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Ócio: tempo totalmente livre é acessível a todos ou privilégio dos ricos?

Dan Burton/Unsplash
Imagem: Dan Burton/Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

13/05/2021 04h00

Lembra quando, em março de 2020, só se falava em fazer pão, assistir a todas as séries disponíveis na Netflix ou aprender a bordar usando as extensas horas livres que teríamos nas mãos ao trabalhar de casa?

Quem teve o privilégio de ficar protegido em home office logo descobriu que todo aquele tempo (antes gasto no trânsito para ir e voltar do escritório) não se converteu em lazer ou descanso, mas sim em mais trabalho — seja o trabalho que dá dinheiro, ou então aquele não remunerado, dos cuidados com a casa e os familiares. Ansiedade, burnout e depressão aumentaram, também por influência do cenário de luto e medo generalizados causados pela pandemia.

Sortudos os que conseguiram fugir para o mato e desconectar — as casas isoladas para alugar viraram até oportunidade de negócio. Mas será que descansar sem propósito virou luxo só agora ou sempre foi privilégio de quem tem dinheiro? Será que a pandemia apenas escancarou essas desigualdades? E será que todos nós somos capazes de cultivar o ócio, mesmo sem a possibilidade de alugar um chalé silencioso nas montanhas?

Democrático em essência... José Clerton de Oliveira Martins, pós-doutor em estudos do ócio pela Universidad de Deusto, na Espanha, e professor da Unifor (Universidade de Fortaleza), defende que esse estado é sim para todos e que faz parte da nossa condição humana. Alguns acabam tendo mais tempo para não "fazer nada" e dedicar-se a si mesmos; outros, menos. O que conta, no ócio, é o que fazemos desses momentos livres. "Nós não costumamos pensar no estado contemplativo e meditativo como algo que se convoca para todos os sujeitos. Achamos que o contemplativo e o meditativo, intelectual, é privilégio de rico. Mas, se você for ver, os escravos da Grécia trabalhavam menos do que os executivos de hoje", exemplifica o professor.

... mas nem sempre acessível. Não é porque o ócio esteja à disposição de todos que ele seja visto da mesma maneira pela sociedade, dependendo de quem o pratica. Se para alguns ele tem ares de autocuidado, outros são taxados de preguiçosos. E, mesmo entre quem tem dinheiro, o escasso tempo fora do trabalho acaba sendo regido pelo capital: nesse caso, o consumo, explica Angela Teberga, professora do curso de Turismo da UFT (Universidade Federal do Tocantins). "Enquanto para as classes mais altas tempo livre é sinônimo da indústria de viagens, da indústria cultural da qual você precisa fazer parte e consumir, o trabalhador de classe social mais baixa tende a construir esse sentido de tempo livre como descanso — são as horas em que ele passa se deslocando para o trabalho, ou dormindo." Em uma sociedade que preza pela produtividade, não é tão comum encontrar alguém que reserve um tempo para não ter propósito algum. Aliás, estamos acostumados a opor "trabalho" e "tempo livre", numa associação automática de que as atividades feitas fora do escritório são escolhas livres e individuais. Mas nem sempre é assim, pondera Teberga. Em suas pesquisas sobre o tema, a professora prefere inclusive usar o termo "tempo de não trabalho".

Então o que exatamente é ócio? Ócio não é necessariamente sinônimo de descanso absoluto, mas também não pode envolver nenhuma atividade com objetivo além dele próprio. "Não existe um fim no ócio que não seja ele mesmo", define Martins, da Unifor. "É o teu âmbito de apropriação de ti, onde você se entrega ou se emprega a experiências transformadoras de você. Que você escolhe não para vender, não para dar nada para ninguém, não para ser mais bonito, mais importante, mais chique. É em prol da tua recreação existencial." Não chega nem a ser um tempo, necessariamente, mas sim um estado mental, reforça o professor. Soa filosófico, e é mesmo. Normalmente liga-se o conceito de ócio exatamente ao pensadores gregos que defendiam a importância do tempo alheio às atividades da polis para ter pensamentos livres e inovadores.

