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De saci a videogame, Felipe Castilho marca a literatura fantástica do país

Felipe Castilho, escritor e roteirista brasileiro, em sua casa na Barra Funda, em São Paulo - André Nery/UOL
Felipe Castilho, escritor e roteirista brasileiro, em sua casa na Barra Funda, em São Paulo
Imagem: André Nery/UOL

Breno Castro Alves

Colaboração para o TAB

13/02/2021 04h01

O calor da madrugada paulistana foi tão grande naquele domingo de janeiro que o escritor Felipe Castilho, 35, precisou deitar no chão do quintal para refrescar.

Às 3h, entendeu que não dormiria e, insone, decidiu: melhor levantar para escrever. Mas a história programada não saía, uma ideia nova tomava espaço mental. Precisou interromper o trabalho com prazo para botar no papel um novo argumento de quadrinhos. Só então conseguiu dormir. Castilho escreve da hora que acorda até quando vai dormir. Sabe que o momento de vigília é ótimo para tramar histórias.

Hoje, ele é um dos poucos brasileiros capazes de viver da produção de literatura fantástica autoral. Escreve quadrinhos, roteiro e livros, teve sucesso comercial com "Ordem Vermelha"; foi indicado duas vezes ao Prêmio Jabuti, com "Savana de Pedra" e "Serpentário". Além da indicação ao Jabuti, "Serpentário" foi licenciado pela Boutique Filmes, produtora da série "3%", para uma futura adaptação para as telas.

O que ainda não foi dito é que o escritor virou game: Felipe coordena o storytelling no estúdio criativo da Garena, empresa de Singapura que publica o "Free Fire", um colosso de jogo eletrônico, com 100 milhões de usuários diários.

"Para um livro estourar, é preciso que muitos fatores colaborem. Todo escritor sabe o percurso tortuoso para seu trabalho chegar ao público na forma de livro. E eu faço isso. Outra coisa é escrever uma animação hoje, lançar dali a poucos meses e, no dia seguinte, já ter milhões de views. Isso tem mudado minha perspectiva. Pra quem eu escrevo, afinal?"

Após um longo isolamento, Castilho saiu para reconhecer seu novo bairro, a Barra Funda, antiga zona industrial perto do centro da cidade. Cresceu na zona leste, se mudou há poucas semanas para o novo bairro. A entrevista que baseia este texto aconteceu caminhando ao redor do Minhocão, infame elevado urbano que corta a cidade e fica a apenas cinco minutos da nova casa do autor. A primeira coisa que diz é: estou prestes a cometer "zuckercídio", a retirada gradual de sua presença em redes sociais.

Felipe Castilho, escritor e roteirista brasileiro - André Nery/UOL - André Nery/UOL
Felipe Castilho, mostrando na tela um personagem do jogo 'Free Fire' cuja história foi criada por ele
Imagem: André Nery/UOL

Tem se encontrado mais e mais para dentro. Desde a quarentena, define-se como matrioska, a boneca russa com várias bonequinhas russas idênticas e menores dentro de si. "Eu me quarentenei da quarentena dentro de mim, sabe? Preciso de distância do ruído, então crio espaços internos diferentes para lidar com as muitas obras", relata. Na pandemia, depois do trabalho na Garena, Felipe descansa escrevendo.

Mãe guerreira

Tendo crescido imerso na ética do trabalho, aos treze anos começou ganhando R$ 20 a cada dois mil panfletos entregues, um centavo por papel. Vendia incenso com a mãe na rua, essência de turíbulo, o mesmo com que o mosteiro de São Bento incensa seus fiéis. Vendiam na porta da igreja.

Ele e o irmão cresceram com a mãe guerreira se virando, trabalhando muito para manter a família. Ela se chama Neusa e tem papel importante nas histórias que o filho escreve. Em um natal dos anos 1990, as vacas engordaram um pouco e a mãe declarou: "Vamos pra livraria e vocês compram o que quiserem". Êxtase. Ela também adora sagas fantásticas. Naquele dia, os três voltaram com uma pilha de livros para virar o ano mergulhados em mundos inventados.

