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Florestan Fernandes, 100 anos: como o sociólogo explicaria o país de 2020

O sociólogo e professor Florestan Fernandes, em sua casa, em São Paulo, em 1995 - Eder Luiz Medeiros/Folhapress
O sociólogo e professor Florestan Fernandes, em sua casa, em São Paulo, em 1995
Imagem: Eder Luiz Medeiros/Folhapress

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

22/07/2020 04h00

A reedição dos principais livros do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995), em coleção inaugurada pela Editora Contracorrente para marcar o centenário de seu nascimento, tem uma missão necessária aos movimentados dias atuais. A ideia é trazer Florestan Fernandes de volta ao debate público. O UOL, em parceria com a Casa do Saber, o Grupo Tapa e o Sesc, homenageia o intelectual nesta quarta-feira (22) com a leitura de uma peça dramática e uma roda de conversa.

Foi o que seu filho, o jornalista Florestan Fernandes Júnior, disse ao sociólogo Bernardo Ricupero, professor da USP (Universidade de São Paulo), ao indicá-lo para coordenar o projeto. "Essa intenção se justifica", diz Ricupero ao TAB. "Florestan está fazendo muita falta. Seus temas ainda são os nossos temas. Mais do que isso, vale voltar a Florestan para entender melhor essas questões e buscar, efetivamente, criar uma sociedade democrática, como sempre se quis."

A estreia da empreitada vem com "A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica", para muitos a principal obra de seus mais de 50 títulos publicados. Lançada originalmente em 1975, foi uma resposta do sociólogo ao processo que instaurou a ditadura militar no Brasil, em 1964. O projeto deve publicar 20 títulos ao todo, dois por semestre.

Revisitar a obra dele em 2020 é um mergulho visceral na construção social do Brasil, inclusive diante da conclusão: somos o que somos porque, ao contrário de tantas democracias pelo mundo, sobretudo as europeias, jamais realizamos uma revolução burguesa de fato.

"Um de seus conceitos centrais, o de 'autocracia burguesa', não deixava também de ser algo desolador para aqueles seus contemporâneos que buscavam diretamente no livro um meio, digamos, operacional, de combate à ditadura civil-militar", conta ao TAB o sociólogo André Botelho, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Segundo Ricupero, o livro mostra que, ao contrário do "modelo clássico", a tal revolução burguesa brasileira não promoveu uma ruptura com o passado — porque a burguesia se identificava com a oligarquia, marcando sua dominação por interesses privatistas.

"Nossa burguesia é extremamente atrasada e teve várias oportunidades para fazer a revolução burguesa, ampliando o bem-estar social. Mas não houve essa grandeza em nenhum momento", afirma Fernandes Júnior.

"A dinâmica brasileira, na qual a dissolução da sociedade tradicional não foi completa, é expressa na violência com que índios, negros, pobres, grupos e classes minoritários são tratados", afirma o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ao TAB.

Florestan Fernandes

5 tópicos atuais da obra de Florestan Fernandes

  1. Desigualdade social. "Esse foi o núcleo mais íntimo da obra de Florestan", afirma o sociólogo Paulo Silveira, genro de Florestan e também professor da USP, ao TAB. Ricupero lembra da dificuldade de se constituir no Brasil a chamada "ordem social competitiva" -- ele chama a atenção, em especial, para o fato de que "a própria competição é incorporada ao privilégio, transformando-se em privatismo". "Para Florestan, o Brasil tem dificuldades de deixar de ser uma sociedade estamental e passar a ser uma sociedade de classes. A igualdade do mercado não se impõe plenamente, já que se acredita que alguns são melhores do que outros. Basta pensar num episódio recente, quando um casal que desrespeitava a quarentena foi abordado por um guarda que os interpelou, dizendo: 'cidadão'; e foi respondido: 'cidadão, não, engenheiro civil'."
  2. Diferença racial. Muitos consideram Florestan o primeiro sociólogo a desmistificar a ideia do Brasil como uma democracia racial. Segundo Ricupero, a pesquisa original de "A integração do negro na sociedade de classes", encomendada pela Unesco, era para mostrar que o Brasil seria um modelo de relações raciais harmônicas. "Diante do que descobrem, os pesquisadores denunciam o 'mito da democracia racial'. Florestan, em particular, chama a atenção como o negro tem uma enorme dificuldade de encontrar um lugar na sociedade. Ele sabia que a cor da pele marca a posição social no Brasil."
  3. Polarização política e democracia. Florestan não chegou a ver o que as redes sociais eram capazes de fazer, mas sua obra ajuda a entender a polarização dos últimos anos. "'Sociedade de classes e subdesenvolvimento' e 'Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina' são, por exemplo, livros que ilustram a viva atenção para a polarização política", exemplifica Paulo Silveira. "Ele procurou conhecer os limites estreitos do caminhar histórico da burguesia e, como consequência, a fragilidade da democracia brasileira, sempre a andar sobre um corda bamba", diz Silveira, citando "Nova república?" e "A Constituição inacabada" como obras a tratar do assunto. "O mínimo que se avança para diminuir desigualdades pode ser respondido agressiva e violentamente, até porque nossa sociedade não é plenamente de classes, ainda possuindo elementos de uma sociedade estamental. Não por acaso, em tempo não muito distante, se reclamava que 'os aeroportos se converteram em rodoviárias'", comenta Ricupero.
  4. Os povos originários. O ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso diz que Florestan começou a analisar o Brasil desde o início, já que suas duas primeiras obras -- mestrado e doutorado -- trataram do povo indígena tupinambá, um povo dizimado ("Organização social dos Tupinambá", de 1949, e "A função social da guerra na sociedade Tupinambá", de 1951). "Florestan inicia seu trabalho acadêmico, por assim dizer, pelo 'ponto zero' da história brasileira, diz Ricupero. Segundo Silveira, ele buscava "o chão histórico" a partir do qual foi erguida a sociedade. "A causa indígena é, pois, para Florestan, uma questão de fundo, uma questão de princípio, no sentido mais profundo da palavra: ético e histórico, originário", afirma.
  5. Educação gratuita e universal. Os problemas do Brasil têm origem em uma raiz podre: a fraca educação. "Ele foi um batalhador incansável na defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, e em todos os níveis", comenta Silveira. "Seu nome figura entre os melhores na história do século 20, ao lado de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire. Nestes tempos de Olavos e Weintraubs, em que parece que foi destampado o lixo da história, a contribuição de Florestan é não só atualíssima como absolutamente urgente."