Ócio e criatividade. Aí caímos numa aparente contradição: se o ócio não deve servir a nada, mas ele é necessário para a nossa criatividade, quando decidimos não fazer nada com o objetivo de produzir melhor, ainda é ócio? "Os ideais do poder não estão ligados à tua felicidade e bem-estar, e o ócio está muito ligado a isso. Ele necessariamente não te convoca uma produtividade para o sistema. Ócio te convoca uma criatividade, uma reinvenção para você expressar o teu talento, a tua potência única, que só você tem", explica Martins. Portanto, a produtividade e a criatividade no trabalho podem (e costumam ser) resultados do estado de ócio, mas não precisam ser seu fim. "Para isso, você tem que se dedicar em âmbitos de investimento próprio: cultura, observação, ficar tempo no estado contemplativo de entender qual o teu lugar no mundo, de pensar muito sobre a vida, de pensar sobre o que faz sentido e o que não faz sentido", afirma o professor. Nessa linha, há inclusive o conceito de ócio criativo, do italiano Domenico de Masi, que integra trabalho, lazer e aprendizado de forma que o indivíduo se sinta mais realizado.

"Mente vazia, oficina do diabo". Você deve conhecer a expressão que evoca a ideia de que o ócio só serve para gerar pensamentos ruins, ações impensadas ou, em termos mais coloquiais, vagabundagem. Pensando nisso, tentamos ocupar nosso tempo de não trabalho com atividades que tenham propósito, em vez de cultivar o ócio. É só ver a agenda das crianças: aulas de inglês, natação, piano... O tempo está sempre preenchido por uma atividade com objetivo. Para Martins, a ideia de que o ócio é "oficina do diabo" se perpetua porque corresponde a interesses de poder: "O ócio te convida a pensar e refletir, e você só vai para esse lugar quando você é afetado por algo. Aí você vai pensar: por que eu faço isso? Por que esse trabalho é dessa forma?", exemplifica.

E vai ser sempre assim? Alguns países já começam a discutir a redução da jornada de trabalho, seja diminuindo o número de horas diárias, seja oferecendo três dias de folga semanais aos funcionários. Não seria uma indicação de que os "donos do capital" estão mais preocupados com o descanso e com o ócio dos trabalhadores? Para Teberga, isso é uma parte pequena da equação."É sim um ganho importante para a classe trabalhadora, que vem lutando há muito tempo pela redução de jornada. Mas veja que sempre que se fala do tema, é exatamente sob o ângulo do aumento da produtividade. Esse aumento de tempo livre, na verdade, serve como uma fonte de energia pro trabalhador, que deverá voltar ao trabalho mais disposto, mais descansado", analisa ela. Se o descanso serve como objetivo de recuperação para as outras atividades, perde seu sentido original.

Revolução pessoal. Fica nas nossas mãos, portanto, cultivar esse ócio como propósito. Sem vontade individual, não é possível desfrutá-lo, afirma Martins, e as consequências disso são pessoas cada vez mais cansadas, esgotadas, sem sentido de propósito e deprimidas. A pandemia vem dificultando ainda mais esses momentos, pois causa uma desterritorialização, segundo o professor. Não há mais o espaço do trabalho e o espaço do lazer, o horário de estar conectado e o horário de se desligar das tarefas do dia. Retomar esse espaço e voltar-se para o estado de contemplação da existência, seja com atividades prazerosas ou simplesmente o dolce far niente — o prazer de não fazer nada — exige reeducação, defende ele. "Meu orientador de projeto de pós-doutorado dizia: 'Clerton, o ócio é acessível a todas as pessoas, mas nem todas as pessoas acessam o ócio.' A gente sofre com o excesso de informação e de direcionamento a ser um operário, um executivo, alguém que trabalha. Não existe educação para você refletir, meditar, contemplar. Sem o lugar da experiência com sentido, não há aprendizado, não há conhecimento, não há aplicação, há apenas o informacional."