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Covid-19: China "esconde" um terço dos testes positivos, diz CEO de jornal

China vive crescente onda de críticas em relação à condução da crise do novo coronavírus - Getty Images
China vive crescente onda de críticas em relação à condução da crise do novo coronavírus Imagem: Getty Images

Fernanda Ezabella

Colaboração para o TAB, de Los Angeles

27/03/2020 04h00

Enquanto a China volta ao trabalho e promete encerrar a quarentena na província de Hubei, centro da pandemia de covid-19, mais dúvidas e críticas são levantadas sobre os dados oficiais que apontam para a diminuição radical de novas transmissões do novo coronavírus no país.

"Um terço do total dos testes positivos é assintomático e não está sendo incluído nos números oficiais", disse Gary Liu, diretor-executivo do "South China Morning Post", jornal com sede em Hong Kong, num evento online do TED na quarta-feira (25). Ele explicou que seus jornalistas tiveram acesso a documentos e dados governamentais confidenciais.

Na quarta-feira, a China tinha um total oficial de 81.285 casos de testes positivos, com 3.287 mortes. Nas últimas 24h, havia registrado 67 novos casos e 6 mortes, contra 5.210 novos casos na Itália e 683 mortes no mesmo período. No Brasil, o total era de 2.554 testes positivos e 59 mortes (com 307 novos casos e 13 mortes nas últimas 24h). Os dados são compilados pela World Meters.

Além do "South China Morning Post", outras fontes vêm registrando críticas aos números oficiais chineses. Uma emissora pública de Hong Kong afirmou na segunda-feira que os hospitais em Wuhan estavam se recusando a testar pacientes com sintomas. Outros relatos falam em liberação em massa de pacientes infectados antes da visita do presidente Xi Jinping à cidade, no começo do mês.

"Então poderíamos ter outros 30%, além dos números que estamos vendo hoje. Foi o que descobrimos", disse Liu. "Agora, não acredito que isso seja um exemplo do governo chinês tentando ocultar informações. É apenas uma questão de definições que os países têm debatido."

Coreia do Sul, Japão e Singapura incluem os testes positivos de assintomáticos em suas contas oficiais, como sugere a Organização Mundial de Saúde. Porém, países como Japão e Brasil deixaram de testar assintomáticos para dar prioridade aos sintomáticos — no caso do Brasil, apenas quem chega ao pronto-socorro com falta de ar e insuficiência respiratória.

Liu explicou que a definição do governo chinês para a contagem de casos confirmados do novo coronavírus mudou em 7 de fevereiro, quando o país parou de incluir os assintomáticos — pessoas cujos testes dão positivo para covid-19 mas não apresentam sintomas da doença, embora ainda possam transmitir o vírus para outros indivíduos. Calcula-se que mais de 43 mil pessoas tiveram resultado positivo para covid-19 e estavam assintomáticas, ao final de fevereiro — quando o país já contabilizava quase 80 mil casos.

Hubei, província da cidade de Wuhan com 58 milhões de habitantes, terá sua quarentena de 11 semanas encerrada apenas em 8 de abril. Segundo dados do governo, Wuhan chegou a ficar cinco dias sem registrar um caso (segunda-feira, dia 23, um novo teste deu positivo).

Rastreamento rígido e digital

Mesmo deixando os assintomáticos fora da conta oficial, a China segue aplicando seu protocolo rígido de contenção, que tem funcionado "extraordinariamente bem", segundo Liu.

Uma vez com o resultado de exame positivo, seja assintomático ou não, o indivíduo segue para quarentena de duas semanas. Na sequência, as autoridades dão início ao rastreamento de contato, onde todos os que tiveram ligação física com o infectado são procurados e testados.

"Em vários lugares da região, como Hong Kong, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, o rastreamento de contato tem sido uma ação chave, muito importante", disse Liu. "A China não está fazendo exames nos assintomáticos e liberando. Não é esse o caso."

Segundo reportagem da revista Bloomberg Businessweek, outras táticas um tanto invasivas têm sido utilizadas pelos governos da região para o rastreamento de contato, com ajuda de empresas locais de tecnologia.