O rigor do criador de tigres

Em seu último artigo publicado — "O rateio da pobreza", um dia após sua morte, em 11 de agosto de 1995, no jornal Folha de S. Paulo —, Florestan escreveu que o subdesenvolvimento "só desaparecerá quando os de baixo lutarem organizadamente contra a espoliação, exigindo transformações profundas na política econômica, nas funções do Estado e na estrutura da sociedade de classes".

Logo após a eleição para a Presidência da República do seu mais ilustre aluno e orientando, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes afirmou que a eminência do pupilo se devia ao fato de que ele não "criava gatos". "Eu crio tigres."

Em entrevista concedida ao Jornal da USP no início de julho, Fernando Henrique definiu o método do mestre como um estilo florestânico de fazer sociologia. "A devoção aos alunos que ele tinha, a competência muito grande em antropologia, sociologia e até mesmo em economia", explica. "Ele era florestânico nesse sentido: era abrangente. Um grande trabalhador. Seu escritório era simples mas cheio de livros. E ele fichava tudo."

Sobre a obra "A revolução burguesa", Fernando Henrique lembra que a tal "autocracia burguesa" pode não ser um conceito, mas sim um preconceito. "Ele não gostava nem da burguesia nem da autocracia", comenta. "É um livro interessante. Ele inventou esse conceito, no fundo, uma análise de classe. E raiva de classe também. Tem um lado positivo. Ele tinha noção da revolução burguesa e, no Brasil, a burguesia não fez revolução nenhuma. Ele mostra porque não fez: porque [a burguesia nacional] tinha raízes oligárquicas. É um livro crítico, sem dúvida."

Atualidade florestânica

Florestan Fernandes Júnior conta ao TAB que, recentemente, estava mexendo em algumas obras do pai e encontrou o livro "Poder e contrapoder na América Latina". Ficou impressionado com a atualidade do texto.

"Ali tem um capítulo que ele dedicou ao fascismo na América Latina, escrito para uma palestra que ele fez na Universidade de Harvard em 1971, em plena época da ditadura brasileira", relata. "Resumidamente, ele diz que as pessoas tinham a ideia de que haviam derrotado o fascismo e o nazismo com a morte de Hitler e Mussolini. Mas era um engano. Para meu pai, o fascismo não morreu e continuava vivo."

Florestan afirmava que o fascismo era o braço armado do capitalismo. "E sempre que o capitalismo se sente ameaçado, esse braço aparece", diz seu filho. "Isso tem muito a ver com o momento que a gente está vivendo, não só no Brasil como no mundo."

"Celebramos o centenário de Florestan Fernandes em meio a uma das maiores crises humanas e sociais do Brasil moderno, cujos efeitos se fazem sentir com maior intensidade na vida dos índios, dos negros e dos pobres", avalia Rogério Baptistini Mendes. "Certamente, a sociologia do mestre desaparecido em agosto de 1995 auxilia a diagnosticar a situação e encontrar um remédio que alimente a esperança dos de baixo."