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Narradoras de podcasts eróticos contam como é fazer pornô ao pé do ouvido

Raphaela Santana é a voz por trás da Beth, narradora do podcast da Pantynova Imagem: Arquivo pessoal

Letícia Naísa

Do TAB

08/04/2021 04h00

"Você está me ouvindo bem?", pergunta Abhiyana do outro lado da linha. Com uma voz leve e naturalmente rouca, ela reclama do sinal da internet, que interrompeu sua consulta de constelação familiar online no dia anterior. Respondo que consigo ouvi-la muito bem, sim. Ouço sua voz de forma alta e clara, assim como pude ouvi-la da saída de som do meu celular, horas antes, quando dei o play em seu podcast.

Na cozinha de casa, a voz de Abhyiana narrava um conto erótico enquanto eu esquentava o almoço, pouco antes da nossa entrevista. "Se tem uma coisa pra qual minha voz serve é pra narrar putaria", brinca a artista, pelo telefone. "Minha voz é muito sexy!"

Abhiyana é a voz por trás do podcast "Textos Putos", homônimo de seu livro, lançado em 2019. Fã de arte erótica, a autora ilustra seus livros com fotos do próprio rosto e, claro, corpo. "Tenho uma necessidade quase urgente de me expor artisticamente dessa forma", explica. Formada em comunicação social, Abhiyana largou o mundo corporativo para se dedicar à arte erótica.

O tesão de Abhiyana pelo que faz é nítido em sua voz. Com a mesma firmeza que narra histórias eróticas, no telefone, ela diz que o sexo lhe dá coragem. Com o livro, se assumiu a "putona" que gosta de ser. "Quero que as pessoas se sintam incomodadas com suas vidas sexuais, mas não no sentido negativo", argumenta. "A sexualidade é o nosso chão, a base da humanidade. Pra gente estar aqui, um dia nossos pais treparam e gozaram. Energia sexual é uma energia vital", reflete.

Seus textos, tanto escritos quanto falados, são de autoria própria e baseados em experiências reais, tendo o sexo como protagonista. Para produzir o segundo volume do "Textos Putos", ela diz que transava e escrevia em seguida. "Vou trepar porque eu quero escrever." Seu único cuidado é não expor ninguém diretamente, com descrição física ou nome, porque, de resto, tudo é bastante explícito.

O podcast nasceu com ajuda de um amigo que se interessou pelo seu trabalho e por sua voz. "Eu tinha um grupo no Telegram em que narrava algumas histórias, fazia podcasts curtos direcionados para o grupo e alguns vídeos caseiros. As pessoas me pagavam por isso", conta. "Aí o Newman Costa, que trabalhava em uma agência, sugeriu da gente gravar e ele me dirigiu", lembra. Com o tempo, Abhiyana colocou suas habilidades como atriz na brincadeira e foi deixando a narrativa mais natural. Os relatos têm um pouco de atuação, mas muito do coração.

"É como se eu tivesse ali naquele quarto escuro, eu e você [o ouvinte] falando aquela putaria gostosa que eu quiser no seu ouvido", diz Abhiyana com uma voz tão sensual que poderia arrepiar quem escuta. "Isso demanda também falar com o coração e ter coragem", completa, normalizando a voz. Para ela, o podcast erótico tem esse poder de despertar uma fantasia que vai muito além da pornografia visual.

Atriz como Abhiyana, Aline Esha é a voz por trás de Marquesa, narradora de alguns episódios do podcast do Sexlog, rede social brasileira voltada para encontros sexuais. Marquesa também acredita que os podcasts de contos eróticos são uma nova forma de estimular a sexualidade para além da pornografia visual, — tão problematizada, principalmente por conta da exploração do corpo das mulheres. "É um lugar de mais naturalidade e de menos performance", defende. Para ela, os podcasts fazem parte de um momento que ela chama de "pós porn", que valoriza uma pornografia menos artificial. "Acredito que a pornografia mainstream é realmente prejudicial, mas é possível fazer pornografia de qualidade e de uma nova forma", diz.

As histórias que Marquesa narrou no Sexlog são escritas normalmente por usuários da rede social ou outros roteiristas, não são de própria autoria — o que gerava um desafio a mais. "Eu tentava entrar naquela história, me imaginava naquela cena, narrava a forma como eu me sentiria ali", conta. "São histórias muito diferentes e algumas muito fetichizadas, então eu adaptava para se adequar à minha boca, ao meu jeito de falar."

Além de narradora, Marquesa é terapeuta tântrica e performer burlesca, um tipo de striptease. Por conta do seu envolvimento com esses movimentos que exploram a sexualidade, sua voz é tão expressiva quanto seu corpo. Sua personagem, Marquesa, nasceu a partir do trabalho com a dança burlesca.

