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Na porta do Consulado da China, ala católica reza por reabertura de igrejas

Membros do Centro Dom Bosco rezam em frente ao Consulado da China no Brasil, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro - Reprodução/ YouTube
Membros do Centro Dom Bosco rezam em frente ao Consulado da China no Brasil, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro Imagem: Reprodução/ YouTube

João Diniz

Colaboração para o TAB

07/04/2021 04h00

"Salve Maria santíssima!", "Viva nosso pai São Dom Bosco!", "Viva São Francisco Xavier!". As frases de saudação eram respondidas em coro, com efusivos "Salve!" e "Viva!", por um grupo de pessoas reunidas do outro lado da rua onde fica a sede do Consulado da China no Brasil, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Na noite daquela terça-feira, 30 de março, eles colocaram uma imagem grande de Nossa Senhora de Fátima na calçada e ficaram em torno dela. Um homem, ao lado da estátua, segurava uma cruz com um Cristo afixado. E assim, ali, rezaram o rosário por mais de uma hora, pedindo aos santos que convertessem os chineses ao catolicismo e livrassem os brasileiros da "besta comunista" que, segundo eles, assola o mundo, sobretudo o Brasil.

A reza, transmitida ao vivo no YouTube e acompanhada por mais de 500 pessoas, faz parte de um movimento organizado por católicos conservadores contrários ao fechamento temporário de igrejas no Brasil -- devido às medidas de contenção da pandemia -- e propagadores de um discurso ideológico anti-China.

"Há alguns anos, a China assumiu o protagonismo na propagação dos erros da Rússia pelo mundo. Com a crise ocasionada pela covid, o papel da China como propagadora desse mal se tornou ainda mais evidente", dizia Pedro Affonseca, antes de começar a oração. "Por outro lado, fica cada vez mais claro que o papel de guardar a fé católica no mundo caberá ao Brasil."

Na transmissão daquela noite, alguns homens apareciam diante da câmera, todos sem máscara, incluindo Affonseca, que vestia terno e gravata. Uma chuva forte desabou sobre três deles nos dez primeiros minutos do rosário e os deixou ensopados. Dos outros participantes só ouvíamos as vozes.

Rogai por nós

Pedro Luiz Oliveira de Affonseca, 34, é presidente do Centro Dom Bosco, associação de católicos leigos que já judicializou diversas ações em defesa de valores conservadores. Em 2020, por exemplo, eles foram autores do pedido que levou a Justiça do Rio de Janeiro a censurar o especial de Natal do programa "Porta dos Fundos" -- e também conseguiram na Justiça de São Paulo proibir a ONG Católicas pelo Direito de Decidir de usar "católicas" no nome.

Foi Affonseca que conduziu a reza em frente ao Consulado da China. "Pelo povo brasileiro e pelo povo chinês, dois povos muito sofridos", disse. "O povo chinês talvez ainda mais, porque, sob uma aparência de progresso econômico, vive na maior das misérias que é a espiritual, porque não pode professar livremente a fé católica."

Na China há aproximadamente 12 milhões de católicos, mas a maioria pertence à Associação Patriótica, uma Igreja Católica criada há mais de 60 anos e controlada pelo governo chinês.

Com o início da pandemia do coronavírus no ano passado, o Centro Dom Bosco passou a encabeçar discussões contra as medidas de estados e cidades do país que decidiram fechar igrejas e limitar cultos religiosos a fim de evitar aglomerações. Uma série de vídeos e lives vem sendo publicada nos perfis da associação nas redes sociais, criticando dioceses que cumprem essas normas, e, mais recentemente, endossando revelia à Campanha da Fraternidade de 2021, cujo texto assinado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) repreende a "negação da ciência" e a "cultura de violência" contra mulheres, negros, indígenas e a população LGBTQI+.

Essas "ameaças sempre presentes", segundo o presidente do Dom Bosco, estão diretamente ligadas a uma possível ditadura que o Partido Comunista Chinês tenta difundir pelo mundo. "Nada mais natural que essa potência [econômica] tente difundir os seus erros pelo mundo e subjugar as demais nações, através de todas as frentes e expedientes possíveis e imagináveis", acredita.

