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Como um experimento famoso da psicologia explica (ou não) crueldade no BBB

Voluntário que fez parte da experiência da prisão de Stanford, em 1971 - PrisonExp.org via The New York Times
Voluntário que fez parte da experiência da prisão de Stanford, em 1971 Imagem: PrisonExp.org via The New York Times

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

05/02/2021 04h00

Quando foram anunciados os participantes da 21ª edição do Big Brother Brasil, exaltou-se a representatividade. O reality show da TV Globo — que confina, todos os anos, uma fauna humana dentro de uma casa — selecionou proporção recorde de não-brancos e não-heterossexuais. Muitos deles se identificam como ativistas.

Menos de duas semanas depois da estreia da temporada, em vez da predominância de discussões politizadas — que eram a expectativa do público —, o que se vê na telinha global são muitas brigas entre brothers que começaram o programa como aliados.

Até aqui, predominam na internet acusações de violência psicológica, assédio, intolerância religiosa e xenofobia. O ator Lucas Penteado, uma das lideranças do movimento estudantil que ocupou escolas do Ensino Médio de São Paulo em 2015, tem sido o participante mais atacado, de forma coletiva, pelos colegas na casa.

Mas afinal, o comportamento humano é moldado de acordo com o grupo? Em confinamento, estamos todos suscetíveis a assumirmos papéis que não são exatamente os nossos? Em 1971, um psicólogo norte-americano conduziu uma polêmica e controversa experiência para mostrar como o ser humano lida com essas condições. Trata-se do Experimento da Prisão de Stanford, que se tornou um clássico dos estudos da psicologia e foi comparado com as situações de crueldade no BBB 21 por diversos usuários do Twitter.

A ideia do experimento, conduzida pelo professor Philip George Zimbardo, contava com a participação de 24 inscritos divididos em dois grupos. Metade deveria se comportar como carcereiros de uma prisão fictícia, criada por eles no porão do Instituto de Psicologia da Universidade de Stanford. Os outros 12 seriam os prisioneiros.

Guardas e prisioneiros voluntários do experimento de Stanford - PrisonExp.org - PrisonExp.org
Guardas e prisioneiros voluntários do experimento de Stanford
Imagem: PrisonExp.org

Por que isso? O propósito era investigar como o ser humano se comporta quando passa a integrar grupos definidos e isolados. "E a principal conclusão tirada na época, mas hoje discutida, é que as pessoas confinadas começaram a se manifestar de forma diferente, com os guardas cada vez mais cruéis, cada vez mais controladores dos presos", comenta ao TAB o psicólogo Paulo Boggio, coordenador do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Mackenzie, em São Paulo.

Deu certo? Bom, o estudo foi publicado e passou a constar de todos os compêndios de psicologia. Mas houve muitos problemas, a começar pelo fato de que a prisão simulada acabou suspensa antes do previsto — seriam duas semanas, mas durou apenas seis dias. Isto porque o processo, chamado de desindividualização, passou a gerar comportamentos tão cruéis por parte dos guardas que os pesquisadores avaliaram que seria um risco continuar.

Na época. "A proposta do experimento tinha suas razões baseadas em observações e teorizações sobre grupos humanos isolados socialmente. Uma conclusão real é que o ser humano isolado em determinadas situações deixa seus hábitos e modifica suas reações emocionais, e que elas podem até certo ponto serem previstas", afirma ao TAB o psicólogo Oswaldo Rodrigues, assessor da Associação Latino-americana de Análise do Comportamento e Terapia Cognitivo-Comportamental. O estudo, portanto, tornou-se um marco na análise do comportamento em situações de cativeiro — e acabou sendo utilizado pelo pesquisador, Zimbardo, para tentar compreender o que ocorria no sistema prisional real.

Hoje. Com o passar do tempo, o estudo foi amplamente revisado e se tornou muito controverso. "O material que veio à tona, com áudios da época, começou a mostrar que na verdade os guardas eram incentivados pela equipe a serem mais cruéis, a serem mais duros. Os pesquisadores agiram de uma maneira que fere os procedimentos básicos da ciência, orientando os participantes", diz Boggio. "Eles diziam coisas como: 'vocês são guardas, e o papel de vocês é atuar como guardas', desta ou daquela forma. Ou seja: não é que eles estavam assumindo o papel e sendo cruéis porque todo mundo na posição de guarda supostamente é cruel, mas de certa forma eles estavam sendo incentivados a agir assim." Os resultados, portanto, passaram a ser desacreditados.

Consequências. O experimento também acabou afetando a saúde psicológica dos participantes. "Foram várias falhas de desenho e método de condução do estudo. Naquele momento histórico, ele promoveu comportamentos extremados, representando o ambiente social existente", acrescenta Rodrigues. "Podemos compreender que não devemos, eticamente, tentar novos experimentos semelhantes, pois os resultados são complicados e devem ter alto custo emocional futuro para os participantes. A cadeia de Stanford não foi uma fraude, mas não seria uma proposta aceita nos atuais padrões éticos para pesquisa com seres humanos."

"Prisioneiro" voluntário do clássico experimento da Prisão de Stanford, realizado em 1971 - PrisonExp.org - PrisonExp.org
"Prisioneiro" voluntário do clássico experimento da Prisão de Stanford, realizado em 1971
Imagem: PrisonExp.org

BBB. Mas o que Karol, Lucas e todas as tretas do Big Brother têm a ver com isso? Bom, da mesma forma que os participantes da prisão de Stanford deixavam para trás suas essências quando eram desindividualizados pela divisão em grupo — e, como se comprovou depois, estimulados pelos coordenadores da pesquisa —, os participantes do reality show global assumem posturas de acordo com os vínculos criados no confinamento. E, claro, são estimulados pela ideia de agradar à audiência, sobreviver aos paredões e, assim, ganhar fama e o polpudo prêmio final. Para Boggio, isso pode acarretar um comportamento desalinhado com o que essas pessoas acreditam que é o certo, mas conforme aquilo que "elas imaginam parecer favorável ou desfavorável". "Isso pode trazer mudanças, sejam ou não de caso pensado. Por outro lado, é difícil sustentar [tal atuação] por muito tempo, o que faz surgirem incongruências que podem ser notadas pelo espectador", comenta ele.

Desejo do ser. "Tem outra questão: a desejabilidade social. As pessoas vão se comportando da maneira como imaginam que serão aceitas", acrescenta Boggio. Segundo Rodrigues, sempre "será mais comum as pessoas agirem de maneira diferente de seu ambiente comum quando isoladas". "Isto deveria nos fazer compreender que isolar uma pessoa para que ela 'confesse' não produzirá uma confissão, mas, sim, um novo comportamento diferente do que ela teria", diz ele. "Seja o Big Brother, seja numa prisão real, as pessoas envolvidas assumem papéis previamente compreendidos, adequados ou não, verdadeiros ou não."

Zimbardo. O autor do controverso estudo tem 87 anos e hoje é professor emérito da Universidade de Stanford. Tornou-se uma celebridade acadêmica, com prêmios positivos e negativos. Em 2003, ele foi agraciado com a antítese do Nobel, o IgNobel. Dois anos depois, foi reconhecido com o prêmio da Fundação Dagmar e Vaclav Havel por sua carreira de pesquisas sobre a condição humana. Seu famoso experimento foi retratado três vezes no cinema: pela produção alemã Das Experiment (de 2001), pelo remake americano The Experiment (2010) e, mais recentemente, pelo documentário americano The Stanford Prison Experiment (2015).