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Revolta da elite paulista: o que foi a Revolução Constitucionalista de 1932

Cenas de combatentes da Revolução de 1932 - Acervo de Ricardo Della Rosa
Cenas de combatentes da Revolução de 1932 Imagem: Acervo de Ricardo Della Rosa

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

09/07/2020 10h15

Feriado em São Paulo desde 1997, 9 de Julho é considerada a data magna do estado.

O dia marca o início de um levante armado em que paulistas enfrentaram o governo federal, então sob o comando de Getúlio Vargas (1882-1954). As batalhas duraram até 2 de outubro, quando os insurgentes assinaram a rendição. É a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, considerada o maior conflito militar do Brasil no século passado, última guerra civil ocorrida no País.

Marcas do episódio estão presentes em monumentos — como o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, mais conhecido como Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo — e logradouros públicos espalhados por todo o estado, com nomes como 9 de Julho e 23 de Maio. E também no discurso, é claro: a partir da revolução, consolidou-se a imagem de São Paulo como estado forte, líder da nação.

"A Revolução mostrou a capacidade do povo paulista de se mobilizar por uma causa", afirma ao TAB o pesquisador e colecionador Ricardo Della Rosa, neto de combatentes e autor do livro "Revolução de 32: A história da guerra paulista em imagens, objetos e documentos". "Houve mobilização militar, a indústria se mobilizou, a economia se mobilizou, a sociedade civil se mobilizou. Fizemos de tudo para sustentar uma luta muito difícil, que é um estado contra o resto da nação totalmente armada, muito melhor equipada e com muito mais soldados treinados."

Professor da Universidade Estadual do Maranhão, o historiador Marcelo Cheche Galves atenta para a construção da ideia de que "São Paulo carrega o Brasil". "Aquela imagem de que o estado é uma locomotiva conduzindo vinte e tantos vagões vazios, o discurso de que se São Paulo fosse um país, seria um país muito melhor, todo esse argumento da grandiosidade de São Paulo remonta a 32", afirma ele, ao TAB.

Cenas de combatentes da Revolução de 1932 - Acervo de Ricardo Della Rosa - Acervo de Ricardo Della Rosa
Cenas de combatentes da Revolução de 1932
Imagem: Acervo de Ricardo Della Rosa

O que foi e quais as causas da Revolução? "A Revolução foi a resposta do governo e da sociedade paulista à intervenção do ditador Getúlio Vargas", resume Della Rosa. Alçado ao poder por um golpe de Estado, em 1930, Vargas passou a incomodar São Paulo ao limitar a autonomia dos estados, indicando interventores para seus comandos. "Ele tinha birra dos paulistas e passou a indicar interventores cada vez mais malucos e incoerentes para cá", comenta o pesquisador. Galves explica que o barril de pólvora foi resultado da "forma como São Paulo foi desalojada do poder, no fim dos anos 1920, com a ascensão de Vargas em um momento de crise econômica provocada pela quebra da Bolsa de Nova York [em 1929]".

O dia 23 de maio. O principal estopim do conflito em si foi uma manifestação ocorrida no centro de São Paulo em 23 de maio de 1932. Na contenção ao movimento, tropas getulistas deixaram quatro mortos, os jovens Mário Martins de Almeida (1907-1932), Euclides Bueno Miragaia (1911-1932), Dráusio Marcondes de Sousa (1917-1932) e Antônio Américo de Camargo Andrade (1901-1932) — que deram origem ao acrônimo MMDC: Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo.

E como foram os conflitos armados? O fracasso militar dos paulistas nas batalhas podia ser explicado pelo improviso como as tropas precisaram ser montadas. Do lado federal, estava o Exército, a Marinha e a Aviação (precursora da Força Aérea), além de forças policiais de estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso. "Por São Paulo, lutaram as unidades do Exército aquarteladas aqui, a Força Pública [hoje Polícia Militar], e um monte de civil mal-armado e mal-treinado. São Paulo foi para a luta já numa desvantagem tremenda", contextualiza Della Rosa. Segundo estimativas do historiador Marco Antônio Villa, professor da Universidade Federal de São Carlos e autor do livro "1932: Imagens de Uma Revolução", foram mais de 100 mil homens em combate — 55 mil das tropas federais, 30 mil das forças policiais dos estados alinhados a Vargas, e 30 mil soldados pelo lado paulista. Destes últimos, 10 mil eram voluntários.

