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'Bacurau' hollywoodiano: filme 'A Caçada' condena liberais e conservadores

Emma Roberts em cena de "A Caçada" - Foto: Divulgação
Emma Roberts em cena de 'A Caçada' Imagem: Foto: Divulgação

Fernanda Ezabella

Colaboração para o TAB de Los Angeles

18/03/2020 04h00

Um grupo de americanos ricos e altamente armados se reúne para caçar outros humanos num lugar distante do planeta, mas é surpreendido quando suas vítimas reagem e decidem dar o troco. Quem pensou na trama de "Bacurau" (2019), errou.

Estamos falando de "A Caçada", estrelado por Hilary Swank e Betty Gilpin, cancelado nos EUA em agosto de 2019 após dois tiroteios deixarem 31 mortos em duas cidades norte-americanas, no mesmo dia. A produção — que na época foi criticada até mesmo pelo presidente Donald Trump — ganhou uma segunda chance — a Universal prometeu lançar filme "on demand" (por US$ 20) no final de semana, junto com outras produções atualmente em cartaz. No Brasil, estreia em 28 de maio.

O filme é uma sátira política de violência extremamente exagerada e cômica. São liberais contra conservadores, num jogo de gato e rato que se desenrola em uma cidade não identificada, até meados da história. Doze pessoas são drogadas e sequestradas de lugares diferentes do país e acordam em uma floresta. Logo, encontram um contêiner cheio de armas para que possam se defender do ataque iminente.

Muito barulho, pouca controvérsia

A direção é de Craig Zobel, pouco conhecido fora dos EUA, mas o roteiro é de Nick Cuse e Damon Lindelof — um dos nomes mais populares do momento em Hollywood. Lindelof é responsável pela série "Watchmen" e foi um dos criadores de "Lost" e "The Leftovers". A produção é de outro peso-pesado, Jason Blum, da franquia "The Purge" (2013) e "Corra!" (2017).

"Não fizemos nenhuma mudança no filme, só mixagem de som que não estava pronta", disse Lindelof no cinema lotado da American Cinematheque, no Egyptian Theater, em Los Angeles, na quarta-feira (11). "A única coisa negativa que estamos ouvindo, agora que começamos a mostrar o filme pela primeira vez, é que as pessoas estão um pouco decepcionadas que a história poderia ser ainda mais controversa. Comparada ao barulho que fez, é praticamente inofensiva", continuou, aos risos.

Assim como "A Caçada", o brasileiro "Bacurau" também causou acalorados debates sobre cinema e política. Premiado no Festival de Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fala sobre americanos invasores de uma cidadezinha no sertão pernambucano — mas, enquanto "Bacurau" toma partido dos sertanejos, caçados de forma aleatória por gente armada que se julga superior, "A Caçada" é equilibrado em tirar um sarro absurdo de ambos os lados do espectro político.

"Ouvi de um amigo [liberal] que viu o filme: 'Você foi pegou pesado demais com a gente'. E isso me tranquilizou, pensei: 'Ok, acho que acertamos a mão'", disse Lindolf. "A última coisa que queríamos era fazer um filme com mensagem ou com alguma moral. Nossa história ironiza completamente a ideia de um filme com moral."

Hilary Swank em cena de 'A Caçada' - Foto: Divulgação - Foto: Divulgação
Hilary Swank em cena de 'A Caçada'
Imagem: Foto: Divulgação

Nos dois longas, os caçadores usam drones — embora "A Caçada" não tenha a aura surrealista de "Bacurau", com o drone fantasiado de nave espacial ou droguinha dourada mágica. A violência é igualmente brutal, mas "A Caçada" aposta no absurdo (como, por exemplo, ser empalado vivo e continuar falando besteira).

"Bacurau hollywoodiano"

No evento na cinemateca, a reportagem do TAB perguntou aos roteiristas se eles haviam visto "Bacurau", mas os dois nunca tinham ouvido falar do filme brasileiro e ficaram curiosos para ver. "Pode soletrar o nome para mim, por favor?", pediu Lindelof.

Ainda assim, o Brasil ganha uma pequena citação, quando um dos personagens liberais pergunta sobre as favelas do Haiti para seu colega que foi ao país ajudar as missões humanitárias da ONU. "Favelas são no Brasil, não no Haiti", ele corrige.