As gigantes Tencent e Alibaba, dona do jornal South China Morning Post, ajudaram a desenvolver um sistema de avaliação de saúde por cores que consegue identificar o risco de cada pessoa e monitorar seus movimentos. O sistema é usado em escritórios, shoppings e metrôs, escaneando e autorizando (ou não) a entrada de indivíduos.

A revista também cita firmas de comércio digital que têm registrado quem compra tratamentos para tosse ou febre em certas cidades. E o app WeChat ganhou uma nova função: seus usuários podem ver se passaram perto de gente infectada.

Hong Kong volta a se isolar

Gary Liu, CEO do South China Morning Post, contou que tem trabalhado de quarentena em casa desde a última semana, quando foi confirmado um caso de covid-19 na redação. "Toda a organização está trabalhando de casa", disse.

Quando Hong Kong confirmou seu primeiro caso, em 23 de janeiro, Liu estava de férias nos EUA e voltou logo para evitar ficar preso no país, sem voos disponíveis. "As pessoas começaram a nos mandar máscaras e desinfetantes, e agora é o oposto, estamos mandando materiais para nossas famílias e amigos em Nova York e Califórnia", disse. "Tudo mudou muito rapidamente em poucas semanas."

Homem de máscara cirúrgica caminha pelas ruas de Macau, província chinesa - Macau Photo Agency/Unsplash
Homem de máscara cirúrgica caminha pelas ruas de Macau, província chinesa
Imagem: Macau Photo Agency/Unsplash

Mas, enquanto a China volta a funcionar, Hong Kong volta a se isolar, com muitas empresas e mesmo o governo local pedindo que seus funcionários retornem a trabalhar de casa. A cidade de 7 milhões de habitantes foi de 10 infecções num dia há dois meses para 48, no intervalo de 24h, na semana passada. No total, foram registrados 410 testes positivos, com quatro mortes (nas últimas 24h, 23 novos casos, sem morte).

Liu acredita que Hong Kong, assim como diversos países da Ásia, foi "vacinada socialmente" na época do Sars e Mers, doenças respiratórias causadas por um outro tipo de coronavírus em 2003 e 2012, respectivamente, o que explica muito a forma como está lidando com a covid-19. Das 774 mortes no mundo relacionadas a Sars, cujo vírus veio do sul da China, 39% foram em Hong Kong.

Depois da Sars, as autoridades de saúde da cidade aumentaram a capacidade de seus hospitais, especialmente para doenças infecciosas, e criaram novos avisos de sistemas de alerta e protocolos de tratamento. Espaços públicos também são constantemente desinfetados, e os populares carrinhos de dim sum praticamente sumiram das ruas por questões de higiene.

"Socialmente, houve uma mudança enorme pós-Sars. A primeira coisa foram as máscaras. Mesmo nos hospitais, era raro de ver os médicos usando. Depois da Sars, todo mundo usa", disse. "E nos restaurantes bons, há sempre dois pares de pauzinhos. Um para pegar a comida no centro da mesa, e outro para pegar comida do seu prato e levar à boca."

"Vai piorar muito antes de melhorar"

Sobre a situação global da escalada da covid-19, Liu acredita que "vai piorar muito antes de começar a melhorar". "Quando você olha para os dados dos países, fico muito preocupado com os EUA", disse.

Ele lembra que, quando a China anunciou seu fechamento em 23 de janeiro, havia 830 casos confirmados no país, contra os mais de 13 mil casos nos EUA no dia 19 de março, quando o primeiro estado americano anunciou seu fechamento (Califórnia). Nova York, estado mais atingido até agora com quase 33 mil casos, fechou dois dias depois.

"Mesmo que os números na China não sejam exatamente precisos, é uma grande diferença", disse.

Na quarta-feira, os EUA tinham total de 68.203 casos com 1.025 mortes. Nas últimas 24h, havia 13.347 novos casos e 245 mortes, incluindo 95 só de Nova York.

Tentando manter o otimismo, o executivo acredita que os países deveriam colaborar entre si para resolver suas curvas de infecção com ações drásticas, rápidas e decisivas. "Só assim para sair do outro lado de maneira mais rápida do que os números estão mostrando no momento", disse.