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Há um ano sem visitar maridos presos, esposas protestam em Florianópolis

Mulheres de detentos fazem vigília em frente à Penitenciária de Florianópolis  - Isadora Camargo
Mulheres de detentos fazem vigília em frente à Penitenciária de Florianópolis
Imagem: Isadora Camargo

Matheus de Moura

Colaboração para o TAB, de Florianópolis

24/02/2021 04h00

Após passar 15 dias preso, Gean Carlos Bisana, 23, saía sorridente do calor da cela da Penitenciária de Florianópolis para a amenidade dos 23°C da Rua Delminda Silveira, no bairro Agronômica, próximo à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Eram 20h da noite de 10 de fevereiro. De cabelo curto, camiseta esverdeada e a papelada da soltura sob o braço, o jovem ex-detento não esperava pela recepção calorosa da dezena de mulheres que acampava próximo à saída do presídio. Mal colocou os pés para fora do portão de ferro, ouviu os gritos de suporte e a salva de palmas.

Gean corou instantaneamente. Não conhecia nenhuma delas: eram esposas e parentes de presos das penitenciárias de Santa Catarina. Seus apitos e gritos de guerra eram ouvidos do lado de dentro das celas. Os detentos, explica ele, se emocionam com a mobilização delas — que formam a Associação dos Familiares dos Presos de Santa Catarina e reivindicam, principalmente, a volta das visitas íntimas e de família. A demanda vai ao encontro da portaria de 5 de novembro de 2020, na qual o Departamento Penitenciário Nacional permitiu a implementação gradual do retorno das visitas em todo o país.

Entusiasmado com a movimentação em torno da pauta, Gean, que já esteve detido outras três vezes, adverte em alto e bom tom que as coisas podem degringolar, caso o governo não ceda à demanda da Associação. "[No presídio] Tá uma bomba relógio; daqui a pouco explode, é só o governo não liberar visita que explode!" As mulheres aplaudem a notícia. Ele continua: "Lá o negócio vai pegar na chapa, o pessoal vai gritar, pessoal vai pegar na chapa, nós já estamos há um ano sem visita".

Com ajuda das mulheres, ele pede um Uber de volta para casa. O valor da corrida é de R$ 75, que ele combina de pagar em dinheiro quando chegar ao destino. Em poucos minutos, desaparece num carro prata, deixando as militantes para trás.

Vigília estruturada

A Associação estava ocupando aquele cantinho ao lado da penitenciária havia três dias. Cadeiras de plástico se misturavam às de praia numa roda de confraternização onde descansavam do dia quente — e de muitas agitações. Em poucos minutos, metade das mulheres iria embora, deixando somente cinco para dormir ali e defender o território.

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Mulheres de detentos fazem vigília em frente à Penitenciária de Florianópolis
Imagem: Isadora Camargo

O risco existe: assaltantes, homens maldosos e incômodos com a Polícia Militar são hipóteses levadas em conta pelas ativistas. Durante o dia, chegam a participar até 50 mulheres, dividindo-se entre diferentes funções de cuidados com a alimentação, a limpeza, a manutenção das barracas e o ato de protestar em si.

Durante a vigília, angariam comida por doações de familiares e de transeuntes que se tocam pela luta. Para que os alimentos frios não estraguem, contam com a ajuda de um mercadinho logo ao lado da ocupação. Esse mesmo estabelecimento oferece a tomada para que elas possam ligar a caixa de som de 1000 W, que toca a trilha sonora das manifestações.

A música selecionada pode ser tanto algum gospel sofrido quanto um funk sobre a vida de detento, como "Alvará", do MC Bobô. Giele Maria Hilare (31), uma das três lideranças fundadoras da associação, comanda o protesto — que dura entre 5 e 10 minutos. Com balões brancos nas mãos, começam a se mover de um lado para o outro enquanto o apito soa ao ritmo da música. Só então largam o que estão fazendo para gritar as palavras de ordem: "Família na rua, Estado, a culpa é sua!"

Elas se reúnem na frente da entrada da penitenciária e trancam as duas vias da rua, impossibilitando tanto a passagem de quem vai para a UFSC quanto a de quem vai para o centro. Quase todas as manifestantes levam apitos consigo.


"Atrapalhando" o tráfego

O trânsito na região dos protestos muitas vezes dobra as esquinas — e o que já era barulhento se torna ainda mais perturbador com a adição das buzinas desenfreadas. No dia 9 de fevereiro, uma das manifestações, ocorrida às 15h40, contou com a chegada de duas viaturas da PMSC para uma breve conversa.