Arthur Friedenreich (dir.) e Faria, dois jogadores do São Paulo que combateram na Revolução Constitucionalista de 1932 - Reprodução - Reprodução
Arthur Friedenreich (dir.) e Faria, dois jogadores do São Paulo Futebol Clube que combateram na Revolução Constitucionalista de 1932
Imagem: Reprodução

Onde ocorreram as batalhas? Della Rosa acredita ter sido um erro tático São Paulo não decidir avançar para o Rio já no dia 10 de julho. "O resultado militar poderia ter sido favorável. Ao contrário, acabaram se entricheirando e passaram o resto do tempo segurando as forças federais que avançaram para combater os insurgentes", comenta. A maior parte das batalhas ocorreu em municípios paulistas próximos aos estados vizinhos. Ao sul, cidades de Buri, Capão Bonito e Faxina (hoje Itapeva) tiveram combates. Mais perto do Rio, Cruzeiro, Queluz, Lavrinhas e Areias também foram frentes de batalha. Do lado próximo a Minas, houve fogo cruzado em Itapira, Mogi-Guaçu, Mogi Mirim, entre outros. "Nessas três pontas, o bicho pegou mesmo", pontua o pesquisador.

E o que aconteceu de fato? Muitas mortes? Segundo estimativas de Della Rosa, foram de 1 mil a 2 mil mortes entre os paulistas — e pelo menos o dobro do lado federal. O historiador Villa é mais conservador: para ele, foram 634 constitucionalistas mortos. No Obelisco do Ibirapuera, conjunto artístico e arquitetônico concebido por Galileo Emendabili (1898-1974), estão sepultados os estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (que deram origem ao acrônimo MMDC), o jornalista Guilherme de Almeida (conhecido como o Poeta de 32), o jurista Ibrahim de Almeida Nobre (o Tribuno de 32), o agricultor Paulo Virgínio (o Herói de Cunha) e outros 713 ex-combatentes — muitos dos quais, evidentemente, não tombaram em campos de batalha, morrendo bem depois da Revolução.

Se perdeu a guerra, por que comemorar? Todo um simbolismo foi construído e é representado, anualmente, no desfile cívico-militar que ocorre em São Paulo. "Na História, é muito comum que se comemorem as derrotas. Comemorar significa rememorar a partir de interesses do presente", pontua o historiador Galves. "Obviamente que, em cada tempo, São Paulo lembrou dos seus mortos como forma de ressaltar a importância do estado na federação, marcar o dia em que São Paulo pegou em armas 'para salvar o Brasil', esse tipo de coisa. As razões são atualizadas com o tempo, mas sempre no sentido de saudar a 'grandiosidade de São Paulo'." Della Rosa acredita que São Paulo comemora "exatamente o fato de não ter se ajoelhado perante o ditador Getúlio Vargas". "Comemora a coragem de ir à luta, o fato de que os paulistas se irmanaram em 32 por uma causa maior", prossegue.

E o legado? Perdeu-se militarmente, mas ganhou politicamente. "A derrota paulista foi sucedida pela eleição da Assembleia Nacional Constituinte, em maio de 1933, responsável pela nova Constituição, que foi promulgada em 1934. Nesse sentido, consolidou-se um discurso nos meios intelectuais e jornalísticos afins aos revoltosos de 1932 de que o movimento acabou sendo bem-sucedido, pois pressionou e obteve o retorno ao regime constitucional", diz ao TAB o historiador Paulo Garcez Marins, professor do Museu Paulista da Universidade de São Paulo. O jurista e político Hélio Bicudo (1922-2018) certa vez definiu a Revolução de 1932 como "o maior movimento popular de caráter democrático a que assistimos no Brasil". Marins ainda acrescenta o papel identitário. Para ele, "a Revolução de 1932 acelerou um processo de redefinição ideológica do que caracterizaria os paulistas".