A criação de uma persona para narrar podcasts eróticos é comum entre as mulheres para evitar o assédio, mas também para criar um mistério. A Malu, do podcast "Gozei Malu", não revela seu nome verdadeiro, um pouco por privacidade, um pouco por estratégia. "Fazer mistério é um fator de engajamento maior, dá margem para imaginação", afirma. "E isso vai na contramão do pornô visual, a ideia é que cada pessoa que me ouve possa imaginar essa figura da Malu como desejar", explica. Como a pornografia visual tem uma saturação de imagem, deixar a figura de Malu livre para o ouvinte imaginar virou uma espécie de missão, visão e valores de seu trabalho.

Malu não tem rosto nem corpo, mas tem voz e uma personalidade completa. Ela é Malu Figueira, uma mulher balzaquiana, que tem entre 30 e 40 anos e é pansexual. As histórias que narra no ouvidinho de quem está do outro lado são de autoria própria, saem tanto de sua imaginação e suas fantasias sexuais quanto de experiências pessoais.

Com um sotaque neutro e uma voz delicada, a persona por trás da Malu também faz parte da cena burlesca e da militância queer, dois movimentos que influenciam seu trabalho. A personagem nasceu durante a pandemia, quando a atriz e cantora que a interpreta se inscreveu em um concurso de vozes da plataforma Tela Preta — aplicativo de áudios eróticos e ASMR.

Profissional da voz, a mulher por trás de Malu tem consciência da fetichização que existe em torno de sua fala. "Objetificam tudo o que é feminino", observa, citando o caso do filme "Ela", em que um homem se apaixona pela voz de uma inteligência artificial. "Mas quero acreditar que os áudios são uma alternativa à pornografia mainstream, tem um caminho interessante acontecendo", reflete.

No privado, todas as narradoras comentam que recebem retornos de pessoas que realmente gozam ouvindo seus áudios eróticos. Para Beth, isso foi uma surpresa muito agradável. "Como mulher trans, sempre tive vergonha da minha voz, sempre foi algo que me evidenciava. Quando começaram a falar que gostavam da minha voz, achava que era pegadinha", relata. Beth é narradora do podcast da Pantynova, uma sexshop online. Os bordões "e aí, gatinha?" e "senta que lá vem a putaria" viraram sua marca registrada.

Quem criou a Beth foi a Raphaela Santana, que trabalha no marketing da Pantynova. "Fanfiqueira" desde sempre, ela começou a narrar alguns dos contos de autoria própria, de brincadeira, para amigas que gostaram e sugeriram que ela se tornasse a voz da marca. Beth às vezes conta histórias escritas por ela, às vezes de outros autores.

O podcast foi lançado há três anos, mas bombou durante a pandemia e chegou a ter 2.500 ouvintes por semana. O sucesso da Beth marcou a vida de Raphaela. "Mudou minha visão sobre sexualidade, posso ajudar outras mulheres a explorar mais esse assunto, criar uma conversa e desconstruir esse tabu", afirma. Beth se tornou tão popular que Raphaela resolveu dar sua cara à personagem e "sair do armário". "As pessoas ficavam muito curiosas, aí, como a gente fala que a mulher não precisa ter vergonha de falar sobre sexo, acabou caindo em contradição a Beth ser omissa, então resolvi dar o meu rosto a ela", conta.

Raphaela Santana é a voz por trás de Beth, narradora do podcast da Pantynova Imagem: Arquivo pessoal

Entre o público que mais consome os podcasts eróticos aqui citados, segundo as narradoras, estão as mulheres. Para Malu, os podcasts também ocupam um lugar livre de culpa. Em seu Instagram, 65% do público é feminino. "Existe um ranço do pornô, mas todo mundo consome às escondidas, com vergonha, porque é um fast food, te faz gozar rápido, aí o áudio é uma alternativa", argumenta.

Raphaela torce para que os podcasts sejam cada vez mais comuns entre homens e mulheres, sejam cis ou trans. "Nos vídeos tem muita exploração do corpo feminino, uma imposição de padrão, uma simulação do orgasmo. Nos contos, você tira essa ênfase de mercado e deixa em aberto para o leitor ou ouvinte imaginar."

O público do livro de Abhiyana era majoritariamente masculino, mas dos áudios, feminino. "Eu falo de boceta pra boceta, de clitóris pra clitóris e vejo que isso toca muitas mulheres", diz. "E esse é o poder de um podcast erótico, toca o coração das mulheres também, porque o tesão está na imaginação, ocupa um lugar que estava vazio nas nossas mentes. Nós somos muito potentes sexualmente."

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