Kleber Mendonça Filho, um dos diretores de "Bacurau", disse ao TAB que não viu "A Caçada", mas ouviu falar. "É um tema recorrente na história do cinema, não exatamente com o mesmo resultado", disse. "É uma dessas coisas muito inusitadas do cinema, quando os filmes [de temas parecidos] são pensados de maneira completamente diferente, de lugares totalmente distintos, e terminam saindo no mesmo ano ou mês ou até semana."

Ele lembrou de outra coincidência que aconteceu com seu trabalho anterior, "Aquarius" (2016), lançado na mesma época do impeachment de Dilma Rousseff. "Dua histórias de mulheres sendo despejadas de suas casas por homens", comentou.

As referências de Mendonça Filho e Dornelles para "Bacurau" também foram outras, como filmes de faroeste e conflitos armados como a Guerra do Vietnã e a Guerra do Afeganistão, onde os invasores pouco se importavam em entender a história dos invadidos. "Mas a maior referência foi mesmo 'Asterix'", disse Kleber Mendonça Filho, sobre a história em quadrinhos francesa, na qual uma pequena vila de bretões é invadida por romanos (e os locais tomam uma poção mágica para ficarem fortes e poderosos).

"Deploráveis"

Curiosamente, quem vai à caça em "A Caçada" são os liberais de elite, uma turma que costuma exigir mais regulamentação de armas no país. E os caçados são os "deploráveis", apelido que Hillary Clinton deu aos fãs de Trump e que uma das protagonistas do filme usa ao comentar o jogo com seus amigos (um dos "deploráveis" é um dono de podcast que espalha fake news).

Foi esse diálogo do roteiro que vazou para a imprensa em agosto e causou a ira de Trump. Em sua rede social, ele escreveu, sem citar o filme, que o longa havia sido feito para causar o caos. "Hollywood liberal é racista no maior nível (...) Eles criam sua própria violência e depois culpam os outros (...)".

Nick Cuse, parceiro de Lindelof nos roteiros de "Watchmen" e "The Leftovers", disse que ficou arrasado por meses após o cancelamento. "Eu genuinamente quis escrever algo para agradar todo mundo. E não porque tenho um coração bom, mas porque sou inseguro demais", disse. "Jamais queríamos alienar algum grupo."

Entre as inspirações para "A Caçada", a dupla citou alguns filmes, como "O Alvo" (1993), de John Woo com Jean-Claude Van Damme, "A Regra do Jogo" (1939), de Jean Renoir, e principalmente "The Most Dangerous Game" (1932), adaptação de um conto dos anos 1920 sobre uma caçada humana numa ilha da América do Sul (aqui, o caçador é um aristocrata russo e a presa é um nova-iorquino famoso por caçar animais em safaris).

A dupla achou que caçar humanos por puro esporte não seria uma boa motivação de personagem. "Achamos que revanche seria um bom motivo. Mas revanche do que? Bem, de zoeira na internet, claro! Não que isso tenha jamais acontecido comigo", disse Lindolf ironicamente, já que ele costuma receber muitas críticas online por seus seriados.

 Ike Barinholtz em cena de 'A Caçada' - Foto: Divulgação - Foto: Divulgação
Ike Barinholtz em cena de 'A Caçada'
Imagem: Foto: Divulgação

"Na TV, quando a gente mata um personagem, é sempre um processo cuidadoso. Há consequências, conversamos sobre o que vai acontecer com a série, com o próximo episódio, todo mundo fica de luto", explicou o roteirista. "Então, pensamos em como seria divertido fazer um filme onde matamos pessoas o tempo todo e não precisamos fazer nada disso. Desde o tempo dos gladiadores temos dentro de nós esse lado que ama ver outros humanos serem mortos — e com o cinema é ótimo, podemos fazer tudo de mentirinha."

Em "A Caçada", os liberais são liderados por uma executiva interpretada por Hilary Swank, ganhadora do Oscar por "Menina de Ouro" (2005) e "Meninos Não Choram" (1999). Sua antagonista é Betty Gilpin, a Liberty Bell da série de luta livre "Glow", no papel de uma mulher esquisitona, veterana de guerra que trabalha numa locadora de carros em Mississippi.

Antes de aceitar o trabalho, Swank quis conversar com os roteiristas. "Isso aqui é para ser engraçado?", ela perguntou, segundo Lindelof. "Porque eu achei engraçado. Mas se vocês querem fazer algo super sério com isso? bem, não sou a pessoa certa." Para alívio do roteirista, os dois estavam na mesma página.