Curiosos e insatisfeitos com a manifestação, dois agentes penitenciários se posicionaram contra a varanda da torre de observação da saída do presídio para integrar a discussão. Giele tomou a frente e dialogou com a policial que representava a corporação ali. Enquanto conversavam, um militar saía do carro com uma pistola empunhada; observava-as com paranóia, assentando as emoções após algumas olhadas. Guardou a pistola no coldre e só então se juntou ao grupo. O saldo final daquela aglomeração foi um aviso para que tomassem cuidado com os motoristas, pois alguns poderiam sair do controle e atropelá-las.

Tarde demais para o aviso. Às 13h daquele mesmo dia, um Chevrolet Prisma 2011, cor prata, saiu da fila causada pela manifestação e avançou na contramão, indo de encontro às mulheres. Quando se aproximou, freou momentaneamente. Algumas delas puseram a mão no capô e repetiram: "Volta, querido. Tá todo mundo respeitando." Ele não abaixava o vidro de jeito algum, mantinha-se inerte, com o carro ligado perto delas.

Após 30 segundos de tensão, ele aumentou o giro do motor e acelerou contra as garotas, ferindo o joelho de Claudia Camilla (29), uma jovem que espera pela soltura do marido, preso por tráfico de drogas, há mais de dois anos.

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Mulheres de detentos fazem vigília em frente à Penitenciária de Florianópolis
Imagem: Isadora Camargo

As ativistas anotaram a placa do veículo e filmaram o acontecimento. Claudia passou o resto do dia mancando, mas não arredou o pé da ocupação. "[A perna] Tá doendo bastante, mas tô aqui com as gurias. [Tô com] queimaduras de ontem do sol, mas a gente tá aí, na luta", desabafa.

Giele explica que ataques contra o grupo são frequentes, mas que não ocorreram no ano passado, quando executaram o mesmo protesto pelas mesmas demandas. Elas começaram seus protestos em setembro de 2020, na região do presídio de São Pedro de Alcântara, a 34 km da capital. Como a cidade era muito pequena (com 5 mil habitantes), de pouco adiantava a manifestação; não havia ninguém para vê-la.

Mudaram, assim, para a Penitenciária de Florianópolis — cujas vias são essenciais para locomoção da região central e universitária. Passaram 14 dias acampadas lá, recuando somente após promessa de que em breve as visitas seriam retomadas e após a conquista da videochamada para os presos de São Pedro de Alcântara. Oficialmente, são 15 minutos de conversa em uma chamada mensal — que, na prática, acaba durando oito a doze minutos, segundo familiares.

Sem perspectiva de cumprimento do acordo por parte do governo de Santa Catarina, elas retornaram ao local neste fevereiro. Além da visitação, elas reivindicam: o retorno dos presos para as etapas do plano preliminar de vacinação para a covid-19; o direito do preso de se vacinar em clínica particular; a antecipação de progressão de regime para os presos do regime fechado; e a volta do trabalho externo.

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Mulheres de detentos fazem vigília em frente à Penitenciária de Florianópolis
Imagem: Isadora Camargo

Dez minutos após a saída de Gean, Mateus Santos (19) deixou a prisão após absolvição — e seguiu o caminho do colega de penitenciária ao ser recebido por palmas e urros emocionados. Careca e com tatuagens de cruz e lágrima no rosto, o jovem seguia feliz, mas taciturno. Era a sua segunda prisão e, pelo menos dessa, saiu com uma recepção calorosa de pessoas que já conhecia. As chamava de cunhadas. Elas também usavam o vocativo entre si.

Com a namorada ao lado e um Uber por chegar, Mateus contou que, durante as chamadas de vídeo, os detentos são obrigados a passar álcool em gel e usar máscara enquanto são observados por dois agentes que ficam do lado oposto da sala, ocultos da câmera. Essa presença de servidores penitenciários no momento da ligação acaba por inibir os detentos de se manifestarem livremente, explica ele.

Os cuidados com a covid, por sua vez, só servem para as ligações, mesmo que o estado já tenha tido 2.463 casos no sistema prisional e no socioeducativo, segundo o boletim da Secretaria de Estado da Administração Prisional e Socioeducativa de Santa Catarina.

As celas costumam estar ocupadas por cinco pessoas e, nelas, não há qualquer cuidado quanto à pandemia — o que não parece gerar muita preocupação em Mateus. Há dois meses sem TV e rádio, os presos, relata, não têm contato com o mundo exterior. Isso dá às manifestações da associação uma relevância ainda maior para eles.

Saber dessa importância dá ainda mais gás a elas. Sem previsão para o fim da manifestação, sujeitam-se a encarar não somente a agressividade dos motoristas, mas também calor insuportável, infestação de baratas durante a noite e dias de chuvas torrenciais que comumente derrubam a tenda e a lona do acampamento. Enquanto não houver um acordo que considerem confiável, não sairão de lá.