Pedro Affonseca, 34, presidente do Centro Dom Bosco - Reprodução/ YouTube - Reprodução/ YouTube
Pedro Affonseca, 34, presidente do Centro Dom Bosco
Imagem: Reprodução/ YouTube

Que recorremos a vós

A pandemia, como fez com o mundo inteiro, atingiu em cheio a Igreja Católica. E os números provam. Somente no Brasil, de acordo com a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), até o início de março mais de 1400 padres brasileiros foram infectados com o vírus, e 65 deles morreram.

Apesar do contragosto de grupos como o Centro Dom Bosco, recrudescer as regras de funcionamento das igrejas católicas, desde o início da pandemia, no ano passado, é uma decisão que vem de longe e de cima. De Roma.

Mais recentemente, em fevereiro, o Vaticano publicou uma nota para orientar bispos sobre as formas de celebração dos ritos do período pascal, frisando a necessidade de seguir regras sanitárias. A pandemia "trouxe muitas mudanças também na forma usual de celebrar a liturgia", escreveram o cardeal Robert Sarah e o arcebispo Arthur Roche, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Além de estimular as celebrações de missas virtuais, o Vaticano também abriu mão de rituais como o lava-pés, que ocorria tradicionalmente na quinta-feira da Semana Santa. A Igreja sabe que essas decisões "nem sempre foram facilmente aceitas por parte dos pastores e fiéis leigos", segundo a própria nota --- como é o caso dos integrantes do Centro Dom Bosco. No entanto, deixou bem claro que a preocupação maior é o "respeito pelo bem comum e a saúde pública".

Para Pedro Affonseca, no entanto, passar a Semana Santa com igreja fechada "é uma verdadeira aberração, uma ofensa gravíssima a Deus e a negação de um direito natural dos fiéis". Como mercados e farmácias, o templo religioso é essencial, defende ele, porque nele é feito "o culto verdadeiro ao Deus Verdadeiro". "Não há como fazer isso de maneira exclusivamente virtual."

A cruzada

Acostumados a se resguardar de atividades na Semana Santa, principalmente a partir da quinta-feira, neste ano os integrantes do Centro Dom Bosco decidiram desfiar um rosário na porta do consulado chinês porque a causa era grande.

Naquela noite, foram 150 ave-marias e 15 pai-nossos, intercalados por listas de súplicas. Eles pediram a Deus que olhasse pelos representantes da Igreja no mundo, pelos católicos na China e também pelos brasileiros. Incluíram na conta as pessoas em situação de rua, pessoas que passam fome, os presidiários, os desempregados e os doentes. "Para que possam unir esse sofrimento à cruz de nosso senhor Jesus Cristo, e que esse sofrimento seja instrumento de sua conversão", pedia o líder, enquanto rezava.

Pediram ainda por todos "que estão nos erros do protestantismo, do anglicanismo, da igreja ortodoxa e em todo tipo de seita". Rogaram pelos governantes, pelos juristas e pelo poder Judiciário - "em especial, os 11 ministros do STF, pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes e pela a conversão de todos à fé católica", frisou Affonseca.

Debaixo de chuva, o grupo pede pela reabertura de igrejas na pandemia - Reprodução/ YouTube - Reprodução/ YouTube
Debaixo de chuva, o grupo pede pela reabertura de igrejas na pandemia
Imagem: Reprodução/ YouTube

"Ao invés de ser um instrumento nas mãos de Deus, para que a virtude cardeal da justiça reine no Brasil, o STF acaba por ser um instrumento nas mãos de Satanás, para a difusão dos maiores males em nossa nação", explicou, depois, em entrevista. "Por conta disso, nós devemos rezar e fazer penitência em ordem à conversão dos Ministros da Suprema Corte à Fé Católica, além de denunciar e combater publicamente os seus gravíssimos erros."

Com a rua já bem mais vazia e a chuva cessada, o grupo encerrou o rosário. Affonseca aproveitou o restinho de tempo para falar com quem assistia à live sobre o Centro Dom Bosco, os cursos oferecidos pela associação e para incentivar outras pessoas a iniciarem o que ele chama de cruzada de fé contra a ditadura comunista. Basta que rezem o rosário, não importa o tamanho do grupo que formem, explicou.

"Assim, a partir do Brasil, esse bastião católico do mundo, a China também seja católica", disse. "Amém", respondeu uma mulher.