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Na cidade da padroeira do Brasil, 70% dos moradores estão sem trabalhar

Carlos Eduardo Santos Silva e o balconista André, em frente à banca em Aparecida (SP) - Thaís Lacaz/UOL
Carlos Eduardo Santos Silva e o balconista André, em frente à banca em Aparecida (SP)
Imagem: Thaís Lacaz/UOL

Thaís Lacaz

Colaboração para o TAB, de Aparecida (SP)

06/06/2021 04h01

Sábados começam tímidos em Aparecida, porque em primeiro lugar vem a fé. A cidade acorda para se congregar em um destino certo: o Santuário Nacional, o templo que abriga a imagem da padroeira do Brasil. Naquele dia, o sol da manhã não dizia muito a que vinha.

Os comerciantes acertavam as mercadorias sobre a lona em suas barracas. No setor quatro da Feira Livre de Aparecida — são oito no total —, de onde é possível avistar a cobertura azul do Santuário, Carlos Eduardo Santos Silva, 25, mantém há sete anos uma banca de ferramentas, utensílios de cozinha, lâmpadas e uma infinidade de peças e objetos ao gosto do freguês.

Em 2014, durante o último ano no ensino médio, juntou uma grana trabalhando na loja de familiares e passou a vender produtos nos dias de funcionamento do mercado a céu aberto, de sexta-feira a domingo.

A manhã vai passando e o burburinho cresce. Sons e barulhos se entrecruzam em desarmonia. O clima é de expectativa: o movimento de romeiros e turistas tem sido escasso desde 2020, em virtude das restrições sanitárias impostas pela pandemia. Nenhuma promessa de bons tempos vingou ainda.
Apesar disso, os trabalhadores no local transmitiam otimismo. No trailer Dois Irmãos, comprado por Carlos em 2020, dois ajudantes faziam os últimos ajustes no mostruário, na expectativa da bagunça das compras depois.

Os fregueses iam surgindo. Quem passasse por lá ouviria André, um dos auxiliares, dizer "Bom dia, fique à vontade" ou "Bom dia, pois não?" como forma de chamar a atenção da clientela.

Setor quatro da Feira Livre de Aparecida (SP) - Thaís Lacaz/UOL - Thaís Lacaz/UOL
Setor quatro da Feira Livre de Aparecida (SP)
Imagem: Thaís Lacaz/UOL

No intervalo entre uma venda e a espera do próximo comprador, os vendedores conversavam entre si, zombavam uns dos outros, davam palpites sobre as partidas de futebol do dia anterior e conjecturavam a respeito dos jogos que estavam por vir.

No meio dessa atmosfera, músicas pop e sertanejas tocadas no rádio ao lado faziam as vezes de trilha sonora, misturando-se, por exemplo, à voz do locutor que vinha de um aparelho na banca em frente e fornecia atualizações sobre a situação da pandemia. Conforme o boletim epidemiológico mais recente, divulgado pela prefeitura na quarta-feira (2), Aparecida contabiliza 2.883 casos confirmados de covid-19 e 87 mortes.

O fluxo de público na feira é diretamente proporcional à frequência das missas que ocorrem às 9h. Essa espécie de termômetro marca a temperatura do comércio e indica se o dia será lucrativo ou não. De fato, a movimentação foi aumentando pouco a pouco, após o fim da celebração. Mas está longe dos tempos áureos.

Carlos e os colegas beliscam bolachas ou compram salgados e bebidas em algum dos carrinhos espalhados pela feira. Um ambulante, por exemplo, escolheu utilizar um imitador de Silvio Santos como estratégia de venda. O sósia do apresentador oferecia empadas de brócolis, frango e frango com requeijão, todas à disposição dos passantes que estivessem com fome.