No mundo real, caminhamos pela cracolândia expandida do bairro Santa Cecília. O terceiro homem que nos pede ajuda se chama Jesus Prado. Ainda lhe sobrou algum cabelo loiro e fino na cabeça de 50 anos. Felipe topa, entra em uma farmácia perto da Santa Casa para comprar o leite em pó específico, reforçado, que o homem solicitou para sua filha de dois anos. O escritor retorna com a lata de leite grande, uma garrafa d'água e um álcool em gel. Jesus agradece, fala que a menina vai crescer saudável para ser presidente do Brasil ou manicure que namora mulher. Declara sua alta estima por manicures que namoram mulheres e se vai, grato, ampliando a surrealidade do encontro.

"Ordem Vermelha", seu livro mais vendido, é descrito como um "Senhor dos Anéis" na Cidade de Deus — uma ficção épica com espadas, magia e seres de orelha pontuda, mas seus personagens tem problemas com agiotas, usam drogas e habitam vielas estreitas de uma favela, como as de Cidade de Deus, bairro da zona oeste do Rio. A estética é medieval não-europeia, influenciada por Constantinopla, Bagdá, Alexandria e outros povos do Oriente Médio.

O livro foi proposto pela CCXP e surgiu a partir de um universo co-criado com Rodrigo Bastos Didier e Victor Hugo Sousa. A CCXP é a Comic Con Experience, um dos maiores eventos do mundo do mercado nerd, o que lhe garantiu o enorme público.

Novamente ele aproxima o popular de formatos clássicos da fantasia. Sua obra de estreia é a série "Legado Folclórico", uma aventura infantojuvenil com seres de nosso folclore, em roupagem moderna. Saci, a yara, o lobisomem e outros, vivos nas ruas da cidade. "Já fui mil vezes a escolas levar o 'Legado Folclórico'. O retorno da molecada é sincero demais, vou continuar fazendo isso para sempre. O folclore une as pessoas muito mais do que a gente percebe. A referência já está lá."

Felipe Castilho, escritor e roteirista brasileiro. Escreve histórias de personagens para jogos eletrônicos como 'Free Fire' e 'League of Legends' - André Nery/UOL - André Nery/UOL
Imagem: André Nery/UOL

Negócio bilionário

Há um ano habita o mundo novo da produção de jogos eletrônicos e sua disposição não mudou. O próximo grande lançamento de seu estúdio é "Shiro", um personagem motoboy de aplicativo. Estamos falando de um jogo que tem avatares baseados em figuras ultrapops, como Cristiano Ronaldo e Alok. Ou seja, você pode jogar com o avatar baseado em Cristiano, seis vezes eleito melhor jogador do mundo.

A cantora Anitta é vocal sobre seu plano de tornar-se avatar — ainda sem sucesso. Estas parcerias comerciais milionárias são parte do modelo de negócios da Garena. E, logo mais, todas essas estrelas dividirão seu espaço com um motoboy. "O Shiro é correria e tá sempre ligado, tem essa malandragem de rua que o ajuda a encontrar seus inimigos", assim explica para os leigos o poder específico do novo personagem.

"Free Fire" é um battle royale, aquele tipo de game onde todos se enfrentam até sobrar apenas um de pé. É gratuito, mas com customizações pagas. Mudar a roupa ou o penteado do seu avatar favorito pode custar centenas de reais. Felipe é responsável pelas decisões criativas de narrativa nas ações do estúdio criativo da Garena, baseado no Brasil. Profissionais de literatura, marketing, arte, áudio e gestão trabalham juntos, criam conteúdo, roteiro e tomam decisões artísticas para novos modos de jogo, novos personagens e campeonatos.

Se refugia em seus mundos próprios quando encerra o trabalho na Garena. Toca seis obras autorais paralelas. "Tudo tem um preço, né? A troca equivalente, conceito da magia, faz sentido. O que você está disposto a sacrificar para conseguir? Saúde, sanidade, amigos? Eu adoro o terceiro 'Legado Folclórico', mas o processo foi tão intenso que me custou 5kg".

Anoitece e a caminhada termina, aos pés do Minhocão. Ante a pergunta sobre o que deixa de fazer para manter essa rotina de produção, responde: "A maior dor agora é não ter contraste, tudo em casa, tudo é sentar na frente do PC, sem sair, sem ver outras pessoas. Eu fazia por prazer, apesar de estar cansado. Mas a pandemia deixou tudo bem zoado, o preço da troca equivalente é maior agora", diz o autor, que paga em solidão o volume de trabalho produzido durante a quarentena.

Então se despede e segue para a casa nova. Entre livros encaixotados e móveis fora do lugar, ainda vai escrever mais literatura nesta noite quente de domingo.