na Rede Globo e trouxe Susana Vieira como a protagonista Marina, contando ainda com a participação das atrizes Nathalia Timberg e Arlete Salles. Carolina Nabuco faleceu pouco tempo depois, em 1981, aos 91 anos.

Desde que foi publicado pela primeira vez, "Rebecca" foi traduzido para diversos idiomas e não deixou de ter novas edições. De acordo com o espólio família du Maurier, só entre 1938 e 1965, mais de 2,8 milhões de cópias do livro foram vendidas. A sucessora ficou décadas fora de impressão até ganhar uma nova edição em 2018 pela Editora Instante, que também publicou "Chamas e Cinzas", outra obra de ficção de Carolina Nabuco.