A certa altura, fiscais da prefeitura passaram para fazer uma inspeção para averiguar se as normas definidas pelo município estão sendo respeitadas. O decreto publicado em setembro de 2020 determina que a reabertura da feira e a retomada das atividades no espaço estão atreladas ao cumprimento das regras determinadas pelo poder executivo municipal. Em março de 2020, como forma de evitar a propagação da doença, a feira foi suspensa. De acordo com as instruções do regulamento, o uso de máscara é obrigatório e todas as bancas precisam disponibilizar álcool em gel 70%. Além disso, segundo o protocolo, as vendas devem acabar às 17h.

Ambulante na Feira Livre de Aparecida (SP) - Thaís Lacaz/UOL - Thaís Lacaz/UOL
Ambulante na Feira Livre de Aparecida (SP)
Imagem: Thaís Lacaz/UOL

Um vendedor sem sonhos

Com raízes no interior do Paraná pelo lado materno e do Piauí na vertente paterna, Carlos seguiu os passos de seus antecessores que fixaram-se em Aparecida em 1986: aos 11, já era vendedor de materiais de construção. "Não gostava quando era criança por ciúme, pois era um compromisso que afastava meus pais de mim e também me afastava de algumas experiências de infância e adolescência."

Apesar da rotina exaustiva e interminável, dividida entre os dias de compra de mercadorias na capital e a montagem da banca, ao longo das manhãs de sextas-feiras, não está nos planos de Carlos mudar de profissão — afinal, a base de sustento de sua família reside na renda (aproximadamente dois salários mínimos) obtida por meio de seu trabalho como comerciante.

Casado e com uma filha, Carlos não integrou o vasto grupo de brasileiros que tiveram acesso ao auxílio emergencial em 2020. "No momento não posso me dar ao luxo de tentar ou arriscar tanto. Sonhos demandam tempo, maturidade, preparação e cautela, coisa que eu busco tentando garantir primeiro um bom futuro pra minha filha. Essa é a estrada da minha história, caminho de onde eu vim e pra onde eu vou, pra que um dia meus filhos e netos possam ser mais livres."

Mercadorias na banca Dois Irmãos, na Feira Livre de Aparecida (SP) - Thaís Lacaz/UOL - Thaís Lacaz/UOL
Imagem: Thaís Lacaz/UOL

Ponto turístico na capital da fé

Considerada um dos pontos turísticos de Aparecida, a Feira Livre reúne 2.308 ambulantes licenciados e gera cerca de cinco mil empregos diretos. Montá-la, limpá-la, vigiá-la, dar de comer a quem trabalha ali gera outros 6 mil postos de trabalho.

Com uma população de pouco mais de 36 mil habitantes, a cidade tem enfrentado dificuldades econômicas. Por causa das medidas de isolamento e distanciamento social, a suspensão do turismo religioso provocou um efeito dominó em todos os níveis.

Para piorar, o desemprego assombra Aparecida de modo impiedoso. Com a cidade toda parada, a secretaria de Comércio, Indústrias e Serviços estima que de 70% a 80% dos habitantes estão sem trabalho.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação enfrentada pelo município, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2018 a taxa de pessoas ocupadas em relação à população total era de 36,9%.

A falta de dinheiro afetou também o setor imobiliário. De acordo com a prefeitura, 70% dos aluguéis estão atrasados. Os impactos e prejuízos ocasionados pela covid-19 no município mobilizaram o poder público local, a ponto de o prefeito Luiz Carlos de Siqueira (Podemos), conhecido pela alcunha de "Periquito", pedir ajuda num programa de televisão. Após o anúncio, cestas básicas enviadas de todos os cantos do país tiveram Aparecida como destino.

A cidade, que chegava a receber em torno de 13 milhões de peregrinos anualmente, foi visitada por apenas 3 milhões de pessoas em 2020, segundo a assessoria de imprensa da atual gestão.

Em estado de espera, Aparecida reflete uma imagem desbotada. Nas ruas e esquinas, o desalento salta aos olhos; lojas e restaurantes vazios, pouca circulação de pessoas e nenhum sinal de melhora. Os habitantes aguardam, ainda que um tanto ressabiados, a tão almejada recuperação.